Esta não foi, infelizmente, a única vez em que um evento desportivo serviu de pretexto para ações terroristas. Eis alguns dos momentos que pontuam a ligação indesejada entre desporto e terrorismo, começando pelo massacre de Munique que, há mais de 40 anos, manchou irremediavelmente a história dos Jogos Olímpicos.

Foi na madrugada de 5 de setembro de 1972 que um comando palestiniano autodesignado «Setembro Negro» invadiu a aldeia Olímpica de Munique, dirigindo-se ao alojamento da delegação israelita. Dois elementos – o treinador da equipa de luta e um halterofilista - foram mortos de imediato, em confrontos com os invasores. Mais nove elementos ficaram retidos como reféns, enquanto os palestinianos negociavam com as impreparadas autoridades alemãs, exigindo a libertação de 234 prisioneiros em Israel.

Durante longas horas o mundo assistiu em direto, pela TV, ao cerco policial à aldeia Olímpica. Tudo acabou da pior forma, ao final dessa noite, quando um plano, destinado a neutralizar o comando na base aérea de Fürstenfeldbruck, sob a falsa promessa de um voo de fuga para o Cairo resultou em tiroteio generalizado. Os nove reféns foram executados, bem como cinco dos oito terroristas e um polícia alemão, fixando em 17 o número de mortos. Depois de 24 horas de interrupção, os Jogos Olímpicos prosseguiram no dia 7.

Todo o processo está amplamente documentado em vários documentários e também, por exemplo, neste filme inspirado pelos acontecimentos, realizado por Steven Spielberg.

Manchester, por um fio

Se o assalto em Munique resultou em tragédia e massacre, 24 anos depois, um outro atentado com evento desportivo como ano de fundo terminou sem vítimas mortais, quase por milagre. Foi em pleno Euro 1996, realizado em Inglaterra, que o IRA colocou uma bomba com mais de tonelada e meia no centro de Manchester, cidade onde no dia seguinte iria realizar-se um Alemanha-Rússia. Um telefonema para as autoridades, 90 minutos antes da deflagração, permitiu retirar grande parte das pessoas daquela zona de intensa atividade comercial, mas não evitou que os estilhaços provocassem mais de 200 feridos.

O centro de Manchester depois da explosão

Nesse mesmo ano, apenas um mês e meio mais tarde, os Jogos Olímpicos voltaram a ser atingidos por um atentado, quando um fanático de extrema-direita deixou uma bomba no Centennial Park de Atlanta, a zona da cidade onde se realizavam eventos culturais paralelos aos Jogos. Duas pessoas morreram e 111 ficaram feridas.

Os danos só não foram maiores porque um dos seguranças destacados para o local, Richard Jewell, se apercebeu de algo de anormal, afastando centenas de pessoas da zona onde a bomba viria a explodir. A ação de Jewell foi tão decisiva que, durante dois meses, erradamente, o FBI o considerou como cúmplice. Só em 2003, depois de cometer mais três atentados, se prendeu o bombista, Eric Robert Rudolph, que tinha atuado sozinho e acabou condenado a prisão perpétua.

Um polícia observa a cratera provocada pela bomba no Centennial Park

Um Real-Barça armadilhado pela ETA

Tal como Manchester em 1996, também Madrid foi, em 2002, alvo de um atentado à bomba, que terminou sem vítimas mortais – embora pudesse ter assumido proporções trágicas. A 1 de maio de 2002, a três do pontapé de saída de um Real Madrid-Barcelona para a Liga dos Campeões, um telefonema anónimo alertou para um carro estacionado nas imediações do Santiago bernabéu e que iria explodir dentro de meia hora. A polícia teve o tempo à justa para isolar a zona, e quando a deflagração se deu, cinco minutos antes da hora anunciada, causou apenas ferimentos ligeiros em 20 pessoas, além de inúmeros danos materiais. O jogo prosseguiu como estava previsto, sob medidas de segurança reforçadas.

Carro-bomba da ETA antes de um Real Madrid-Barcelona (2002)

Por vezes não chega a haver atentado, mas a sua ameaça é suficiente para pôr em causa organizações desportivas. Foi o que aconteceu com o Grand National de 1997: a tradicional corrida de cavalos inglesa foi adiada por dois dias, depois de um alerta de bomba em nome do IRA ter sido considerado suficientemente credível para pôr em risco a vida dos 60 mil espectadores. A polícia decidiu bloquear e revistar todos os carros estacionados no local, impedindo que milhares de aficionados pudessem regressar a casa. A corrida acabou por decorrer sem incidentes, dois dias mais tarde.

Já o mesmo não pode ser dito do Rally Lisboa-Dakar, que em 2008 foi definitivamente cancelado, depois de ameaças da Al-Qaeda junto das autoridades da Mauritânia. No ano seguinte a prova foi retomada mas, apesar de manter o nome da capital senegalesa, foi transferida para a América do Sul, onde se mantém até ao presente.

Os atentados ligados ao desporto tornam-se mais frequentes em cenários de guerra. Isso mesmo pode ser confirmado pelos atletas olímpicos do Iraque, que ao longo do ano de 2006 foram vítimas de três ataques. No primeiro, a 16 de maio, 15 atletas e técnicos da seleção de taekwondo foram raptados quando viajavam para uma competição na Jordânia e nunca mais foram encontrados. Nove dias mais tarde, dois jogadores e um técnico da equipa nacional de ténis foram baleados mortalmente. Em julho desse ano, o presidente do Comité Ol+impico, bem como 37 atletas e dirigentes foram também raptados, com apenas 13 de entre eles a recuperarem a liberdade.

Nos últimos anos, o Sri Lanka foi alvo não de um, mas de dois atentados com o desporto como pretexto: em 2008, na maratona de ano novo, um bombista suicida ligado ao movimento Tigres de Libertação Tamil fez-se explodir no local da partida, provocando a morte de 12 pessoas, entre elas o ministro dos Transportes, o treinador da equipa de atletismo e um antigo maratonista olímpico, Ka Karunaratne.

Um ano depois, quando viajava para um encontro com o Paquistão, a seleção de críquete do Sri Lanka foi alvo de uma emboscada de uma organização ligada a Al-Qaeda, que provocou a morte de oito pessoas (seis pol+icias e dois civis) e ferimentos em nove – seis jogadores e três dirigentes.

Contornos semelhantes teve o atentado que, em janeiro de 2010, pôs a seleção do Togo debaixo de fogo, quando viajava para Angola, onde iria participar na Taça de África das Nações. À passagem por Cabinda, guerrilheiros independentistas da FLEC fizeram uma emboscada, que provocou a morte de três elementos da comitiva (motorista, assessor de imprensa e um técnico adjunto) e ferimentos em vários jogadores. Compreensivelmente, o Togo abandonou a competição. Menos compreensivelmente, a Confederação Africana de Futebol decidiu suspender a federação togolesa, antes de voltar atrás com a decisão, em maio desse ano.

Funeral de uma das vítimas no atentado contra o Togo

Por fim, referência incontornável para o atentado bombista da maratona de Boston, em abril de 2013, que provocou três mortes e mais de 250 feridos. Dois irmãos de origem chechena, Dzhokhar e Tamerlan Tsarnaev, colocaram dois engenhos explosivos separados por 200 metros, nas imediações da meta, fazendo-os deflagrar em rápida sucessão. Identificados pelas câmaras de vigilância, dois dias depois, foram alvo de uma caça ao homem de grandes proporções. Tamerlan foi morto após um tiroteio com a polícia, e Dzhokhar acabou por ser capturado, gravemente ferido, sendo posteriormente condenado à morte.

Imagens da primeira explosão na maratona de Boston