Luz, 6 de março de 1997. Benfica e Fiorentina defrontam-se em Portugal para a 1.ª mão dos quartos de final da extinta Taça das Taças. Os encarnados cumprem os primeiros anos daquela que será a maior crise da história do clube. Longe vão os tempos de um Benfica pujante, mas na equipa orientada por Manuel José ainda mantém alguns jogadores de primeira água.

Um deles é Michel Preud’Homme. Aos 38 anos preserva ainda muitos dos atributos que fizeram dele um dos melhores guarda-redes entre as décadas de 80 e 90 e o melhor do Mundial de 1994, realizado nos Estados Unidos.

Esta noite será particularmente trabalhosa para o belga, várias vezes abandonado à sorte por Tahar, Jorge Soares, Bermúdez e El-Hadrioui, pilares demasiado frágeis para resistir aos assaltos de um ataque viola onde Gabriel Batistuta é a grande ameaça.

O goleador argentino é quem assiste para o primeiro golo e marca o segundo, numa fantástica execução técnica de primeira. Batigol é um carro de alta cilindrada a circular perigosamente naquele hectare verde de Lisboa e só Michel Preud’Homme tem mãos para ele.

«Qual foi o melhor jogo pelo Benfica? Vão ficar surpreendidos, mas foi numa derrota. Perdemos contra a Fiorentina 0-2 em casa e o Batistuta fez um jogo extraordinário. Deixou-me as mãos a arder [risos]», confessou o antigo guarda-redes belga em entrevista ao Maisfutebol em maio de 2014.

Já na segunda parte, ainda com 0-1 no marcador Batistuta aproveita uma desatenção da defesa encarnada para matar com o peito e disparar em rotação na direção do poste esquerdo do Benfica. Felino, Preud’Homme voa naquela direção para salvar as redes com a luva esquerda e realizar mais um dos muitos milagres merecedores de canonização que efetuou nas cinco épocas em que guardou as redes das águias.

Ágil e destemido, Preud’Homme estava longe de ter a estatura que hoje é tida como ideal para um guarda-redes de topo: 182 centímetros bastavam-lhe para ir onde muitos gigantes não chegavam. E chegou lá tantas vezes...

Veja a defesa de Michel Preud'Homme a partir dos 02m48s:

 

Outras anatomias:

Peter Schmeichel, 26 anos depois de Gordon Banks

Bogdan Lobont: o romeno que se travestiu de Schmeichel em San Siro

A dupla-defesa impossível de Coupet em Camp Nou

San Casillas repete o milagre dois anos depois no Sánchez Pizjuán

David Seaman a puxar a cassete atrás à beira dos 40 anos

Buffon mostra aos 20 anos os primeiros poderes de super-homem

Esqueçam o líbero, este é o Neuer de entre os postes e é do melhor que há

Holandês voador que realmente sabia voar só mesmo Van der Sar

Só Petr Cech é mais rápido do que um pensamento

Dasaev: uma cortina de ferro no último Mundial romântico

Camp Nou, agosto de 2011: a prova que Valdés era tão bom como os melhores

Ubaldo «Pato» Fillol, 1978: o voo que segura a Argentina no Mundial dos papelinhos

Dida: o voo para a eternidade do primeiro grande goleiro

Chilavert: o salto do Bulldog que nega o último golo a Maradona

Szczesny: o penálti a dois tempos que cala de vez Arsène Wenger

Ter Stegen: o grito «sou o nº1» numa meia-final da Champions

A tripla de Oblak, três muros levantados à frente da baliza do Atleti

De Gianluigi para Gianluigi, o rasto de gelo de Donnarumma que faz escorregar o Nápoles

A defesa da vida de Dudek que alicerçou uma reviravolta histórica

O milagre de Montgomery em Wembley'73