Semana após semana são local de romaria. São palco para os artistas e tribuna para os espectadores de um dos espetáculos que mais mexe com as gentes. Aguentam saltos, gritos, lágrimas e sorrisos, em amálgamas de emoções tão instáveis quanto uma bola que rola mais para cá ou para lá. Todos lhes reconhecem a designação, mas poucos conhecem a história da figura por detrás e é por isso que vamos em busca da Anatomia de um nome.

Arena Johan Cruijff, 24 de março de 2019.

Só um jogo poderia ser mais simbólico no dia em que se assinalavam três anos da morte de Johan Cruijff do que o Holanda-Alemanha que aconteceu neste domingo.

A rivalidade histórica entre as duas seleções que, por exemplo, disputaram a final do Mundial de 1974, que a Alemanha de Beckenbauer venceu depois de Cruijff conquistar um penálti na primeira jogada da partida, apenas seria suplantada por um Ajax- Barcelona, os dois clubes que têm inscrito no ADN um dos maiores génios que o futebol mundial conheceu.

Ainda assim, o encontro pareceu surgir como um tributo que o destino quis fazer ao miúdo órfão de pai, que o Ajax acolheu aos 12 anos, e cujo talento e visão justificaram que se tornasse casa do clube.

A tragédia no início de tudo

Hendrik Johannes Cruijff nasceu no dia 25 de abril de 1947, em Amsterdão, e cresceu tendo como horizonte nas brincadeiras com os amigos o De Meer [o lago], estádio onde o Ajax jogava. Torna-se fácil de imaginar que desde cedo o pequeno Johan terá desejado que os seus sonhos desaguassem naquele recinto.

O facto de o estádio do Ajax ser quase o pátio de brincadeiras de Johan justificava-se com a mercearia que os pais tinham nas imediações do recinto que o clube da capital holandesa ocupou durante mais de 60 anos, entre 1934 e o final da década de 90.

O que Johan não imaginaria é que seria o Ajax a dar-lhe a mão na fase mais complicada da sua infância. Ele que até já representava o clube naquela que foi a primeira paixão, o basebol, desporto que ia conciliando com o futebol.

Mas tudo mudou quando, aos 12 anos, Johan viu o pai morrer repentinamente ,vítima de ataque cardíaco.

Com receio de que o filho passasse demasiado tempo a brincar na rua, a mãe, que passara a fazer limpezas no estádio, pediu que o clube o acolhesse na escola de futebol, apesar de ele ser demasiado jovem para isso.

O pedido foi atendido e o resto é história.

Rapidamente Johan se tornou num dos jogadores mais promissores da formação do Ajax e o seu nome começou a ser conhecido nos corredores do clube.

De tal forma que, em 1962, quando a final da Taça dos Campeões Europeus se disputou no De Meer – aquela que o Benfica venceu o Real Madrid por 5-3, erguendo o troféu pela segunda vez consecutiva -, Johan Cruijff foi um dos «premiados» com o convite para ser apanha-bolas na partida, algo que nunca saiu da memória do jovem.

A estreia de Cruijff na equipa principal do Ajax demoraria mais dois anos. Aos 17, Johan chegou à equipa principal, marcou na estreia, mas todos estariam longe de imaginar a influência que aquele jovem franzino iria ter no rumo da história do Ajax.

Títulos atrás de títulos até a mudança para a segunda casa

Com Rinus Michels no banco, Cruijff foi a principal figura de um Ajax que nas nove épocas seguintes conquistou seis campeonatos da Holanda. Em 1971, o treinador saiu para o Barcelona como Campeão Europeu, mas Cruijff ficou mais dois para fazer do Ajax tricampeão europeu.

Depois, já com uma Bola de Ouro no currículo (1971), aos 27 anos, Cruijff deixou a casa de sempre e seguiu os passos do mentor até à cidade Condal.

A mudança, porém, podia ter sido feita para o grande rival do Barça, o Real Madrid. Mas prevaleceu a vontade de Cruijff, como o próprio vincou várias vezes.

«Como sempre fui do género ‘não faço o que os outros me dizem’ e tinha as minhas relações em Barcelona, disse a mim próprio: ‘Não vou para Madrid, vou para Barcelona’. Foi uma enorme confusão, os papéis e a transferência», confidenciaria.

Apesar de também ter deixado a sua marca como jogador em Barcelona, ao ponto de voltar a ser eleito o melhor futebolista do mundo nos dois primeiros anos em Espanha, foi com a camisola do Ajax e da seleção holandesa que o brilho de Cruijff foi mais intenso.

Já perto do final da carreira, e depois de ter passado pelos EUA e Itália, Cruijff regressou à casa de partida. Nas últimas três épocas como jogador, conquistou outros tantos títulos holandeses, dois pelo seu Ajax e o último pelo Feyenoord, onde terminou a carreira de jogador.

Muda a função, mantêm-se a veia inovadora e os títulos

Em 1985, uma época depois de terminar a carreira de futebolista, Johan Cruijff regressa novamente ao Ajax, desta feita para assumir uma nova pele: a de treinador.

Em três épocas, treina alguns dos nomes mais sonantes da história do clube de Amsterdão como Van Basten – cuja estreia até apadrinhou ainda como jogador, sendo ele o substituído para a entrada do holandês seguinte a vencer três Bolas de Ouro -, Frank Rijkaard, Ronald Koeman, Denis Berkamp, entre outros.

Ainda assim, quando deixou o banco do Ajax para voltar a Barcelona, o técnico levava no currículo apenas duas taças da Holanda e uma Taça das Taças. Mas transportava, sobretudo, um futebol que se viria a revelar vencedor.

E isso confirmou-se em Espanha, onde se fez lenda também como treinador. Em oito anos, criou aquela que é considerada a dream team do Barcelona e, em oito anos, sagrou-se tetracampeão espanhol e conquistou a primeira Liga dos Campeões da história dos blaugrana (91/92).

Na Catalunha, mais dos que os títulos, Cruijff deixou bem vincada uma ideia de jogo. Aquela que tem mantido o clube na senda do sucesso, também pela importância que o holandês atribuía à formação. E que ainda hoje é seguida, com o viveiro de talentos que se tornou La Masia.

Guardiola, por exemplo, já assumiu em diversas ocasiões que é o mentor do futebol que o holandês que o treinou no início da carreira é o mentordo futebol que defende: «Durante a minha carreira, apenas tentei aplicar o que aprendi com Cruijff. Ele foi a maior influência no futebol, mais do que qualquer outro, como jogador e como treinador. Cruijff construiu a catedral, o nosso trabalho é cuidar dela», disse a determinada altura.

É, portanto, normal que a marca de Cruijff esteja também eternizada na cidade Condal. Fisicamente, a maior prova é o estádio onde joga a formação e o futebol feminino do Barcelona, que foi batizado com o nome do ícone holandês.

A catedral que leva o nome de Johan Cruijff, porém, encontra-se em Amesterdão, onde o menino que foi acolhido pelo Ajax se tornou casa do clube.

A mesma onde no domingo, no dia em que se cumpriram três anos sobre a morte de Johan Cruyjff, jogou a outra equipa cuja história foi mudada pelo génio: a seleção da Holanda. Como ícone do futebol total daquela que ficaria conhecida como Laranja Mecânica, Cruijff marcou 33 golos em 48 jogos.

O legado, porém, vai muito além dos números. E continua a desfilar pelos relvados do nosso contentamento.

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Artigo original: 25/03; 23h50---