Morreu António Lobo Antunes. O escritor tinha 83 anos e faleceu esta quinta-feira, confirmou a editora Dom Quixote.
Nascido em Lisboa, em setembro de 1942, Lobo Antunes cresceu na freguesia de Benfica, numa casa com jardim, que o avô tinha comprado. Nas férias de verão ia para Nelas, onde viviam os outros avós, os maternos, e onde hoje existe uma biblioteca com o nome dele.
Com nove meses esteve quase a morrer, por causa de uma meningite que o deixou em coma. O avô paterno António, de quem herdara o nome, fez uma promessa: se o neto sobrevivesse, levá-lo-ia numa viagem a Pádua. Lobo Antunes sobreviveu e com sete anos fez essa viagem pela Europa, que o marcou muito. Tal como o Avô António, que disse ser a pessoa mais importante da infância dele.
Médico por influência do pai
Estudou no Liceu Camões. Era o filho mais velho de João Lobo Antunes e tinha cinco irmãos, todos eles também figuras conhecidas da sociedade portuguesa: João Lobo Antunes foi neurocirurgião, Pedro foi arquiteto, Miguel é programador cultural, Nuno lobo Antunes é também médico e Manuel é jurista e diplomata.
O pai foi um destacado neurologista português, e António Lobo Antunes licenciou-se em Medicina, muito por influência paterna, tendo-se especializado mais tarde em psiquiatria, após o regresso da guerra.
Estagiou dois anos num hospital em Londres e chegou, depois disso, a exercer no Hospital Miguel Bombarda, até optar em definitivo pela carreira de escritor.
A Guerra Colonial, da qual nunca regressou
A Guerra Colonial, para a qual foi mobilizado como médico militar, marcou-o decisivamente. O escritor foi destacado para Angola, quando a primeira mulher estava grávida da sua primeira filha, e as cartas que escreveu à esposa chegaram a dar origem a um filme.
O primeiro livro, o «Memória de Elefante», foi publicado em 1979 e constitui-se logo como um sucesso. Com inspiração claramente autobiográfica, o romance fala da marcas que a guerra deixou na vida de um psiquiatra, que se vê obrigado a afastar-se da mulher e das filhas.
Nesse mesmo ano, em 1979, publicou também «Os cus de Judas», novamente com referências à Guerra Colonial. Escreveu, ao todo, 30 romances e cinco volumes de crónicas (que nasceram de outra faceta de Lobo Antunes, a de cronista regular na imprensa portuguesa).
A angústia à espera do Prémio Nobel
Recorrentemente apontado ao Prémio Nobel da Literatura, o escrito chegou a confessar que o facto de não ganhar o prémio o atormentou durante uma fase da vida, até que percebeu que não era o Nobel que o faria melhor escritor do que era, para ficar em paz.
Ganhou o Prémio Camões, em 2007, foi agraciado por Marcelo Rebelo de Sousa com a Ordem da Liberdade e recebeu em 2018 a notícia de que a sua obra iria ser publicada pela Bibliothèque de la Pléiade, de França, sendo apenas o segundo português a merecer esta distinção, depois de Fernando Pessoa, e um dos poucos escritores vivos a consegui-lo.
«Sonhei com este prémio desde os 13 ou 14 anos, desde a adolescência até agora. É o maior reconhecimento que se pode ter enquanto escritor, muito maior do que o Nobel», reagiu Lobo Antunes.
Messi e as coisas mais importantes da vida
Dizia que ninguém escrevia como ele na língua portuguesa, mas também não estava satisfeito com a obra que deixava. Insistia que lhe faltava o melhor livro de todos. Era um escritor compulsivo, escrevia todos os dias, apontamentos e mais apontamentos, escritos e reescritos sempre à mão.
«Nunca servi para outra coisa. Não sirvo para a vida prática. Nem sequer tenho computador. Escrevo à mão, porque é como bordar. Gosto do cheiro do papel, gosto dessa coisa artesanal que é escrever, do desenho das letras. Há três ou quatro coisas importantes na vida: os livros, os amigos, as mulheres... e Messi», confessou em entrevista ao El País.
«Vi-o há pouco tempo, pela televisão, no Mundial de Clubes. Quem me dera escrever como Messi joga futebol. A bola parece amá-lo.»
Nada ficou igual depois da pandemia
Em 2007 foi-lhe diagnosticado um cancro do intestino, foi operado e recuperou.
Após a pandemia, porém, o estado de saúde piorou, foi tomado por alguns sinais de demência e deixou de escrever. Deixou até de fumar, o que era impensável antes: o cigarro na mão era também uma imagem de marca de Lobo Antunes.
Faleceu esta quinta-feira, aos 83 anos, e com ele parte um génio destacado da literatura portuguesa.