Depois do Adeus é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das suas carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como passam os seus dias? O dinheiro ganho ao longo dos anos chega para subsistir? Confira os testemunhos, de forma regular. 

A segurança no jogo da final da Taça da Liga, que se realiza esta quarta-feira, também passa por um antigo jogador. Está a ver aqueles senhores que povoam as bancadas, com a missão de «receber, dirigir e cuidar dos espetadores», a que chamamos stewards? Pois os que vão estar em Leiria pertencem à empresa de António Morato, antigo capitão do Sporting.

«Sou sócio de uma empresa de segurança privada», aponta o ex-defesa, ao Maisfutebol, explicando melhor a que se dedica a companhia: «Fazemos a segurança em estádios de futebol, em jogos da II Liga. Fizemos também no jogo da seleção com os Camarões e vamos estar na Taça da Liga. Fazemos todo o tipo de serviços de segurança privada – portarias, eventos e futebol.»

A função de Morato passa mais pela gestão da empresa. No entanto, não tem medo de colocar a mão na massa, como se costuma dizer: «Vou para o terreno como toda a gente, não tenho problema algum. Nunca tive problemas em trabalhar. Se só dormir três horas, durmo. Se for preciso não dormir, não durmo.»

No terreno, «muita gente» reconhece Morato: «É engraçado, porque muitas dessas pessoas nunca me viram jogar e estou um bocado diferente, mais velho. Talvez seja por causa das novas tecnologias, Facebook e essas coisas, as pessoas vão-me reconhecendo.»

Poderá reconhecê-lo em Leiria? Só se for enquanto espectador. Amanhã, «se calhar», vai «mais passear» e «ver o jogo».

«O que fiz depois de terminar a carreira? Engordei!»

O futebol, como jogador profissional, deixou de fazer parte da vida de António Morato aos 29 anos. O que fez nessa altura? «Engordei», responde de pronto e com boa disposição: «Estive dois anos a pensar no que deveria fazer à minha vida, porque tinha um dinheirinho junto e não o podia gastar à toa. Tinha de decidir para onde iria e esse sítio tinha de ter futuro. Se não estava tramado.»

Por falar em dinheiro, como era nas décadas de 80/90? O dinheiro que ganhou deu para, de alguma forma, acautelar o futuro? «Não, não. É óbvio que não estou a comparar o meu ordenado com o ordenado mínimo, da altura, porque isso seria uma estupidez. Em relação a uma pessoa normal, eu ganhava muito bem. Mas um mês meu nada tinha a ver com um mês de ordenado de um atual jogador do Sporting ou FC Porto.»

Para percebermos melhor a diferença dá um exemplo: «Comprei a minha casa por 3.750 contos (18.705 euros), um T1, e na altura ganhava 275 contos (1.372 euros). Agora eles conseguem comprar três ou quatro casas, T3 ou T4. Isto sem falar na publicidade, prémios e tudo aquilo que eles têm agora, que nós reivindicámos no México.» 

 

Apesar de ter abandonado o futebol, por estar saturado, podia ter seguido na modalidade com outras funções, conta António Morato: «Tirei o curso de treinador. Sei que tenho algum jeitinho. Sinto isso. Mas tirei só até ao segundo nível e não quis ir mais longe. Comecei a fazer isto [segurança privada] dois anos antes. Depois apareceu o projeto do Euro-2004.»

Passou a oportunidade de treinar, mas não deixou de fazer parte do jogo. Só que agora o seu lugar já não era (é) no relvado: «Surgiram os stewards. Fui a Inglaterra, tirei lá formação e acabei por trazer o conceito para Portugal. Falei com a FPF. Em 2000 começámos a fazer os testes nos clubes, para irmos habituando as pessoas, e fizemos o Euro-2004 [a sua empresa e outra]. Correu tudo bem. A partir daí, segui nessa área.»

«Futebol? Deixei, mas não deixei»

Nunca deixou de sentir que estava «ligado ao futebol na mesma», até porque muitos daqueles com que se cruza nos eventos, para que a sua empresa é contratada, fazem parte desse mundo. «Deixei, mas nunca deixei», aponta, numa altura em que admite que o bichinho do futebol voltou a mexer consigo: «Estou bem com a minha empresa de segurança e gosto daquilo que faço. Mas posso dizer que tenho 49 anos e que o bicho acordou um bocadinho. Não me pergunte porquê, porque não sei responder.»

Mas a ligação ao futebol, não se fica por aqui, embora sublinhe que a segurança privada é a sua prioridade. «Nunca a vou largar, nem pensar nisso», aponta António Morato... com segurança, pois claro!

«Há cerca de 15 dias» aventurou-se noutro negócio. «Abri uma empresa de agenciamento de jogadores», revela Morato, que foi até há muito pouco tempo diretor desportivo do Fátima.