San Siro, 16 de setembro de 2003, 1ª jornada do Grupo H da Liga dos Campeões. O Milan campeão europeu em título, de Carlo Ancelotti e de Rui Costa, recebe o Ajax de Ronald Koeman, onde começa a tornar-se grande um tal de Zlatan. Sim, esse. Ibrahimovic é o 9 do ataque dos holandeses, que o comparam já, em certos momentos, a Marco van Basten.

O português Rui Costa assiste do banco a um encontro equilibrado, com o mesmo número de remates enquadrados e apenas mais um ou outro fora do alvo para o lado dos rossoneri. Os holandeses até conseguem mais um canto do que os rivais. Ou seja, têm as suas oportunidades para levar pontos de Milão.

O nulo só se desfaz aos 67 minutos, pelo suspeito do costume: Pippo Inzaghi, o ponta de lança que cresceu sempre no limite do fora de jogo.

Antes, o goleiro Dida evita o golo de Pienaar. O romeno Bodgan Lobont também brilha do outro lado, e só não consegue evitar o remate quase certeiro do estreante Kaká, que acerta no poste.

O guarda-redes brasileiro não é, ao longo da carreira, consensual. O Brasil nunca tinha sido grande escola de guarda-redes, apesar dos feitos de Taffarel e, posteriores, de Júlio César. A verdade é que Dida é sempre subvalorizado ao longo da carreira. É verdade que, de tempos a tempos, mostra algumas fragilidades, mas não são poucas as vezes em que desenha defesas de grande classe.

Os maus génios de Zlatan e Gennaro Gattuso chocam já nos descontos, com o sueco a ver o cartão amarelo e o italiano a ser expulso. Com mais um, o Ajax empurra a defesa do Milan, liderada por Paolo Maldini, para perto da área, e ameaça o empate.

É esse o momento. A bola vem da direita, já na área, mas Zlatan, em posição frontal, acerta mal na bola, perante a tentativa de bloco por parte de Cafú. Com o corpo tão inclinado para a direita, Dida tem de se reequilibrar. A decisão é rápida, instintiva. Ao mesmo tempo que o pé esquerdo de Van der Vaart acerta na bola perdida, o guarda-redes voa determinado, com a mão esquerdo esticada. O remate, quase à queima-roupa, não tem hipótese de sucesso. O voo é perfeito, a bola sai pela linha final e o Milan arranca para a vitória no Grupo.

A equipa só cairá perante um Super Depor, nos quartos de final: 4-1 na Lombardia italiana, 4-0 na Galiza.

Dida ficará mais sete anos ao serviço dos rossoneri, depois voltará ao Brasil. Primeiro, ao Corinthians que representou antes de sair para Itália, depois Portuguesa, Grémio e Internacional, despedindo-se em 2015. Em Milão, ganhará uma segunda Champions. Depois da de 2002-03, festeja em 2007, ano em que acumula um Campeonato Mundial de Clubes.

Dida foi um dos melhores de sempre do seu país e talvez mesmo o primeiro grande goleiro. Se era preciso uma prova desse estatuto, aí está.

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