«Quando o alto-falante anunciou que eu me achava no camarote principal, a assistência, calculada em 80.000 espectadores, como que movida por mola oculta levantou-se a tributar-me quente e demorada ovação que a TV transmitiu a todo o País. E note que, tendo saído do estádio quinze minutos antes do fim do desafio, não houve ninguém nas duas longas filas de pessoas que, como eu, procuravam evitar a confusão do final e por entre as quais passei que não me desse palmas - o que às pessoas que me acompanhavam pareceu ainda mais expressivo que a manifestação colectiva. E as informações que chegavam ao governo também garantiam sossego geral e apoio ao regime», escreveu Caetano no seu livro «Depoimento», publicado em 1974.

O regime sabia que estava a crescer o sentimento de revolta. A 16 de março iniciara-se no regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Rainha, uma marcha sobre Lisboa com duas centenas de militares denominada «À conquista da Liberdade», que obrigou Marcelo a refugiar-se em Monsanto. A propaganda tentou dar sinal de tranquilidade e criou um evento, aproveitando o dérbi para dar força ao líder. Diz-se que até Otelo Saraiva de Carvalho terá vacilado.

Caetano surgiu no estádio do Sporting acompanhado do ministro de Estado Adjunto (Mário Morais de Oliveira, grande adepto do Sport Lisboa e Benfica) e do ministro da Educação Nacional (Veiga Simão), para além do presidente do Sporting João Rocha e do presidente do Benfica Borges Coutinho.



Em campo o Sporting tinha tudo para celebrar o título, pois na altura juntava quatro pontos de avanço para o rival Benfica e caso vencesse as quatro jornadas restantes seriam um mero pro forma. Um triunfo dos encarnados, por seu lado, serviria para relançar a luta pelo título, pois reduziria a diferença para apenas dois pontos. O Benfica de Fernando Cabrita tinha várias ausências, pois não podia contar com Eusébio, Artur Jorge e Jaime Graça. O «king», que já servia mais como «fator psicológico» do que unidade diferenciadora em campo, seria substituído por Toni.

A semana que antecedeu o jogo ficou marcada pela «guerra» de palavras entre os dois clubes, com o Sporting a pedir à Comissão Central de Árbitros a nomeação de um juiz espanhol para dirigir o dérbi e a verdade é que o encontro ficaria marcado por uma péssima atuação do árbitro. Na véspera do jogo, mais uma acha para a fogueira, com o clube de Alvalade a pedir controlo anti-doping.

Vivia-se o primeiro ano da presidência de João Rocha e os leões acabariam por fazer a dobradinha, naquela que foi também a melhor época de Yazalde, que marcou 46 golos e conquistou a Bola de Ouro. O avançado até abriu o marcador no dérbi, logo aos oito minutos, mas viu o Benfica virar o jogo e apesar de ter bisado ao intervalo o Sporting perdia em casa (2-3).

Os encarnados faziam uma grande exibição, apesar das ausências e com o guarda-redes José Henrique a ter de ser substituído por Bento devido a lesão. Logo início do segundo tempo Jordão aumentou o marcador para a formação visitante e Vítor Martins ampliou a vantagem aos 70 minutos (2-5). Até ao fim só mais um golo para os da casa, por grande penalidade, e o campeonato relançado.

FICHA DO JOGO
26ª jornada
31 de março de 1974
Estádio José Alvalade, em Lisboa
Árbitro: Raúl Nazaré (Setúbal)
SPORTING - Damas; Manaca, Bastos, Carlos Alhinho e Carlos Pereira; Wagner, Nélson Fernandes e Dinis (Dani Silva, 74); Marinho, Yazalde (Chico Faria, 66) e Dé.
Treinador: Mário Lino
BENFICA - José Henrique (Bento, 45); Artur Correia, Humberto Coelho, Barros e Adolfo Calisto; Toni, Vítor Martins e António Simões; Nené (Diamantino, 74), Jordão e Vítor Batista.
Treinador Fernando Cabrita
Resultado final: 3-5
Marcadores: 1-0, Yazalde (8m); 1-1, Humberto Coelho (12); 1-2, Nené (31); 1-3, Nené (35); 2-3, Yazalde (42, g.p.); 2-4, Jordão (58); 2-5, Vítor Martins (70); 3-5, Dé (89, g.p.)

O rival da Luz aproveitava o bom momento para desabafar e responder às polémicas lançadas antes do encontro. «O comunicado do Sporting é inqualificável. Incrível como pessoas com responsabilidades tomam atitudes tão mesquinhas. Falta de categoria, para não lhe chamar outra coisa»», disse Toni, enquanto o capitão Simões foi mais longe: «Foi pena o Sporting não se ter lembrado do controlo anti-doping no início do campeonato, mas nós não devemos e não tememos, fazemos chichi quando eles quiserem, onde eles quiserem».

O treinador Fernando Cabrita deixava tudo em aberto no campeonato: «Os jogadores do Benfica não precisam de se drogar para serem os melhores de Portugal, como provámos neste jogo com o Sporting, jogando de orgulho ferido. E ainda há oito pontos em disputa, por isso não nos façam já o enterro...». O presidente Borges Coutinho emocionava-se com a prestação da equipa e dobrava o prémio de jogo para 16 contos.

Do outro lado, algum ironia a surgir nas palavras do avançado brasileiro Dé: «Me tinham dito que o Benfica era time de velhinhos. Mas não. É timão, não é velho não. E ganhou sensacionalmente. Só temos de tirar o chapéu. Mas, acredite que vamos ser campeões...»

E foram mesmo. Até ao final do campeonato o Sporting conseguiu segurar a vantagem, que chegou a ser encurtada para um ponto, mas que na última jornada voltou aos dois pontos, devido ao empate do Benfica em Setúbal. Foi a conquista do título nacional no ano da revolução dos cravos, o 14º do historial do clube, que desde então só foi campeão apenas mais quatro vezes.