Ao aceitar a sucessão de Arsène Wenger, que treinou o Arsenal durante 22 anos, Unai Emery já sabia que estava a receber uma herança muito pesada, mas o sorteio da Premier League tratou de complicar ainda mais a missão. Os «gunners» começaram a época a receber o campeão, Manchester City, e na semana seguinte visitaram o Chelsea. Duas derrotas para início de conversa.

Ao terceiro jogo os alarmes já estavam prontos para disparar, perante um golo de Marko Arnautovic que deixou o Arsenal em desvantagem na receção ao West Ham, que também tinha zero pontos. Mas a equipa de Unai Emery conseguiu dar a volta ao jogo e venceu por 3-1, assumindo um ponto de viragem. Chega a Alvalade com dez triunfos consecutivos na bagagem, que inclui dois jogos da Liga Europa, e na Premier League já ocupa a quarta posição, a apenas dois pontos da liderança.

Um ciclo positivo que não vive apenas dos resultados, mas também de momentos de futebol galvanizante, dignos dos melhores tempos de Wenger. Como a combinação coletiva que deu origem ao terceiro golo marcado ao Leicester, na passada segunda-feira.

O Arsenal tem seguido uma vocação ofensiva que nem é propriamente comum em equipas de Unai Emery, e existem sinais promissores, ainda que seja muito cedo para balanços.

Mesmo perante a necessidade de incutir alguma rotatividade, por força da exigência do calendário das equipas inglesas (e também das várias lesões que têm atingido o plantel), o técnico espanhol tem sido fiel a uma estrutura em 4x2x3x1. A exceção foi a visita ao Qarabag, abordada num 3x4x3 que foi abandonado ao intervalo.

Onze-base do Arsenal
Onzes do Arsenal na Liga Europa: à esquerda a equipa apresentada frente ao Vorskla Poltava, e à direita no jogo com o Qarabag

A principal virtude do Arsenal é um ataque posicional muito bem trabalhado, que parte de uma construção sólida e depois concilia capacidade de aceleração e de definição no último terço.

Melhorada com a presença na baliza de Bernd Leno - bem mais competente a jogar com os pés do que Petr Cech, que está agora a voltar de lesão -, o Arsenal sustenta a primeira fase de construção numa saída a três, com um dos médios (Guendouzi, Xhaka, Torreira ou Elneny) a abrir numa das alas, em linha com os centrais.

Saída a três com Torreira a abrir na esquerda

O perfil diferenciado dos médios dificulta a tarefa de quem defende: Guendouzi e Torreira conseguem ser muito verticais no passe, mas se o francês gosta também de avançar em condução pela zona central, o uruguaio é forte no passe longo, o que pode permitir variações rápidas de jogo.

Os laterais assumem posições mais adiantadas e «empurram» os (falsos) extremos para o corredor central. Uma opção que permite conciliar o talento de Özil e Mkhitaryan, desde logo, (e por vezes também Ramsey). Os «gunners» criam desequilíbrios na ala com muita facilidade, mas precisamente pela competência com quem ligam o jogo exterior e o interior, baralhando as referências de marcação.

Duas opções de passe: bola no médio-ala, que procurou uma zona mais interior, entre linhas, ou abrir no lateral.
Idem
A bola entra no lateral, que depois pode fazer um passe interior para o médio-ala, ou então lançá-lo em velocidade na linha de fundo. Muitas vezes aparece ainda um terceiro jogador por perto (o «10» ou o ponta de lança): um dá opção de passe por dentro, o outro pede a bola na profundidade.

Jogadores como Iwobi, Welbeck, Lacazette e Aubameyang oferecem capacidade de explosão, criam desequilíbrios tanto por fora como nas costas da linha defensiva contrária, o que torna o Arsenal uma equipa igualmente perigosa em transições rápidas, potenciadas pela clarividência de Özil ou Mkhitaryan.

A jogar como falso ala direito, Mkhitaryan aparece em zona interior, onde existe espaço, para receber a bola e avançar em transição.

Já relativamente à transição defensiva, esse é um momento que o Sporting pode (e deve) explorar, sobretudo através de saídas rápidas pelo lateral do lado oposto àquele em que estava a bola. Isto porque os alas do Arsenal jogam muito por dentro e depois demoram algum tempo a assumir a posição defensiva.

Smith-Rowe estava em zona interior, pelo que Lichtsteiner fica em inferioridade numérica no lado direito

Em organização defensiva o Arsenal procura sempre ter o bloco bem compacto, e para isso a última linha joga bastante subida no terreno, o que acarreta alguns riscos perante adversários que consigam explorar o espaço que fica nas costas, até porque alguns defesas da equipa londrina já são «trintões» e não têm a velocidade de outrora.