A estrada e o autocarro

Se uma imagem vale mais que mil palavras vá-se buscar um frame de um ataque do Benfica, por volta dos 36 minutos. Bola corrida e Roberto um homem só. Era o único do Arouca que não estava dentro da área, a defender um ataque encarnado que iria terminar num canto. Os arouquenses nem sempre defenderam com dez unidades na área, é verdade, mas fica-se com um quadro do que foi muito do primeiro tempo na Luz. Muito porque não foi todo. Porque o Arouca esteve em vantagem, a aproveitar duas de três exibições de nível baixo na Luz: a de Cortez e a de Artur. O guarda-redes tem outras no currículo para equilibrar a balança. O brasileiro não.

A estrada para Arouca é difícil. Seja ela qual for. Seja a que vai do litoral para o meio da serra, seja de uma serra para outra. Mais difícil fica quando se tem um autocarro à frente. Por isso, na Luz, o Benfica fez o caminho para o golo de foma pensada. Enfim, contornar o problema parecia uma boa solução. Os encarnados trocaram a bola, jogaram-na para os flancos e Rodrigo recebeu-a muitas vezes entre linhas para a distribuir, com Enzo Pérez ao volante. Com calma, o Benfica construiu logo uma ocasião aos quatro minutos. Rodrigo para Lima, Lima para fora, de cabeça. No fundo, a noite parecia que ia ser tranquila para os da Luz, ainda para mais quando Pedro Emanuel teve de substituir um central e recuar Nuno Coelho para a posição.

Um primeiro erro de Cortez e um segundo de Artur mudaram o cenário por completo. O brasileiro foi chamado à primeira ação defensiva sobre Pintassilgo, falhou a entrada e fez falta. David Simão cobrou o livre e Artur foi mal batido pelo ex-benfiquista, que juntou as mãos em sinal de perdão. Frente ao penúltimo, o Benfica estava a tombar com meio remate.

Mas não mudou de ideias. Continuou a fazer o mesmo jogo porque esse era a ideia indicada antes do encontro. Seguiram-se duas cabeçadas de Lima, uma com grande defesa de Cássio, um alívio de Nuno Coelho quando o golo estava iminente e um cabeceamento de Rodrigo ao lado, após canto. O Benfica estava tão perto do empate que ele chegou mesmo. Pelo incansável hispano-brasileiro que meteu o pé à bola após cruzamento de Maxi Pereira. O Benfica tinha 50 minutos para consumar a ultrapassagem ao Arouca.

A ideia de Pedro Emanuel

Não havia muitas dúvidas, antes do jogo, do que o Arouca ia fazer na Luz. Bastava ver o passado das equipas de Pedro Emanuel na Luz. Era ele o treinador da Académica quando, na época passada, uma grande penalidade de Lima, nos descontos deu triunfo ao Benfica. Nesse dia, foram 90 minutos a defender. Antes do jogo, o técnico falou no «sufoco» que ia passar na Luz. Com 1-1 ao intervalo, portanto, previa-se o mesmo. E assim foi. O Arouca fechou-se ainda mais, Luisão e Garay jogaram por vezes a meio do meio-campo contrário, mas, aí, depois do erro individual, o erro coletivo: mais uma bola parada defensiva (um lançamento lateral!), falhas na marcação e o golo de Serginho, o suplente de ouro.

Por essa altura, já o Benfica tinha alargado o jogo. Cortez nem regressou do intervalo, Jesus preferiu ter Gaitán como lateral. Sulejmani vinha para o jogo e seguir-se-ia Funes Mori, um estreante. Faltava uma coisa ao Benfica, porém, para que a estratégia desse nalguma coisa. Mais velocidade. Não é fácil imprimi-la quando se tem tanta defesa pela frente. Mas é obrigação para quem quer chegar ao fim em primeiro. E antes morrer pela tentativa, antes arrependimento pelo que se tentou. As oportunidades não surgiam, mas aquilo que parecia ser questão de tempo deixou de o ser quando Serginho fez o 2-1, no tal lance.

Com o coração nas mãos, o Benfica agarrou-se à vida. Por fim percebeu a montanha em que estava metido e chegou ao empate num penálti apitado sobre Sulejmani. Lima empatou, mas Luisão já não foi a tempo de resgatar os dois pontos com uma oportunidade escandalosa.

A ideia de Pedro Emanuel na Luz algum dia ia dar certo. Mas o treinador do Arouca pode dar muito desse mérito ao adversário, que continua desligado e sem assumir problemas. Talvez da bancada Jesus os tenha percebido melhor.