Nem só de Golos do Séculoslalomsbarrillete cósmicoPelusaMannschaft

Campeã em casa em 1978 e depois de uma prestação fraca em Espanha quatro anos depois, a Argentina parte como favorita por culpa quase exclusiva do seu número 10, o grande astro de então do futebol mundial. É à volta de Diego, do seu portentoso pé esquerdo e também da braçadeira de capitão e da voz de comando, que se reúne a sua seleção e todo um país ansioso por mais uma conquista. Depois de fazer cair Coreia do Sul (3-1) e Bulgária (2-0), e empatar com a Itália (1-1) na fase de grupos, a equipa de Bilardo bate Uruguai (1-0), Inglaterra (2-1) e Bélgica (2-0) até chegar à terceira final da sua história. Pelo caminho, o jogo lendário frente à seleção dos Três Leões, quatro anos depois da Guerra das Malvinas, com dois golos marcantes: o sortilégio da mão de Deus e o golo do Século, ambos assinados por Maradona.

Do outro lado, a Alemanha tenta o terceiro título na quinta final. Franz Beckenbauer é o técnico de uma equipa que tinha de certa forma desiludido na primeira fase, com uma vitória (Escócia, 2-1), um empate (Uruguai, 1-1) e uma derrota (Dinamarca, 2-0). O que se segue até às meias-finais também não é famoso: triunfo por 1-0 frente a Marrocos, e qualificação nos penáltis frente ao México depois de um 0-0. Segue-se a França em Guadalajara, e os golos de Brehme e Völler carimbam o passaporte para o encontro decisivo. 


Passarella levanta a Taça do Mundo em 1978

Brown encarna Passarella

O golo de Brown, aos 23 minutos, não só marca o ponto de partida para a vitória argentina, como também carrega todo o simbolismo pela ausência de Daniel Passarella. O central, que tinha garantido o apuramento frente ao Peru na última jornada de qualificação, num Monumental incrédulo com a derrota parcial ao intervalo (1-2) – bastava o empate –, contrai um vírus intestinal a oito dias do início da competição e falha todos os jogos. Mais tarde, el gran capitán atira as culpas para Maradona e Carlos Bilardo. Diego teria ordenado ao selecionador para não voltar a dar a titularidade a Passarella. El narigón consentira, tal como quatro anos depois perante a intransigência de El Pibe em não jogar com Ramon Díaz, um dos goleadores em melhor forma na Europa.

Mas de onde vinha essa inimizade entre as duas maiores figuras da Albiceleste? Passarella era considerado um dos melhores defesas de então. Depois de ter levantado a Taça em 78 e de praticamente não ter deixado mais ninguém tocar-lhe num momento frenético, é quatro anos depois de novo referência numa equipa que incorpora agora Maradona. Mas em Espanha, e apesar de ter passado a primeira fase atrás da Bélgica, saem-lhe em sorte Itália e Brasil – este Mundial teve duas fases de grupos –, que valeram outras tantas derrotas e a eliminação. Passarella é dos poucos que se salva do fracasso, com grandes exibições. Só que no banco haverá mexidas. Sai César Luis Menotti e entra Carlos Bilardo, que cria a rotura ao dizer que apenas um jogador tinha lugar cativo na sua seleção: Diego Armando Maradona. O Pelusa é o novo capitão, Passarella, nesse 29 de junho, torna-se o primeiro argentino bicampeão embora não tivesse feito um jogo, sendo-lhe negado o sonho de terminar a carreira com a taça nas mãos.

Maradona conta a história de um balneário dividido no livro «Yo soy el Diego», e alegadas tentativas de amotinamento de Passarella depois de ter perdido  a braçadeira de capitão:  «¿Terminaste?", le pregunté. "Bueno, entonces vamos a hablar de vos, ahora", le dije. Y conté, delante del plantel completito, todo lo que era él, todo lo que había hecho él, todo lo que yo sabía de él. Y se armó el lío grande, ¡grande, grande! Porque en aquella Selección, hay que decirlo, había dos grupos. Por un lado, los que apoyaban a Passarella. Su banda. Ahí estaban Valdano, Bochini, varios. Passarella les había llenado la cabeza y por eso decían que nosotros habíamos llegado tarde porque estábamos tomando falopa (…) Allá fuimos, y en la reunión, con Passarella presente, conté todo lo que sabía de él y se hizo un silencio profundo... Hasta que saltó Valdano: -¡Vos sos una mierda! - le gritó al Kaiser. Ahí se rompió todo. Ahí le agarró la diarrea, el mal de Moctezuma, cuando la realidad era que todos meábamos por el culo. Ahí le dio el tirón, ésta es la verdadera historia.» 

Nessa reunião, dias antes do pontapé de saída frente à Coreia do Sul, Maradona terá conquistado de vez o balneário. O grupo passa a seguir religiosamente o seu novo deus.

Com Passarella no banco, brilha o substituto. Jose Luis Brown ganha quase todos os duelos aéreos na sua área, e aos 23 minutos sobe à outra baliza para tentar imitar o companheiro proscrito, que não poucas vezes assinava um ou outro golo. Não era o seu caso. Brown nunca tinha marcado pela albiceleste e passara a véspera em claro, segundo o que contaria mais tarde. Dois alemães, um deles Matthäus, a quem Beckenbauer pedira para andar perto de Maradona, derrubam com dureza El Pibe primeiro e Cuciuffo depois. O que se segue é história. Burruchaga marca o livre, Harald Schumacher sai em falso e Brown sobe lá acima, mais alto que a defesa germânica, e cabeceia para a baliza. Após algum equilíbrio, a Argentina marca na altura em que começa a dominar a partida.

Na segunda parte, fica com o ombro direito lesionado depois de um choque com um alemão. É assistido, volta ao campo e do banco querem que seja substituído. O braço está ao peito, como se estivesse partido, mas não foi ligado. É Tata Brown que o mantém assim, para lutar melhor contra a dor. «Nem morto saio daqui!», grita de volta para o médico e, ao mesmo tempo, morde a camisola. Não sai, joga os 90 minutos, com o braço preso por arames.

Sempre mais perto

O intervalo vai chegar com 1-0, mas Maradona começa a soltar-se um pouco, ainda antes do apito. Schumacher consegue anular a primeira jogada, com Burruchaga como intermediário. Na segunda, o Pelusa sofre duas faltas de seguida a meio-campo, duríssimas, mas o árbitro brasileiro Romualdo Arppi continua mais interessado em castigar protestos dos jogadores do que entradas a roçar a violência.

Há sempre mais Argentina em campo do que Alemanha. Maradona ensaia a jogada do 3-2 que está para vir na parte final do encontro com Burruchaga, mas o 7 é, dessa vez, egoísta e deixa-se travar num 3 para 1. O 2-0 chega com a Alemanha por cima no encontro, a tentar pelo ar, aproveitando não só o bom jogo de cabeça dos seus avançados como também as limitações físicas de Brown. De novo Maradona. Atrai os rivais e passa a bola redonda a Enrique. De Enrique segue para Valdano. Muito frio, remata rasteiro para o lado esquerdo de Schumacher. Com uma vantagem de dois golos aos 56 minutos e perante as dificuldades alemãs em criar perigo, poucos acreditam que não haja festa em breve junto ao Obelisco de Buenos Aires, na Plaza de la República.

Pouco depois, os homens de Bilardo ameaçam o terceiro. Jogada lindíssima pela direita, com o génio de Maradona a servir Giusti. O médio cruza de forma perfeita para o segundo poste, mas com Schumacher aparentemente batido e Valdano à espreita, é Förster quem estica o pé para um corte fantástico.


A objetividade germânica e as lágrimas de Burruchaga

Völler entrara ao intervalo para o lugar do apagado Allofs, Höness aos 62 substitui o estratega ausente Magath. Beckenbaeur vira-se totalmente para o futebol direto. Em sete minutos, a Mannschaft junta mais pontos para a lenda de que nunca desiste. Dois cantos de Brehme, um desvio ao primeiro poste e os dois pontas de lança a reagir na pequena área. Karl-Heinz Rummenigge aos 74. Völler aos 81. Assim passa de 2-0 para 2-2 e voltar a ter esperanças na conquista do troféu.

Só que são três minutos de indefinição apenas. É o tempo que o encontro está empatado e a dúvida persiste. A Alemanha continua a lançar bolas altas e longas, mas a Albiceleste aguenta-se. Do ponto de vista dos alemães, a bola chega a quem não deve. Maradona é outra vez porto seguro. O passe é perfeito, e El Burru corre com Valdano do outro lado, e um defesa pelo meio. Decide ir até ao fim e volta a bater Schumacher.  As lágrimas correm-lhe pela face agarrado a Valdano. Era o seu segundo golo no México, e logo o decisivo.

 
A Taça está perto. Faltam cinco minutos. Maradona tem mais dois duelos com Schumacher, à procura do título de melhor marcador, que seria mesmo ganho por Gary Lineker. O guarda-redes alemão ainda o derruba na área num penálti do tamanho do Azteca, mas Arppi diz que não e marca uma primeira falta, um livre direto. O Pelusa tenta mais uma vez, e Schumacher segura. Mas o mais importante está feito. A Argentina sai para a rua para festejar o segundo título.

El Narigón olha para as bancadas. «Perdoa-nos, Bilardo!», lê-se numa ou noutra faixa. Os argentinos sabem reconhecer os seus heróis. Tal como quatro anos depois, em que também frente à Alemanha perderia aquele que poderia ter sido o segundo Mundial consecutivo (1990), o selecionador coloca todas as fichas em Diego. E contra todas as dúvidas é mesmo campeão do Mundo, tornando-se também caricatura do maior torneio de futebol do planeta: «Se Bilardo foi campeão do mundo então qualquer um pode ser...»

Estádio Azteca, na Cidade do México
29 de junho de 1986
114 600 espectadores
Árbitro: Romualdo Arppi Filho (Brasil)
ARGENTINA – Pumpido; Brown; Cuciuffo, Ruggeri e Olarticoechea; Giusti, Batista e Enrique; Maradona; Valdano e Burruchaga (Trobbiani, 90)
REPÚBLICA FEDERAL ALEMÃ – Schumacher; Brehme, Jakob e Foerster; Berthold, Mattaeus, Eder e Briegel; Magath (Hoeness, 62); Allofs (Voeller, 46) e Karl-Heinz Rummenigge

Argentina


Alemanha


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