Até ao final da temporada, muitas das crónicas de jogo do Benfica poderão começar como esta. «Não foi a melhor exibição da época, mas...». É verdade. Os encarnados já tiveram melhores dias, mas os dias de hoje não são assim tão maus quanto isso. O conjunto de Jorge Jesus venceu, apurou-se e teve, aqui e ali, bons momentos de futebol. Do outro lado estava uma das piores equipas da Alemanha esta época, que o provou em campo nas duas mãos. Os portugueses não têm culpa, mas também não há motivo para euforias exageradas. Apesar do 4-0.
Quando, aos 13 minutos, Drobny segurou a bola alguns segundos na sua grande área, com a desvantagem na eliminatória trazida de Berlim (1-1), percebeu-se claramente qual a missão dos alemães. Segurar o 0-0 e aproveitar um acidente para chegar ao golo que lhes garantisse a presença nos oitavos-de-final da Liga Europa. É verdade que, tirando os fogos criados pela irreverência, por vezes inconsequente, de Di María, o jogo até estava a correr bem aos visitantes. O Benfica ainda não fizera mossa e tinha dificuldades em carregar no acelerador, porque a pista era demasiado curta. O Hertha aproximava o máximo que podia a defesa do grande círculo e aí, nesse território, cerrava fileiras. Em 25 metros ficavam encarceradas os três sectores da equipa: defesa, meio-campo e ataque.
A equipa de Jorge Jesus não foi o cilindro compressor que os adeptos certamente queriam nos primeiros vinte minutos e chegou a pairar sobre o relvado o espectro de mais uma exibição menos conseguida. A verdade é que, a um ritmo diferente e com um futebol mais tricotado, o Benfica chegou ao seu golo. No minuto 24, Di María colocou a bola em Saviola sobre a direita e este viu, como muitas vezes, Aimar como a sua sombra. Na área, o 10 torneou Von Bergen e rematou cruzado para a primeira explosão. Com o 1-0, os encarnados também encontraram o batimento cardíaco correcto para chegar ao destino. Três minutos depois, Aimar teve um passe fantástico para Saviola e o «conejo» cruzou como lhe era pedido para a emenda. A bola passou por Drobny, mas Cardozo não chegou.
O primeiro remate do Hertha apareceu logo depois, aos 27, por Kringe. Foi o primeiro sinal de que algo nos alemães tinha mudado. Aos 33, Júlio César negou, com uma defesa tão aparatosa como vistosa, o golo a Raffael, que logo a seguir voltou a tentar de longe para uma defesa mais tranquila do brasileiro. Pelo meio, Cardozo ainda cabeceou fraco após grande entendimento entre Di María e Coentrão, mas o cruzamento difícil exigia uma elasticidade que o paraguaio não tem. A primeira parte terminaria com mais dois lances para golo: a trave negou a festa a Saviola, aos 39 minutos, após Javi García mostrar-se um dos mais inteligentes em campo e servir o cruzamento canhoto de Maxi; Amorim, aos 43, acertou nas malhas, servido por Cardozo.
O Benfica entrou para a segunda parte, com a consciência de que se não cometesse erros estava nos «oitavos», mas também que se acelerasse mais um pouco o jogo acabava antes de tempo. Bastaram quatro minutos para que Di María e Cardozo servissem aos colegas uma maior dose de tranquilidade. Jogada do argentino pela esquerda, com bom cruzamento a passar por Drobny. Cardozo cabeceou fácil para redes desertas. Estava feito, os encarnados já podiam festejar descansados e gerir o jogo até ao fim. Ou então acelerar ainda mais. Javi e Cardozo, com o «bis», já apenas confirmariam que a diferença entre as duas equipas é bem maior que dois golos.