De Gianluigi para Gianluigi. De super-herói para super-herói. De Buffon para Donnarumma. Novo Buffon é o que lhe chamam, e o original acredita que sim, tal como Dino Zoff, um dos históricos das balizas italianas.

Donnarumma anda cá há já algum tempo, a realizar defesas impossíveis, e tem apenas 19 anos. Começou muito cedo a quebrar recordes, embora nem sequer seja o mais novo guardião a estrear-se no calcio. O feito ainda pertence a Giuseppe Sacchi e permanece por bater há décadas, com a coincidência a reforçar a lenda. Aconteceu no mesmo Milan, e na mesma data em que Donarumma entrou em campo: 25 de outubro, 73 anos antes.

Chamar-lhe promessa é curto, demasiado redutor há já muito tempo. O jovem italiano está no top dos melhores guarda-redes da atualidade. É um fenómeno. Depois da rábula do renova-não renova-afinal renova, tem sido nuclear num emblema que luta com todas as forças para recuperar a grandeza de outros tempos. Um Milan que, no entanto, ainda parece demasiado distante de renascer.

A 15 de abril deste ano, San Siro e os rossoneri estavam na rota da luta pelo título entre Nápoles e a eterna Juventus, com gli azzurri a precisar de pontos para conquistar um scudetto que lhes foge desde a era de Maradona. No último de 90 longos minutos, o internacional polaco Milik recebe uma bola em posição frontal e remata para o golo. O que se segue é puro instinto.

À queima-roupa, Donnarumma ainda tem tempo de desviar a bola para canto, estragando as contas aos visitantes, e garantindo um magro ponto para contabilizar na batalha pela Liga Europa. O mesmo Nápoles que o tinha vendido ao Milan por 250 mil euros em 2013 sofre duro golpe, a Juventus começa a embalar para nova a festa, a do heptacampeonato.

Fortíssimo fisicamente, à beira dos dois metros, mas com uma agilidade e, sobretudo, uma frieza impressionantes, Donnarumma é já um dos melhores do mundo. Só precisa de uma equipa à sua altura.

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Artigo original: 06/05, 23h50