«Chegou à presidência com a responsabilidade de devolver o Clube às suas glórias passadas, tendo-o conseguido com sucesso».

A frase está escrita no site oficial do Benfica e diz respeito a Luís Filipe Vieira. Apesar de ser da responsabilidade da  equipa de investigação histórica do SLB carece notoriamente de rigor e distanciamento. Além de ser apressada. Afinal, Vieira ainda está na cadeira mais desejada do clube, ninguém sabe quando e como terminará a passagem pela Luz.

Uma visita ao perfil de outros presidentes, por exemplo com sucessos europeus e anos de domínio nacional, sublinha o essencial: Luís Filipe Vieira pode falhar em muitas coisas, mas a comunicação não é uma delas. Pelo menos nos tempos recentes. Este é só um detalhe, provavelmente sem grande importância, que prova o essencial: nunca um presidente do Benfica teve ao dispor tantas e tão poderosas formas de escrever a sua versão da história. O mínimo que se pode dizer é que tem sabido aproveitá-las. A televisão do clube, o jornal, a revista, o site. Tudo isso, além da imprensa desportiva mais dependente dos maiores clubes e de quem os dirige.

Quando a história olhar para o momento em que Luís Filipe Vieira foi eleito verá um clube a recuperar das dificuldades em que o pior presidente de sempre, João Vale e Azevedo , o tinha deixado. O trabalho mais duro, no entanto, já tinha sido feito por Manuel Vilarinho. 

Em 2000, quando Vilarinho ganhou as eleições, Vieira começava a fazer-se notado pelo projeto em Alverca. A candidatura chegou a ser noticiada, mas decidiu ficar na sombra. Em outubro desse ano, o sócio número 7331 fez saber que não iria a jogo. Menos de um ano depois estava na SAD. Em agosto de 2002 admitiu candidatar-se, desde que Vilarinho não o fizesse. Em setembro já era presidente da SAD. No início da noite de 1 de Novembro de 2003 o clube caiu-lhe nas mãos. 

Ainda hoje, dez anos depois, Vieira gosta de lembrar o fantasma dos tempos negros . O contraste com Vale e Azevedo sempre o favoreceu. Funcionou de forma quase perfeita em tempos de atos eleitorais. A marca da década anterior continua muito presente. Talvez também por isso os sócios tenham aprovado sem grande discussão as alterações estatutárias que reduzem a margem de influência dos adversários do presidente. 

Uma década depois, fica a minha análise ao trabalho de Vieira, em dez pontos. A história far-se-á um dia. 

O número

O Benfica venceu dois campeonatos na última década. Na anterior tinha conseguido apenas um. Na dolorosa época de 1993/94, antes de Manuel Damásio ter tido uma das piores ideias da história do clube: trocar Toni e Jesualdo Ferreira por Artur Jorge.

Dois é melhor do que um, mas continua a parecer pouco. Sobretudo quando se olha para as décadas anteriores.

Por culpa de Benfica e Sporting e muito mérito próprio dos portistas, a última década foi a melhor de sempre na história do FC Porto. Oito vezes campeão, conseguiu ainda tempo para vencer uma Liga Europa e uma Liga dos Campeões. Escrito de outra forma: Luís Filipe Vieira tem sido o presidente do Benfica perfeito para Pinto da Costa. No Sporting qualquer um tem servido, o resultado é igual: nada. Dizem os factos.

Décadas

2003/04-2012/13 (2)

8 titulos FC Porto

2 titulos Benfica

1993/94-2002/03 (1)

6 FC Porto

2 Sporting

1 Benfica

1 Boavista

1983/84-1992/93 (4)

6 FC Porto

4 Benfica

1973/74-1982/83 (5)

5 Benfica

3 Sporting

2 FC Porto

1963/64-1972/73 (8)

8 Benfica

2 Sporting

1953/54-1962/63 (5)

5 Benfica

3 Sporting

2 FC Porto

1943/44-1952/53 (2)

7 Sporting

2 Benfica

1 Belenenses

1938/39-1942/43 (2)

2 Benfica

2 FC Porto

2 Sporting

A guerra

Os presidentes do Benfica vão mudando, a relação com Pinto da Costa mantém-se, genericamente, idêntica. Desde o pós-Fernando Martins que é assim . A responsabilidade maior não pode, pois, ser colocada do lado de quem se sentou na presidência da Luz. Tudo começou em Pinto da Costa, há muitos anos, com métodos por vezes nada recomendáveis. Com Luís Filipe Vieira chegou a parecer que poderia ser diferente. Afinal, enquanto líder do Alverca, Vieira chegou a ser amigo de Pinto da Costa, com relações pessoais e negócios entre os emblemas. Pura ilusão. Com Vieira na liderança, a «guerra» entre os dois clubes subiu de tom e atingiu fases de inacreditável violência. O processo apito dourado acentuou as distâncias e deixou marcas que perdurarão pelo menos durante o tempo que os dois homens estiverem à frente de FC Porto e Benfica. O principal prejudicado tem sido o futebol português.

As contas

Nenhum clube português surge entre os 20 maiores da Europa em volume de receitas, de acordo com os mais recentes dados da consultora Deloitte, que há anos se dedica este tipo de estudos. No entanto, no último sorteio da Liga dos Campeões Portugal tinha dois clubes no pote 1: Benfica e FC Porto.

Apesar de por vezes os prejuízos se sobreporem aos lucros e de os passivos parecerem assustadores, Benfica e FC Porto têm conseguido gerir de forma invejável os recursos de que dispõem. Os dois clubes fazem parte dos locais onde os maiores predadores (Real Madrid, Chelsea, Manchester City, Atlético Madrid, Zenit, Mónaco) passam para se alimentar de talento. 

A relação muito próxima com fundos de investimento e grandes empresários tem permitido aos dois clubes receber futebolistas jovens de qualidade que depois de um, dois ou três anos de desenvolvimento são vendidos por somas dignas de realce. Se existe uma roda que faz o futebol andar, Benfica e FC Porto estão lá metidos.

A gestão de ambos envolve risco e os tempos correntes, de crédito escasso e caro, colocam desafios permanentes. A verdade é que em dez anos nunca mais se ouviu falar de problemas de tesouraria e/ou financeiros. Mérito indiscutível de Vieira.

As ideias

A última década foi especialmente criativa na Luz. Os nomes nas bancadas, a designação do centro de estágio no Seixal, a campanha de sócios, a Benfica TV, o Museu. A gestão de Luís Filipe Vieira não pode ser acusada de não ter procurado estimular a relação com os associados, identificados desde o início como o principal ativo. E de facto são. A aposta na Benfica TV, pioneira e arriscada, é só o último exemplo. Nesse aspecto Luís Filipe Vieira foi sempre muito consistente e tem colhido merecidos frutos.

O feito

O Estádio da Luz, o novo Estádio da Luz, é muitas vezes associado a Luís Filipe Vieira. Na verdade, Manuel Vilarinho era o presidente no dia da inauguração (25 de outubro de 2003) e Mário Dias foi o homem que mais horas deu ao projeto. Mas Luís Filipe Vieira, até pelas ligações profissionais à construção, foi sem dúvida um dos responsáveis pelo sucesso da obra que marcará as próximas décadas do Benfica.

O momento

Eleito em novembro de 2003, Luís Filipe Vieira viveu a situação mais infeliz e delicada à frente do clube logo em Janeiro de 2004. Fehér morre em campo, durante um jogo com o Vitória de Guimarães, e os benfiquistas podem ver o lado emocional do presidente. Chega a colocar a possibilidade de abandonar, de parar, mas recompõe-se e segue em frente. Dificilmente passará por algo equivalente. Vieira soube estar à altura no mais dramático dos momentos desta década.

A deceção

Não é preciso pensar muito: a última época desportiva foi a maior deceção. O Benfica já tinha deixado fugir vantagens confortáveis, mas desta vez foi de mais. Primeiro o campeonato, depois a final da Liga Europa, por fim a Taça de Portugal. Jorge Jesus tentará até ao fim dos seus dias fazer desta uma boa temporada, mas até o regresso a uma decisão europeia perdeu brilho no meio de tamanha deceção. A maior parte dos dirigentes não teria resistido à tentação de trocar de treinador, ainda por cima em final de contrato. Vieira insiste em Jorge Jesus. Uma aposta de alto risco que o futuro avaliará. Para já, o FC Porto lidera com cinco pontos de vantagem em oito jornadas. Nada de novo, portanto.

A Frase

No início, Vieira dizia tudo o que lhe passava pela cabeça e isso era bom para os jornalistas. Apesar de esquivo, sempre que decidia falar oferecia títulos. Na televisão funcionava mal. O conteúdo podia estar lá, mas a forma era péssima. Melhorou com o tempo e passou a gerir o silêncio. Para a histórica ficaram frases inesquecíveis como a possível venda de Mantorras por «18 milhões de contos», os «três campeonatos a cada quatro épocas» e, mais recentemente, «o melhor plantel dos últimos 30 anos». Tudo frases que o perseguiram. Talvez a mais relevante tenha sido dita em 2002, ainda antes de assumir a presidência, quando afirmou que tinha a coluna vertebral do futuro Benfica campeão europeu. Passaram onze anos.

Os exotismos

Um protocolo com o Cluj, na Roménia. Aconteceu no Benfica, mas até hoje não se percebe quem lucrou com isto. Houve mais exotismos deste tipo, mas os maiores passaram pelo plantel e têm nome próprio. Eis alguns, com link, para o caso de já não se recordar.

Zack Thorton (guarda-redes), Yannick Quesnel (guarda-redes), André Luís, Delibasic, Karadas, Moretto (guarda-redes), Karyaka, Manduca, Diego Souza, Kikin Fonseca, Zoro, Andrés Diaz, Bergessio, Yu Dabao, Freddy Adu, Makukula, Balboa, Binya, Shaffer, Keirrisson, Kardec, Roberto (guarda-redes), Júlio César (guarda-redes), Capdevila, Yannick Djaló, Rodrigo Mora e Michel. Funes Mori é forte candidato a entrar na lista.

O pior negócio da gestão Vieira foi sem dúvida o guarda-redes Roberto. Tão mau que o único resultado positivo que deu foi recentemente, ao deixar escapar para Cardozo uma bola que deveria ter afastado da baliza. Resultado: o Benfica empatou com o Olympiakos. Somou um ponto, manteve-se na luta pelo apuramento na Liga dos Campeões e recebeu uns milhares de euros. Ir buscar Djaló ao Sporting foi também incompreensível, embora provavelmente mais barato.

Vieira teve um mérito: tirou uma fotografia ao lado de Sunil Chhetri mas não contratou o indiano, sério candidato a pior jogador de sempre de um grande clube português.

O erro

Sempre que tem hipótese, Vieira elege o despedimento do treinador Fernando Santos como o seu maior lapso enquanto presidente do Benfica. Por esses anos, com Paulo Bento no Sporting, os «encarnados» nem sequer conseguiam terminar em segundo lugar. Apanhar o FC Porto era uma miragem. 

Nenhum treinador parecia suficientemente bom para se manter. Tinha havido Toni, depois Jesualdo Ferreira («Temos um grande homem, um grande comando técnico», disse em 2002, e a seguir foi o que se viu), a seguir Camacho (ganhou uma Taça de Portugal, a José Mourinho) e enfim Trapattoni. 

Com o italiano no banco, um futebol sofrível e Mantorras na frente, os «encarnados» puseram fim a onze anos sem títulos. Houve festa, mas ganhar parecia não ser suficiente. 

Koeman devolveu alguma Europa à Luz mas também só durou uma época. Veio enfim Fernando Santos, despedido após uma temporada e dois meses. 

Seguiram-se mais treinadores até que em 2009/10 surgiu Jorge Jesus

Pelo meio, Vieira mudou diversas vezes a estrutura. Aproximou-se, afastou-se, aproximou-se outra vez da gestão do futebol. Deu tudo a José Veiga e tudo lhe tirou. Promoveu Rui Costa, para depois o remeter para um lugar discreto e um papel que ninguém parece muito preocupado em explicar. Também por ali andaram António Simões e António Carraça. 

Dez anos depois, no Benfica ainda é possível ouvir um treinador dizer que quem pensa a estrutura é ele. Talvez esse seja, afinal, o maior erro: nunca ter conseguido montar  no futebol uma estrutura clara, sólida, com as pessoas certas. Apoiá-las, sempre. A história julgá-lo-á.

NOTA: Abri a possibilidade de colaboração dos leitores neste texto. Recebi um contributo, que merece um link. Depois de escrito, continua a valer. Fica a caixa de comentários.