Goodison Park, 4 de abril de 2015. Naquela tarde contra o Southampton, Tim Howard manteve a baliza do Everton a zeros, registo que só tinha alcançado por uma vez nos 16 jogos anteriores nos quais tinha defendido as redes dos Toffees.

Uma clean sheet foi, ao contrário do que estava a ser nas semanas anteriores, a espuma dos dias na longa carreira de Tim Howard, que é ainda hoje o terceiro guarda-redes que mais jogos cumpriu sem sofrer golos na Premier League (116), estando apenas atrás de Joe Hart (127) e Petr Cech, com 161 partidas.

Mas aquele dia ficou marcado por uma defesa magistral do norte-americano. Ainda nos primeiros minutos, Graziano Pellè apareceu na zona do primeiro poste e desviou com o pé direito na direção da baliza.

Nas imagens do lance (sem edição) é possível ver a hesitação de Howard durante o curto espaço de tempo em que a bola se dirige do pé de Shane Long para o raio de ação do avançado italiano.

O guarda-redes dos toffees parece até estar fora da zona de conforto. Fora dos postes e sem o enquadramento ideal para dificultar a finalização de Pellè, que se antecipa ao defesa contrário e também a ele, ficando com o lado esquerdo da baliza à mercê.

Quando a bola passa por Howard depois do remate no ar à entrada da pequena área, o golo parece certo, mas o norte-americano, com os apoios no chão, recua no tempo: dois passos rápidos para trás e o resgate com a luva esquerda quando a bola já morde a linha de baliza.

 

Foi um dos últimos atos heroicos do guarda-redes com mais defesas num só jogo de um Campeonato do Mundo (16 em 2014 contra a Bélgica) enquanto jogador do Everton. Esteve por lá entre 2006 e 2016: dez anos, tempo suficiente para conquistar a admiração do público nos 414 jogos que realizou pelo conjunto de Liverpool.

Antes disso foram três épocas no Manchester United, que acolheu em Terras de Sua Majestade um já internacional americano diagnosticado aos 11 anos com síndrome de Tourette. Difícil de controlar na escola, Tim sempre foi diferente no soccer. Estudioso, focado e com capacidade de perceção acima da média. «Descobri no cabo uma estação televisiva italiana que passava jogos do Milan. Ao sábado em era um devoto estudioso do astuto trabalho de pés de Roberto Donadoni», recordou na autobiografia (Tim Howard – The Keeper) que lançou há uns anos.

Quando lhe deu a conhecer o diagnóstico, o médico disse conhecer vários casos de pacientes com atributos especiais: hiperfoco e hipersensibilidade: «Uma capacidade de ver e sentir e cheirar coisas antes de outros. (…) Quanto mais eu jogava, mais começava a entender o que o doutor tinha dito sobre perceção melhorada. De alguma forma em conseguia ver coisas. Coisas que outras pessoas pareciam não conseguir ver. Podia ver, por exemplo, quando um jogo estava prestes a mudar, sentir os padrões de ataque antes de acontecerem. Quando o extremo estava prestes a cruzar a bola e em que cabeça ela ia aterrar.»

Na defesa desta anatomia, talvez tenham sido mais do que reflexos apurados a justificá-la. Howard (que sabe?) talvez soubesse para onde se dirigiria aquela bola mesmo antes de ser rematada.

Artigo original: 07/01/2019; 23h54