«Até ao fim» é uma rubrica do Maisfutebol que visita adeptos que tenham uma paixão incondicional por um clube e uma história por contar. Críticas e sugestões para rjc.externo@medcap.pt

Da história lecionada nas escolas a uma outra história: a de um amor pelo FC Porto. Nuno Lobo, 49 anos, sócio dos dragões há mais de três décadas, herdou da família o gosto clubístico, acentuado no tempo.

Professor e também proprietário de uma taberna na cidade portuense, Nuno já percorreu milhares de quilómetros para ver o clube do coração jogar. Do Minho ao Algarve por cá. Lá fora, Manchester, Sevilha, Madrid, Birmingham, Barcelona ou Mónaco. Ao vivo, viu o FC Porto ser campeão europeu em 1987 e em 2004, vencer a Taça UEFA em Sevilha, a Liga Europa em Dublin. Também chorou derrotas em Supertaças Europeias. Riu outras conquistas nas modalidades.

Depois final de Viena, Nuno nunca esqueceu a camisola de lã do FC Porto que vestiu naquele jogo com o Bayern Munique. Leva-a para todas as outras finais e jogos decisivos de títulos.

«É simbólico. Sempre que há um jogo importante, levo-a. Não tem o efeito, porque também estive agarrado à camisola nas três supertaças europeias que perdemos. Tenho um escritório só com coisas do FC Porto. Quando olho, é mais o simbolismo dela, a camisola de 1987 e de todas as memórias que traz dos grandes feitos do FC Porto. Tenho de vê-la quase todos os dias, traz-me força, energia. Nasceu nos Dragões Azuis [ndr: antiga claque]. Foi, para mim, o princípio de tudo», atira.

Era ainda teenager quando celebrou a Taça dos Campeões Europeus no Prater, então inédita no palmarés dos azuis e brancos. Uma noite histórica. No meio dos festejos estava o jovem Nuno, eufórico. Até beijou o cão de um amigo. Pouco mais lembra, com tanta emoção. «O cão chamava-se Sharp, sei que estava ao meu pé e dei-lhe um beijo. Custa-me dizer: não me lembro de mais. Que pena. Foi tão forte o exagero que não lembro. É o acumular de uma pessoa seguir a equipa para todo o lado, tensões e ansiedade. Lembro-me o que sofri contra o Bayern, em Sevilha e em Gelsenkirchen. Todas as finais que vi, infelizmente há partes que se apagaram. É a loucura», conta.

Nuno Lobo (primeiro em baixo, da dir. p/esq.), adepto do FC Porto, em Itália (arquivo pessoal)

Do passado ao presente, atesta algo que não sabe se apelida de «doentio» ao dar o exemplo da última derrota no futebol, ante o Feyenoord. «Já devia ter juízo, mas estive três dias sem ver televisão». Também não consegue «comer» quando o FC Porto joga.

De família: relatos junto à macieira e à porta do cineteatro

Nuno nasceu em Angola - onde o avô foi Governador Civil - e chegou a Portugal com sete anos. Viveu alguns alternadamente entre Vila Real e o Porto, até estabelecer-se em definitivo na Invicta. Do mesmo avô e do pai ganhou o apego ao FC Porto. Começou por acompanhar os relatos de futebol.

«Lembro-me de ter oito, nove anos e de o meu irmão brincar em Vila Real na quinta. E eu preferia ficar a ouvir o relato do FC Porto com o meu avô, debaixo de uma macieira. Ao fim de semana, íamos ao cineteatro de Vila Real, mas o FC Porto jogava. O meu avô dava-nos, naquela altura, 20 escudos e eu dizia: “Não, avô.” Guardava o dinheiro e ficava a ouvir o relato. E cresceu assim. Penso que é a génese: o meu avô, o meu pai e dois tios».

O que desabrochou pela ascendência hoje transmitido ao filho. É o pequeno Manuel, de oito anos, o «loirinho» que «toda a gente conhece». Agora é Nuno que não sabe explicar o apego daquele ao clube. «Eu gostava de andar com as bandeiras grandes do FC Porto. E o Manuel, é engraçado: não sei porquê, no Dragão Arena, ele tem de estar com uma bandeira. Eu penso se alguma vez peguei no meu filho e disse: “agora toca tambor e pega na bandeira”. Não! Não fiz nada por isso. A única coisa foi: “filho, vamos ver o FC Porto”. Ele sabe que sábado o FC Porto joga e temos de ir ver», afirma.

Por outro lado, Nuno não perdeu tempo a passar a ligação ao filho. «Nasceu num domingo e na segunda-feira, às nove da manhã, era sócio do FC Porto».

Os dias à volta do FC Porto

Não tem noção de quantos jogos do FC Porto já viu entre estádios e pavilhões, mas guarda tudo no baú para memória futura. Bilhetes, fotografias, camisolas, cachecóis, porta-chaves e cromos. «Por exemplo, agora, o Coimbrões-FC Porto: o bilhete, vou guardar, tenho uma gaveta e guardo todos», conta. Dá para ter tudo lá em casa? «Está difícil, juro, não queria tirar coisas de casa para a garagem», aponta.

Camisolas são «para aí umas 60» de jogadores. E nem o telemóvel escapa à paixão. Se alguém liga a Nuno, ouve o hino do FC Porto. Ao contrário, tem o «Azul e branco é o coração», de Alberto Índio, ao telefonarem-lhe.

Um dos dias mais especiais da semana é o sábado. Vem aí jogo. Jogos, aliás. Futebol, hóquei, andebol ou basquetebol. «É acordar à uma e tal da tarde, preparar o miúdo e só saio do pavilhão às nove, dez da noite». Hoje, após muitas deslocações, resguarda-se. «Tenho um certo receio, ter problemas, se acontece alguma coisa ao meu filho», defende.

Nuno viu o primeiro jogo com oito anos: uma vitória por 4-1 ao Barreirense. Esteve na fundação dos Dragões Azuis e, mais tarde, do Movimento Portista. Afastar-se-ia das claques nos finais dos anos 90, no regresso a Portugal após terminar a licenciatura em Inglaterra. «Deixei cá [no Porto] o material todo, guardado num dos cafezinhos do Estádio das Antas. Roubaram tudo. Acabei o curso e sobraram duas bandeiras, que ainda tenho. Acabei com a cena das claques», recorda.

Nos anos de maior aventura, muito mais. Ir a pé de Ermesinde, onde morava… até às Antas! Mais de uma hora a pé. Ou sair da discoteca e ir direto apanhar a excursão para o futebol.

«Era difícil, por exemplo nos jogos europeus à noite. E ter um autocarro? Não havia metro, nada. Ou ia de boleia ou a pé. Houve alturas em que vim a pé de Ermesinde. E em muitos jogos, para o Algarve ou para Setúbal, as camionetas saíam às oito da manhã. Eu ia a uma discoteca ou estava no bar do meu pai e ia para a porta da Loja Azul. Encostava-me na soleira da porta, ia às sete da manhã para lá, porque a discoteca ou o bar tinha fechado», descreve.

«Robson ia todas as semanas beber um vinho do Porto com o meu pai»

Nuno herdou, com o irmão, o negócio da taberna na zona da Boavista, outrora do pai. Foi lá que ganhou mais episódios para contar. De Bobby Robson, ex-treinador, a Ion Timofte, ex-jogador do FC Porto.

«Eu convivi todas as semanas, durante um ano, com o Bobby Robson. O Robson ia todas as semanas beber um vinho do Porto com o meu pai à taberna».

«Um dos jogadores de que tenho memória fantástica e ainda sou amigo dele é o Ion Timofte [jogou no FC Porto de 1991 a 1994]. Foi o meu irmão Sérgio que o conheceu. Ele entra no bar do meu pai com o Timofte e o Rui Filipe e quando olho para eles digo: “Ó pai, este meu irmão anda com gajos de bairro”. Eles que me desculpem, mas traziam umas camisas tão floridas, apertadas [até ao pescoço] e o cinto das calças apertado até ao umbigo. O Timofte não falava português e depois fiz amizade enorme com ele. Eu estava a estudar no colégio na Foz e vivi com o Timofte seis meses, ele nada conhecia. Andámos no famoso Renault dele e eu ia aos treinos. De sábado para domingo, era ver o FC Porto: escolinhas, natação, andebol, hóquei, voleibol. Andava sempre atrás dos jogadores. Tenho as camisolas de jogadores do FC Porto dessa altura: Jaime Magalhães, João Pinto, Paulo Futre. Um que me deu muitas camisolas, o Hernâni Gonçalves, preparador físico, sabia que era doente pelo FC Porto», relata.

Lembra-se ainda de descer à pista de tartan do antigo José Alvalade e fazer troca de bandeiras com o Sporting para exibi-la à volta do estádio, num sinal de confraternização. De na sequência receber palmas, mas também levar com algumas moedas ou sapatos. Contudo, assegura: «apesar destas maluquices, nunca abdiquei dos estudos». Para futuro, um sonho.

«Um dos objetivos que tenho é um dia concorrer a presidente do FC Porto. Conhecem o amor que tenho pelo FC Porto. Por que não vou sonhar com isso?».

Artigo original publicado a 15/10, 23h50

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