Onze anos depois do Calciopoli e cinco após o Calcioscommesse, o futebol italiano finalmente parece dar sinais de retoma, não só a nível local como também na Europa. É verdade que fora de portas muito do esforço tem sido feito pela Juventus, com as duas finais consecutivas (perdidas) na Liga dos Campeões, mas não deixa de ser sintomático o rendimento global deste ano, com o segundo melhor registo UEFA atrás de Inglaterra, e que até relativiza a quebra anormal da Alemanha.

Será o renascimento do melhor campeonato europeu das décadas de 80 e 90, aquele que é o destino preferido para as grandes estrelas mundiais como Diego Maradona, Michel Platini, Marco van Basten, Lothar Matthäus e tantos outros? Na altura, qualquer equipa da Serie A tem a sua estrela, e há duas ou três com cinco ou seis. Itália está alla moda.

Nas duas décadas de 80 e 90, as formações transalpinas somam cinco Taças/Ligas dos Campeões (3 Milan, 2 Juventus), oito Taças UEFA (3 Inter, 2 Juventus, 2 Parma, 1 Nápoles), quatro Taças dos Vencedores das Taças (1 Juventus, 1 Sampdoria, 1 Parma e 1 Lazio) e quatro Intercontinentais (2 Juventus e 2 Milan). Já nos últimos 16 anos, há apenas registo de três ligas milionárias (2 Milan, 1 Inter) e duas FIFA Club World Cup (1 Milan, 1 Inter). O passado mais recente está longe de ser famoso no que aos grandes clubes diz respeito, embora a squadra azzurra, que contava com três títulos planetários (1934,  1938 e 1982) e um europeu (1968), além das derrotas nos embates decisivos dos Mundiais de 1970 e 1994, ainda tenha reclamado para si duas finais continentais (2000 e 2012, perdidas respetivamente para França e Espanha) e a vitória no Campeonato do Mundo de 2006.

O impressionante Milan de Fabio Capello.

Como se explica o declínio?

Não há uma única razão que explique o que se passou com o calcio, embora a maior parte dos caminhos pareça ir dar precisamente ao terramoto de 2006, e às suas consequências. O troféu conquistado na Alemanha perde rapidamente brilho e todo o glamour que lhe é inerente com a explosão do Calciopoli, um escândalo de tráfico de influências entre treinadores, dirigentes e árbitros, e que teve como consequência imediata a despromoção da Juventus, e penalizações menores para Milan, Fiorentina, Lazio e Reggina.

É precisamente sobre o declínio da Juventus e a incerteza sobre o Milan que cresce a crise económica que estrangula o futebol do país, ao mesmo tempo que o epicentro do jogo muda para a Espanha e, depois, para Inglaterra.

A Juve é então (ainda é) o clube com maior base de apoio, e o grande concorrente do Milan internamente e nas incursões europeias. Se a Vecchia Signora desce de divisão e não consegue manter algumas das suas grandes figuras, como Thuram, Zambrotta (Barcelona), Patrick Vieira e Zlatan Ibrahimovic (Inter), os Rossoneri são obrigados a iniciar a campanha na Liga dos Campeões a partir da terceira pré-eliminatória, o que deixa dúvidas sobre um eventual apuramento para a fase de grupos e um retorno financeiro do investimento a fazer, com a perda inclusive do goleador Andriy Shevchenko para o Chelsea. Sem poder arriscar contratar, é Kaká quem inspira um Milan envelhecido à conquista do sétimo caneco em Atenas, frente ao Liverpool, e também deixa o dono Silvio Berlusconi lançado para um erro histórico. O de achar que aquele Milan chega para continuar a vencer. As lesões do craque brasileiro, a eliminação nos oitavos de final da Champions na época seguinte perante o Arsenal, e o falhanço na qualificação para a prova milionária logo depois provam que não podia estar mais errado.

O apagão de Juventus e Milan beneficia o Inter primeiro a nível interno e depois continental, já com o toque de Midas de José Mourinho, em 2010, na final de Madrid. A qualidade a nível global baixa. No ano anterior, nenhuma equipa italiana chega aos quartos de final da Champions, Maldini abandona, Kaká deixa um Milan em crise financeira por 63M – com Berlusconi a apostar em ícones do passado como Shevchenko, o talvez já gasto Ronaldinho e um Ibrahimovic longe de convencer Guardiola em Barcelona – e até os nerazzurri trocam anos depois Ibra por Eto’o.

Se a Juventus tenta reconstruir-se aos poucos e assiste com paciência a um Inter pós-Mourinho a abdicar de quatro anos de hegemonia ao contratar Rafa Benítez, o Milan – o mesmo Milan que tinha dominado o mundo com a «inteligência coletiva», o pressing total e futebol de ataque de Arrigo Sacchi, e o perfume de Rijkaard, Van Basten e Ruud Gullit; e depois com as transições avassaladoras e defesas férreas orquestradas por Fabio Capello, em torno de nomes como Desailly, Boban e Savicevic – tem o canto do cisne com o título transalpino de 2010-11. O que ainda não sabem os dirigentes é que antecede seis scudettos sucessivos da Juventus, e um afastamento progressivo do emblema lombardo da luta pelo campeonato.

O último título europeu foi conquistado pelo Inter, em 2010.

De escândalo em escândalo

A época seguinte marca o aparecimento do Calcioscommesse, um escândalo de apostas e jogos viciados, que leva à prisão o antigo avançado Giuseppe Signori e o capitão da Lazio Stefano Mauri, à suspensão do então treinador da Juventus Antonio Conte e a retirada de Domenico Criscito da lista dos eleitos para o Euro-2012, cuja presença italiana chega a estar em causa e a ser defendida pelo selecionador Cesare Prandelli. Curiosamente, a squadra azzurra só perde na final, perante a invencível armada espanhola.

O futebol italiano está em crise, e definitivamente manchado. Não há dinheiro, não há jogadores-top nem capacidade para seduzi-los a curto prazo, e os investidores perdem o interesse.

2012-13 coloca mais um prego no caixão do futebol italiano. A péssima prestação geral das equipas transalpinas na Europa leva à ultrapassagem por parte da Alemanha no ranking da UEFA, com a perda de uma entrada direta na Liga dos Campeões.

Javier Pastore foi uma das jóias contratadas em Itália pelo PSG.

Sangria na qualidade e crise financeira global

O Milan continua a perder referências. Pippo Inzaghi, Nesta, Gattuso, Seedorf, todos eles deixam Milanello. Del Piero diz adeus à Juventus, e ruma à Austrália. Começam, ao mesmo tempo, a aparecer novos players no mercado de transferências, sobretudo o Paris Saint-Germain, com dinheiro fresco acabado de chegar do Qatar e pontaria certeira. Menez, Sirigu, Pastore, Thiago Silva, Ibrahimovic, Lavezzi rumam à Cidade-Luz.

Com menor qualidade em campo e a aposta possível em futebolistas em final de carreira como por exemplo Ashley Cole, Evra ou Vidic, a maior parte dos estádios obsoletos – não renovados desde o Mundial de 1990 e sem oportunidade para fazê-lo novamente com a derrota para a França na candidatura ao Euro-2016 – radicais nas bancadas e sobre os quais caem constantes acusações de racismo e violência, e uma média de lotação de 16 mil pessoas, não há como seduzir craques, adeptos e, sobretudo, investidores. Não há dinheiro para gerar dinheiro.

A receita de bilhética é curta, o valor pelos direitos de transmissões televisivas mantém-se, nesta altura, bem mais baixo, apesar da negociação coletiva de 2010, do que Inglaterra e outros países mais atrativos, e o merchandizing também não garante fortunas. Itália está longe de recuperar um lugar no topo.

 

O que está a mudar: a força do dinheiro

Injeção de dinheiro, com a aquisição dos principais clubes, melhores jogadores, novos estádios, dos quais esses mesmos emblemas serão finalmente proprietários, um bolo maior pelas transmissões televisivas, e equipas com uma filosofia autónoma, assente na formação e num estilo menos estereotipado e mais ofensivo, prometem dar nova força ao calcio.

No que diz respeito ao capital estrangeiro, a dúvida é sempre a mesma: existirá durante quanto tempo e mediante que condições?

A Roma é comprada em 2011 por um consórcio norte-americano liderado por Thomas di Benedetto e, apesar de não ter ainda chegado ao scudetto, prepara-se para deixar o Olímpico, propriedade da Comune da capital e que divide com a Lazio, e mudar-se para o novo Stadio della Roma, em Tor di Valle, com capacidade para 52 mil pessoas. Até a velha Curva Sud, onde os seus adeptos mais ferverosos se concentram, será decalcada na nova infra-estrutura.

O Inter, que tinha desde 2013 como donos o indonésio Erick Tohir – acumula ainda participações na equipa de basquetebol Philadelphia 76ers e no clube da MLS DC United –, é comprado três anos mais tarde por um grupo chinês comandado por Zhang Jindong (Suning Holdings), embora Tohir mantenha 31,45% das ações.

Já o Milan é vendido já este ano pelo magnata dos media e político Silvio Berlusconi a um consórcio chinês liderado por Yonghong Li (Rossoneri Sport Luxemborg, antes denominado Sino-Europe Group), que tem a obrigação de investir 350M em três anos.

O novo Stadio della Roma.

O que está a mudar: novos e estádios próprios

Há dinheiro fresco nos principais clubes. Mesmo a Juventus, que se mantém na família Agnelli desde 1923, anunciou esta quarta-feira 42M de lucro relativos a 2016/17. Não é alheio a essa verba o facto de a Vecchia Signora ser um dos seis clubes da Serie A com estádios próprios – número influenciado pelas promoções recentes de Crotone, SPAL e Benevento; os outros são Udinese e Atalanta – e não camarários.

Numa ronda rápida pelos outros clubes, sublinhe-se que o Palermo chega a ter um dono norte-americano (Paul Baccaglini), mas a compra aborta por o dinheiro não entrar na totalidade já durante 2017, o Bolonha está na posse de um canadiano (Joey Saputo) desde 2014, e o Parma, atualmente na Serie B, é detido por um chinês, Jiang Lizhang, também desde este ano.

A ideia dos novos investidores passa precisamente por aí: novos estádios, com centros comerciais, instalações de suporte, museus e lugares de adepto mais próximos do relvado. Tudo no sentido de acrescentar mais valor à bilhética. Dados do Milan de há duas épocas (Deloitte) explicavam-no de forma simples. Os Rossoneri tinham quebrado 6% em receita, apesar do crescimento de 9% de assistência em San Siro.

A resistência vem das comune, donas da maior parte das infra-estruturas usadas. A Udinese inaugura o novo Friuli em 2015, o Milan anuncia em abril que quer separar-se do Inter na divisão do Giuseppe Meazza, a Fiorentina prepara-se para ter novo palco em 2018/19, e emblemas menos conhecidos como Padova, Cagliari, Avelino e Empoli prometem seguir o mesmo caminho.

 

O que vai mudar: direitos televisivos

O bolo vai, em teoria, aumentar. Se no que diz respeito aos direitos domésticos ainda não há acordo, e existe apenas uma proposta submetida por parte da Sky Italia, tendo a Mediaset desistido da corrida, há sim fumo branco para a venda no estrangeiro, tendo IMG e RAI internacional garantido o negócio por 371M época, valor que quase duplica face ao período de três anos vigente e que expira em maio de 2018. O novo contrato coloca a Serie A na terceira posição dos campeonatos mais bem pagos, atrás dos 1,3 mil milhões da Premier League e dos 636M de Espanha, e à frente dos 240M da Alemanha.

Embora o modelo atual – pressupõe um valor base para todos os clubes em partes iguais, esta época 16,2M, mais uma quota pelos direitos internacionais, outra pelas posições na liga nos últimos cinco anos e uma última pela base de adeptos de cada clube e população da cidade – possa sofrer alterações serve como exemplo os 122,8M ganhos em 2017 pela Juventus contra os 25,2 garantidos pelo modesto Carpi.

Com mais dinheiro a entrar, é de esperar uma maior receita e poder económico reforçado.

A Atalanta desenhou para si um caminho alternativo.

Uma nova classe média

Longe vão tempos da família Tanzi e da Parmalat, símbolo de uma década extravagante (1992-2002), a do Il Grande Parma, que conquistou 2 Taças UEFA, 1 Taça das Taças, 1 Supertaça Europeia e 3 Taças de Itália, e teve nas suas fileiras jogadores como Hristo Stoichkov – que coincidiu com a aposta da Parmalat no mercado de leste –, Buffon, Thuram, Cannavaro, Brujita Verón, Diego Fuser, Chiesa, Crespo, Fernando Couto, Sérgio Conceição e Brolin, por exemplo, e treinadores como Arrigo Sacchi, Nevio Scala, Carlo Ancelotti e Alberto Malesani. Não houve melhor equipa classe média do que essa, destruída pela implosão da empresa de lacticínios em 2003.

Com a quebra de Milan e Inter nos últimos anos, cresceram sobretudo Roma e Nápoles, mas também a Lazio. Os Partenopei não festejam um scudetto desde o reinado de Maradona nos finais da década de 80, mas têm garantido vários lugares no pódio durante as eras de Walter Mazarri, Rafa Benítez e Maurizio Sarri. Já a festa dos dois conjuntos romanos é mais recente. A Lazio, após ter crescido com Zdenek Zeman, chegou ao título em 2000 com Sven-Goran Eriksson, e tem aproximado-se cada vez mais do topo. Celebrou a um terceiro lugar em 2014/15, depois de ter ganho a Taça em 2012/13, e conta com a experiência do técnico Simone Inzaghi, campeão há 17 anos enquanto calciatore laziale.

Já a Roma festejou em 2001, curiosamente um ano depois da festa da outra grande equipa da capital, com Fabio Capello no banco e um tridente ofensivo explosivo formado Montella, Totti e Batistuta, e somou a partir daí segundos lugares, mais concretamente sete segundos lugares (2005/06, 2006/07, 2007/08, 2008/09, 2013/14, 2014/15 e 2016/17), embora tenha conquistado duas Taças (2006/07, 2007/08) e uma Supertaça (2007/08). Manteve-se anos a fio o maior adversário, embora sem conseguir colocar grande resistência, à hegemonia da Juventus.

Ao mesmo tempo, uma nova filosofia nasceu, mais propriamente em Bérgamo, na Atalanta. A academia liderada por Stefano Bonaccorso criou uma verdadeira nova Scuola di calcio, provocando uma rotura com as ideias mais defensivas do passado e a partir de jogadores aí nascidos e criados. Uma maior liberdade e um novo modelo que poderá em breve inspirar outras equipas.

Francesco Totti, grande figura da Roma e do calcio, pendurou as botas na última época.

Novo Renascimento em Itália

Depois da compra pelo consórcio chinês, o Milan investiu 194,5M, mais coisa menos coisa, no plantel. Comprou entre outros André Silva, Çalhanoglu, Bonucci, Ricardo Rodríguez, Kalinic, e esperava-se que sob as ordens de Vicenzo Montella fosse sério candidato à discussão do título. Provavelmente, não será ainda desta que o gigante acordará, face às dificuldades já reveladas no arranque.

O rival Inter também investiu perto de 80M, com Vecino, Skriniar, Dalbert e Borja Valero, acrescentando mais soluções a um grupo que já tinha João Mário, Candreva, João Miranda e Brozovic do ano anterior. A maior aquisição terá sido, no entanto, o treinador Luciano Spaletti, que parece ter unido as pontas soltas a ponto de ter criado um candidato sólido.

A própria Juventus gastou 150M, embora não tenha ainda totalmente recuperado das saídas de Daniel Alves e Bonucci. A Roma perdeu Totti, mas atacou o mercado com 93M. 57M foram os gastos do Nápoles. Lazio ficou-se pelos 29.

O dinheiro volta a jorrar na Serie A, e a qualidade tem de aumentar. Com novos donos, ainda frescos, estádios remodelados a caminho, mais receitas e um bolo maior de direitos televisivos não será estranho se o calcio recuperar a médio prazo pelo menos parte do que já foi.

Os próximos anos o dirão. Os sinais têm sido positivos.