10 de novembro de 2025 é um dia marcado na história do At. Madrid, e provavelmente do futebol espanhol: afinal de contas, foi nesta segunda-feira que se anunciou que o Apollo Sports Capital é o novo acionista maioritário do Atleti.
O acordo ainda está sujeito às necessárias aprovações regulatórias e deverá ser concretizado no primeiro trimestre de 2026, altura em que o Apollo Sports Capital assumirá 55 por cento do capital. Esta operação avalia o clube em 2,5 mil milhões de euros.
Este número é importante.
E porquê? Simples. É que fazendo as contas, facilmente se percebe que, para avaliar o Atlético em 2,5 mil milhões, o Apollo Sports Capital terá chegado a acordo para comprar 55 por cento do clube por cerca de 1,35 mil milhões de euros.
Ora a verdade é que este fundo de investimento foi criado há menos de dois meses (no final de setembro de 2025) com um capital de 4,25 mil milhões de euros. O que significa que investiu no Atlético Madrid mais de 30 por cento do seu capital.
Mas o que é o Apollo Sports Capital?
Trata-se, como já se percebeu, de um fundo de investimento norte americano, criado há menos de dois meses e com sede em Nova Iorque.
Na verdade, o Apollo Sports Capital é a plataforma dedicada ao desporto da Apollo Global Management, esta sim uma das maiores sociedades gestoras de ativos do mercado americano. Foi criada em 1990 por três banqueiros que tinham acabado de sair do Drexel Burnham Lambert, após este banco ser obrigado a abrir falência por envolvimento em atividades ilegais no mercado de gestão de ativos de alto risco.
A sociedade começou por se especializar em consultadoria, mas foi evoluindo para o investimento em capital privado.
Inicialmente comprava empresas em dificuldades financeiras, mas hoje está em todos os setores: no imobiliário, nos cruzeiros, na restauração, no retalho, nas telecomunicações, no entretenimento, em projetos de engenharia, enfim, a lista parece não ter fim.
A Apollo garante, porém, que a sua especialidade são as soluções de aposentadoria.
Certo é que hoje tem escritórios em todos os continentes, gere ativos no valor de 714 mil milhões de euros, dos quais mais de 400 mil milhões são investimentos próprios, e foi considerada a 29ª maior gestora de investimentos em todo o mundo.
Um homem do futebol para gerir o fundo de investimento desportivo
A Apollo Global Management já tinha vários investimentos na área do desporto, mas com a criação da Apollo Sports Capital pretende tornar essa aposta mais efetiva e especializada.
Para começar, e para além do Atlético Madrid, investiu no Madrid Open e no Miami Open, está a negociar a venda dos direitos televisivos da liga mexicana e injetou 100 milhões de euros no Nottingham Forest, clube detido pelo polémico Evangelos Marinakis.
Para liderar todos estes investimentos, a empresa contratou Al Tylis para o cargo de CEO da Apollo Sports.
E quem é Al Tylis?
Trata-se de um americano nascido em Donetsk, na Ucrânia, que viajou ainda criança para os Estados Unidos, tornando-se mais um descendente de emigrantes em Nova Iorque.
Fez carreira como CEO da NorthStar Asset Management, uma empresa de investimento em imobiliário, atividade que manteve ao mesmo tempo que investia no desporto.
É co-proprietário do Necaxa, do México, e do Equidad, da Colómbia, em ambos os casos em parceria com Eva Longoria, Mesut Ozil, Ryan Reynolds e Rob McElhenney. Também é proprietário de uma equipa de e-sports e da Brooklyn Pickleball Team, uma equipa que disputa o principal campeonato de pickleball nos Estados Unidos (tuma modalidade que mistura ténis e padel, e está em franco crescimento no mercado americano).
Toda esta experiência levou a Apollo Global a apostar em Al Tylis, que não foi contratado sozinho: com ele trouxe o sócio Sam Porter, que foi nomeado diretor de estratégia.
Dinheiro para tornar o Atlético ainda maior
Por detrás da aposta no Atlético Madrid não está apenas o controlo do clube. O dinheiro investido vai servir para muito mais, na ótica de todas as partes.
A Apollo Sports Capital, recorde-se, vai injetar 1,35 milhões de euros para adquirir 55 por cento do clube e, depois disso, pretende fazê-lo crescer, para capitalizar o investimento. Para isso ser possível, parte do dinheiro servirá para reforçar a equipa e torná-la mais competitiva, mas grande parte servirá também para criar infraestruturas de excelência.
Nesse sentido, o fundo de investimento vai financiar a construção da Ciudad del Deporte, projeto do Atlético Madrid que vai crescer à volta do Estádio Metropolitano e que pretende constituir-se como um hub de excelência para o desporto, entretenimento e lazer. A ambição do projeto passa por constituir-se como um destino de referência mundial.
Inicialmente o Atlético anunciou que esta Ciudad del Deporte iria custar em torno de 200 milhões de euros, mas segundo as últimas previsões, reveladas pela Agência EFE, o custo total deverá atingir os 800 milhões. O clube e a autarquia entrarão com cerca de 150 milhões cada, ficando os restantes 500 milhões dependentes do investimento da Apollo Sports.
Na senda de outros fundos de investimento
Os fundos de investimento especializados sempre foram uma prática corrente da Apollo Global Management, que ao longo dos anos apostou em fundos para o imobiliário, para o crédito, para serviços financeiros ou para empresas de média capitalização.
Ora por isso a criação de um fundo especializado em desporto não é surpreendente e procura seguir uma tendência crescente entre as empresas de investimento americanas.
Basta recordar que o Chelsea (Clearlake Capital), o Milan (RedBird Capital), o Inter Milão (Oaktree Capital), a Atalanta (Bain Capital,) o Sevilha (777 Partners), o PSG (Arctos Partners) ou o Inter Miami (Ares Management), entre muitos outros, são detidos ou contam com participações de empresas de investimento em private equity.
Porquê este interesse em clubes de futebol?
A pergunta que muita gente coloca é: porquê? Porquê este interesse dos fundos norte americanos de investimento em clubes de futebol, sobretudo europeus?
Antes de mais, convém referir que este interesse, que já vem desde o pós-pandemia, não é apenas em clubes de futebol: muitos fundos querem também entrar nas Ligas nacionais, tendo já havido negociações por exemplo com a Bundesliga ou a Série A italiana.
A própria Apollo Sports Capital está a tentar entrar na Liga Mexicana.
Ora segundo Dan Plumley e Rob Wilson, professores da Sheffield Hallam University, as características do futebol tornam-no muito tentador para o mundo dos investimentos.
Por um lado, porque é um negócio pouco sensível a grandes alterações de preço: não é um bem essencial, mas tem uma base de consumidores que necessita dele e lhe confere estabilidade. Por outro lado, são investimentos que se desenvolvem a longo prazo, o que dá tempo de maturação aos fundos. Por fim, é um mercado organizado e muito regulado por instituições internacionais de futebol.
O objetivo principal destes investidores, no fim de contas, é valorizar os clubes para depois os venderem, como já aconteceu com o Milan, por exemplo, que foi vendido pelo Elliott Management aos atuais proprietários: os também norte-americanos da RedBird Capital.
Por isso, e depois de cair no portefólio de um fundo de investimento, é de esperar que o Atlético Madrid entre no circuito de negociação de clubes. A boa notícia é que estes proprietários costumam investir muito e a longo prazo, sem esperar retorno imediato, o que pode tornar a viagem até ser novamente vendido uma bonita época de crescimento e sucesso.
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