Absurdamente bom, o segundo golo de Messi ao Deportivo da Corunha, no último domingo, foi a ilustração perfeita para a palavra «souplesse» - esse termo de tradução ampla que, no caso específico do futebol, mora no cruzamento entre a flexibilidade e a leveza, a subtileza e a agilidade.

Com uma bola nos pés, nada define melhor a palavra «souplesse» do que a qualidade do primeiro toque – a receção orientada num espaço reduzido, que permite inventar saídas onde elas não existem, retirando quase toda a velocidade à bola no momento do contacto. Nos últimas décadas, com o auxílio inestimável do super-slow motion, o futebol tem sido rico em mestres nesta arte, de Romário a Bergkamp, passando por Berbatov, Zidane ou, claro, Ronaldinho.

Esta não foi a primeira nem a última demonstração das qualidades da «Pulga» neste particular, nem sequer a mais espectacular da sua carreira. Mas, para quem preza a memória futebolística dos últimos 30 anos, terá sido uma das mais aproximadas à maestria do camisola 10 que paira como uma sombra sobre todos os craques argentinos – e, de passagem, sobre todas as camisolas 10 – posteriores a 1990. E chegámos onde se deve chegar sempre que há tempo para o essencial: a Diego Armando Maradona, a palavra do Senhor condensada nas suas receções orientadas em espaços impossíveis.

Conquistar a Itália depois do Mundo

Esta não é altura para falarmos do melhor golo de todos os tempos. Isso já foi feito em devido tempo, aqui, a pretexto do Mundial. Vamos deixar esse suave milagre aqui pousado, sem mais palavras, na roupagem nova de um ângulo pouco visto:

O que nos interessa para esta história aconteceu dez meses mais tarde, quando, depois de ter conquistado o Mundo, Maradona se preparava para conquistar algo ainda mais difícil e improvável: o primeiro título de campeão italiano na história do Nápoles. As duas primeiras temporadas de Diego na Série A anunciavam um crescendo. Oitavo em 1985, terceiro em 1986, o Nápoles chegou ao primeiro lugar na 9ª jornada da temporada 1986/87 e não voltou a sair de lá até final.

Mas na tarde desta história, a 26 de abril de 1987, isso ainda não era sabido: com um empate e uma derrota pesada (3-0 em Verona) nas jornadas anteriores, o Nápoles tinha visto diminuir de cinco para apenas dois os pontos de avanço sobre o Inter. Nessa 27ª jornada, a três da linha da meta, o estádio San Paolo tremia, de excitação e medo em doses iguais. E a cidade encomendava todas as rezas a São Diego, o santo das causas perdidas e dos milagres com hora marcada, ao domingo pela tarde.

Pela frente estava um Milan em reconstrução, já sem hipótese de chegar ao título: Nils Liedholm tinha sido despedido pouco antes por Silvio Berlusconi, um presidente recém-chegado com evidentes ambições políticas. No lugar do mago sueco estava, provisoriamente, um jovem adjunto de 40 anos chamado Fabio Capello. Mas Berlusconi já pensava noutro jovem, Arrigo Sacchi que, semanas antes, ao comando do secundário Parma, tinha eliminado o Milan da Taça de Itália, em San Siro.

Com promessas como Maldini e Donadoni, um líder como Baresi mas também com trintões como Di Bartolomei, Virdis ou Ray Wilkins, era um Milan híbrido, entre presente e passado, o que se propunha impedir o Nápoles de conquistar o primeiro «scudetto» da sua história.

Do lado do Nápoles, Ottavio Bianchi, técnico de perfil discreto, demorara menos de um ano a perceber a fórmula de sucesso para as equipas onde jogava Maradona: uma estrutura de combate, com peões dispostos a tudo para proteger o rei (Ferrara, Renica, Bagni, De Napoli) e dois cúmplices móveis na frente, para lhe darem referências para a fantasia. O primeiro, Giordano, tinha 30 anos e um longo currículo no calcio, ao serviço da Lazio, onde Bianchi o foi buscar em 1985. O segundo, Carnevale, tinha chegado nesse mesmo verão, vindo da Udinese e, depois de um começo difícil, com apenas quatro golos em 26 jornadas, preparava-se para uma reta final demolidora, que lhe abriria as portas da seleção.

O trio MA-GI-CA

A história desse título do Nápoles é, em grande parte, a história do nascimento da trindade MA-GI-CA (Maradona-Giordano-Carnevale), pai, filho e espírito santo da consagração do Nápoles como um grande de Itália.

Contra o Milan, no jogo de tudo ou nada, foi Giordano quem começou por chamar a si o protagonismo, arrastando para a lateral a marcação de um jovem Maldini e abrindo espaços para as entradas de Carnevale e Maradona. Foi assim que, aos 33 minutos, o San Paolo começou a sacudir os fantasmas, quando um cruzamento perfeito de Giordano, na direita, foi cabeceado por Carnevale ao segundo poste. E foi também assim que, dez minutos mais tarde, Maradona pôs a sua assinatura no «scudetto» mais revolucionário de toda a história da Série A - o campeonato em que o Sul, mergulhado na pobreza, se gritou grande perante as potências do Norte industrializado.

Por detrás desse grito, um passe perfeito. De Giordano, outra vez. Com o pé direito, e a dose necessária de backspin para fazer a bola sobrevoar a defesa do Milan e aterrar no ponto preciso, sobre o lado esquerdo, sensivelmente por alturas da marca de penalti. Mas se o passe de Giordano é fantástico, é a desmarcação de Maradona que lhe define o azimute e abre a defesa do Milan a meio, como Moisés e o Mar Vermelho.

Filippo Galli, que seguia Maradona pelo campo todo, como uma sombra, demora uma fração de segundo a reagir, e esse é o tempo suficiente para ficar no lado errado do lance, sem hipótese de proteger o seu guarda-redes. Mas se Maradona tem espaço e posição ganhos, falta-lhe o mais difícil: receber, amortecer e ajeitar um passe com mais de 30 metros nos dois ou três que o separam do guarda-redes Nuciari, ainda antes de pensar em pôr a bola na baliza.

Neste caso, «difícil» é a prima tímida da palavra «impossível». E é o impossível em estado puro que Maradona se dedica a fazer, em três passos: 1- nessa fração de segundo em que a bola se lhe cola ao velcro da chuteira esquerda; 2- no momento em que génio e bola se desviam para a esquerda, fugindo ao mergulho de Nuciari; 3- no remate de ângulo apertado, com a força e trajetória exatas para evitar os carrinhos de Filippo Galli e Manzo.

O título italiano 1986/87 ficou decidido nesse lance. O Milan ainda reduziu, por Virdis, mas a vitória por 2-1 chegou para se fazer história. Nas três jornadas até final, Maradona não voltou a marcar, e o Nápoles não voltou a vencer. Três empates, e três golos de Carnevale, chegaram para consagrar a santíssima trindade MA-GI-CA.

A resposta do Milan foi tremenda: nesse mesmo verão, Berlusconi trouxe Van Basten e Gullit (e mais tarde, Rijkaard) para San Siro, foi buscar Sacchi para os treinar e pôs todas as fichas na construção da maior equipa italiana de sempre. Foi a resposta, a única capaz de travar os milagres de Maradona – que, mesmo assim, nas épocas seguintes continuou a fazer magia a cada jogo com os «rossoneri». Como aqui. Ou aqui.

Podem encher-se bibliotecas só com a receção orientada de Diego Maradona e a sua influência na cultura ocidental, mas hoje em dia há pouca disponibilidade para consultar bibliotecas, mesmo em fascículos no YouTube. Quem precisar da versão curta, tem-na aqui, resumida em três toques de pé esquerdo e num golo que mudou a história do futebol italiano e europeu.