10 da manhã. Álvaro Gregório toma o pequeno-almoço no seu local de trabalho, em Vilar de Andorinho (V.N. Gaia), antes de mais um dia de serviço às mesas e ao balcão.

O funcionário do pão quente sabe que a jornada terminará já perto das 23 horas. Sorri, ainda assim. É feliz.

Desta vez, Álvaro Gregório chega um pouco mais cedo para receber o Maisfutebol. A entrevista é interrompida pontualmente para uma troca de palavras com quem passa.

Por lá, quase todos sabem que aquele funcionário tem um currículo especial: somou 42 internacionalizações nas camadas jovens de Portugal, foi campeão da Europa de sub-16, era uma grande promessa do FC Porto e ganhou «muito, muito dinheiro» até aos 25/26 anos.

Agora trabalha oito, nove, dez horas por dia. «O jogador de futebol trabalha uma hora e meia por dia, depois tem de se habituar a isto. E curiosamente, ganho tanto agora como quando tinha 18 anos e era júnior do FC Porto», diz. Álvaro Gregório não fala com amargura, ainda assim. Gosta do que faz e sabe a estabilidade é importante.

«Entrei aqui há quatro anos e sou uma pessoa normal, faço atendimento às mesas e ao balcão sem qualquer problema. Sinceramente, acho que nasci para atender as pessoas. Gosto de agradar, de receber e ver o cliente a sair daqui satisfeito. Parece que tenho mais jeito para isto do que para jogar futebol.»

O antigo lateral continua a ser reconhecido mas não se agarra ao passado.

 
«Sou um funcionário de um pão quente, simplesmente, mas sou feliz. Tenho clientes que, passados vinte anos, me reconhecem e dizem que gostavam muito de me ver a jogar. É gratificante, admito, mas não passa disso. A minha vida segue.» 
 
As explicações e o aviso: «Os jogadores de futebol vivem num mundo de ilusão»    

 

[Foto: Álvaro Gregório ladeado pelos seus patrões no local de trabalho] 

Os Campeonatos da Europa e o Mundial falhado

Álvaro Gregório era uma referência nos escalões de formação do FC Porto. Lateral entusiasmante, chegou com naturalidade às seleções nacionais e disputou o Campeonato da Europa de sub-16 em 1989.

A seu lado estavam nomes como Emílio Peixe ou Luís Figo, autor de um golo na final frente à República Democrática da Alemanha (4-1). Canana, Miguel Simão e Gil Gomes marcaram os restantes tentos.

As seleções jovens rasgavam novos horizontes. Nesse ano, os sub-20 venceram o Mundial da categoria em Riade. Este grupo, mais jovem, seguiu para o seu Mundial sem conseguir melhor que um terceiro lugar.

Álvaro Gregório esteve sempre lá. No ano seguinte, participou no Europeu de sub-18. «Perdemos na final frente à União Soviética, na Hungria, nas grandes penalidades», recorda.

O grande objetivo, de qualquer forma, era o Mundial de 1991. Portugal recebia o torneio de sub-20 e pretendia fazer história, sagrando-se bicampeão na categoria. Algo que viria de facto a acontecer.

«Falhei esse mundial. Meses antes, nos juniores do FC Porto, Augusto Inácio decidiu recuar Rui Jorge no terreno e colocá-lo como lateral. Com isso deixei de jogar no clube e assim sendo perdi espaço na seleção. Ainda fiz parte da lista provisória de 23 mas não entrei na lista final de 18».

O lateral termina o seu período de formação e segue para Vidal Pinheiro por empréstimo do FC Porto.

 
  «Foi um período interessante, o Salgueiros estava nas competições europeias e acabei por ficar dois anos. Ainda regressei ao Porto, ia para estágio mas no primeiro dia o Artur Jorge acaba por dispensar alguns e eu sou um deles.»

Em Paços de Ferreira, Álvaro Gregório cumpre o último ano de ligação ao FC Porto. Continua a demonstrar qualidade na Mata Real e merece a confiança de Nelo Vingada para o Europeu de sub-21, em 1994.

«Ele gostava bastante de mim. Por vezes jogava o Paulo Torres como lateral e eu em outras posições. Cheguei a jogar a médio defensivo, atrás do Rui Costa e do Figo. Era um luxo», relata o esquerdino, entre sorrisos.

Portugal cai na final do torneio frente à Itália de Toldo, Panucci, Cannavarro ou Inzaghi, graças a um golo de ouro de Orlandini no prolongamento (1-0).

Álvaro Gregório termina o vínculo com o FC Porto após esse torneio. Os dragões investem em Emerson e aceitam libertar alguns jogadores em troca do médio brasileiro. O lateral ruma ao Belenenses a par de Bino, Tulipa e Miguel Bruno.

[Foto: Álvaro Gregório, quinto na fila de cima, da esquerda para a direita, na Constituição; nesta imagem estão ainda nomes como Bino, Tulipa ou Sá Pinto]

Lula e o duplo azar na 13ª jornada

Após uma temporada no Belenenses, Álvaro muda novamente de clube. Desta vez, por causa de Lula. «O Belenenses queria o Lula, que ainda tinha contrato com a U. Leiria. Tinha chegado o Fernando Mendes ao Restelo e a U. Leiria queria-me para libertar o Lula, portanto assim foi.»

«João Bartolomeu disse logo que só me queria para fazer uma transferência. Ofereceu-me quatro anos de contrato mas não tinha forma de pagar o meu salário por mais de uma época. Com 22 ou 23 anos, eu era o jogador mais caro do plantel.»

O cenário de sonho muda nessa altura. Uma grave lesão serve de aviso para o que de mau se seguiria. «À 13ª jornada, faço uma rotura de ligamentos no joelho. Estive nove meses parado mas voltei e estava pronto para começar de novo. Porém, de novo à 13ª jornada, precisamente um ano depois, surge mais uma lesão.»

Álvaro Gregório não sorriu no natal de 1996. Dias antes, num U. Leiria-Boavista, sofre uma entrada que compromete o seu percurso como jogador.

«O Paulo Sousa do Boavista fez uma entrada duríssima e rompi todos os ligamentos do joelho. Acho que é a lesão mais grave que um jogador pode ter ao nível dos joelhos. No total, foram dois anos e meio parado, tive quase de aprender a andar de novo e perdi muitas coisas, sobretudo o arranque. Nunca mais fui o mesmo.»

Os dois laterais tinham uma boa relação e Álvaro não guarda rancores. «Entendi que ele podia ter evitado a entrada, era um lance normal, a meio-campo, mas o piso estava escorregadio, ele deslizou e o impacto foi tremendo…Foi pena, sobretudo, mas já passou»

«Deixei-me levar pela ilusão, como muitos»

Álvaro Gregório nunca mais jogou no escalão principal do futebol português. «Em 1998, fui para o Feirense na Segunda Liga, tentando relançar a carreira. Depois para a Naval, no mesmo escalão e mais tarde Paredes e Vila Real, na 2ª Divisão B. Estava a caminhar para o fim…»

O defesa chegava aos trinta anos sem a carreira desejada como sénior. Aceita um convite para jogar no Luxemburgo e aí inicia nesse país a transição para a vida pós-futebol. São capítulos para relatar com profundidade, após uma conclusão óbvia.

«Deixei-me levar pela ilusão, como muitos. No futebol ganha-se muito dinheiro e muito cedo. Depois a transição é extremamente difícil. Felizmente, posso dizer que agora estou novamente de pé, a resolver os problemas e a ser feliz numa outra atividade. Mas foi um grande desafio.»