Não duvido das suas capacidades, acredito que a sua demissão metodológica seja compatível com a qualidade do potencial humano existente no clube, estou expectante em relação à forma como se adaptará a uma realidade a uma realidade diariamente stressante.

Patrick Kluivert é um homem inteligente e sabe que toda a sua formação táctica residiu num modelo único e inequívoco, o qual domina mecânica e eficazmente. «Pat» foi construído para ser um ponta-de-lança de referência, a jogar de frente para o seu meio campo, a movimentar-se para o lado de saída em construção, a permitir a «chegada» dos jogadores de meio-campo. Assim nasceu, assim cresceu e venceu, de forma diferente fracassou rotundamente. AC Milan e o futebol italiano colocaram-no numa situação nova ao jogar no clássico 4-4-2, onde os dois pontas-de-lança são homens em movimento livre, por vezes caótico, esperando que a qualidade individual e a criatividade se sobreponham a uma dinâmica colectiva. O seu rendimento foi nulo, a sua saída determinada precocemente, o sucesso reencontrado em Barcelona no regresso à filosofia-mãe, a de Van Gaal.

Agora surge Serra Ferrer, e com ele o presságio de nova inadaptação de Kluivert a um sistema baseado na profundidade de dois pontas-de-lança, e no desaparecimento ou pelo menos redução de uma posse de bola esmagadora, com a alta circulação e utilização-chave do homem referência.

Kluivert sentiu, pensou e falou; a sala de «prensa» do Camp Nou rejubilou com as declarações, Serra Ferrer certamente tremeu e ficou a saber o que significa ser treinador do Barça! É que coabitar o mesmo espaço com os jogadores do Maiorca e do Bétis não é o mesmo que viver em Camp Nou!

Irá o técnico modificar o sistema inicialmente idealizado? Estará Kluivert disponível mentalmente para forçar uma adaptação? Estará Alex Ferguson a esperar com um baú cheio de sterling pounds? Eu limito-me a esperar para ver e a recordar agradecido o privilégio de ter vivido quatro anos de experiências de impacto e modeladoras da minha personalidade como treinador de futebol. Com cabelos brancos... mas grato.

Como consequência a nível técnico, faz-me esta situação recordar a minha paixão pelo desenvolvimento da multifuncionalidade nos jovens jogadores, que lhes permitirá no futuro uma adaptação fácil e automática a diferentes filosofias e modelos de jogo. Bem sei que vivemos numa sociedade consumista, mas vender e comprar todos os anos jogadores inadaptados...