«Deus está acima de Jesus.»

A frase que abre o artigo não representa aquilo que provavelmente estará a pensar aí desse lado.

Pertence a António Fiúza, ex-presidente do Gil Vicente, e foi proferida para justificar do ponto de vista teológico por que razão a contratação de João de Deus em 2013 tinha tudo para dar certo.

Focado no trabalho físico e minucioso nos treinos e na preparação para os jogos. É assim que é visto, por quem trabalhou com ele, o homem que substituiu Jorge Jesus ao leme do Benfica no jogo de quinta-feira com o Belenenses e que, ao que tudo indica, estará ao leme dos encarnados no dérbi da próxima segunda-feira em Alvalade diante do Sporting.

Carreira discreta terminada aos 27

Formado no V. Setúbal e nos Pelezinhos, um dos clubes mais fortes da cidade sadina ao nível do futebol de formação, o agora adjunto de Jorge Jesus deixou de jogar no verão de 2004. Tinha 27 anos e uma licenciatura concluída anos antes na variante de educação física do curso de Professores do Ensino Básico, do Politécnico de Setúbal, tendo sido integrado logo a seguir na equipa técnica de José Couceiro como preparador físico, aspeto ao qual já dava particular importância.

«Lembro-me que ele gostava muito de fazer trabalho de ginásio e de se preparar fisicamente no Barreirense. Às vezes eu tinha de o ‘cortar’ um bocadinho. Daí a passagem dele para preparador físico. É aí que eu o apanho no Vitória no ano em que ganhamos a Taça de Portugal, em 2004/05», conta Rachão, que substituiu Couceiro a meio da época quando o então treinador dos sadinos rumou ao FC Porto.

Nesse ano, lembra Rachão, eram vários os elementos da equipa principal que já pensavam em seguir carreira de treinador. «Ele estava a começar e fazia parte de um grupo de gente que estava a tirar o curso de treinador nesse ano: era ele, o Hélio Sousa, o Bruno Ribeiro, o Sandro Mendes e o Marco Tábuas, que eram profissionais que tinham um certo e determinado conteúdo. E o João fazia parte desse lote.»

João de Deus esteve três anos ligado à equipa técnica do V. Setúbal e em 2009, já depois de trabalhos como adjunto da seleção de Cabo Verde e dos angolanos do Interclube, foi nomeado selecionador de Cabo Verde.

O Gil Vicente e os treinos filmados

A chegada à Liga deu-se a pulso: 2.ª divisão B no Farense, II Liga no Atlético e na Oliveirense e, finalmente, a oportunidade no primodivisionário Gil Vicente em 2013, que chegou aos 36 anos com uma cláusula de rescisão associada de 1 milhão de euros.

Deus foi despedido do Gil Vicente no final de agosto de 2014, vítima dos maus resultados que se arrastaram da segunda metade da época 2013/14 para as primeiras semanas da temporada seguinte.

Mas em novembro de 2013 o cenário era bem diferente: à nona jornada, os gilistas estavam no quarto lugar da Liga com 17 pontos e um arranque de época sem paralelo na história da equipa. Foi nessa altura que deu uma entrevista ao Maisfutebol. «Quando decidi que queria ser treinador? Quando tive o meu primeiro computador, os jogos eram sempre de estratégia de futebol. Era sempre a mesma coisa. Gosto do fenómeno. Gosto do jogo, de estudar, de intergir, de conversar sobre futebol. Tivemos agora uma paragem de uns dias. No sábado, depois do jogo, estive excelente com a família. No domingo, excelente com a família. Segunda-feira, excelente com a família mas a faltar qualquer coisa. Terça-feira, excelente com a família mas a faltar muita coisa. E quarta-feira quando aqui cheguei para trabalhar vim satisfeito. E reparei que não devo ter sido o único a passar por isto: cheguei meia-hora antes da hora marcada e já cá estavam todos», disse.

Na mesma entrevista, Deus confessou ser admirador de José Mourinho, a «anos luz dos outros todos», mas também do trabalho de outros treinadores portugueses, entre os quais o homem do qual é braço direito desde o período no Al Hilal, entre 2018 e o princípio de 2019 e que quase surpreendera meses antes, naquela mesma época, quando o Gil perdeu na Luz com dois golos na reta final, depois de ter estado em vantagem até à entrada para os descontos. «Gosto muito do Jesus. Acho que é um grande treinador.»

João de Deus fotografado pelo Maisfutebol quando foi entrevistado pelo nosso jornal em 2013. O Gil Vicente foi a primeira de duas equipas que treinou na Liga. A segunda foi o Nacional, na reta final da época 2016/17

Leo Pimenta, médio formado no Benfica e que foi treinado por João de Deus no Atlético Clube de Portugal (2011/12) e no Gil Vicente, entre 2013 e o início da época 2014, recorda um homem atento ao detalhe, «minucioso» e que até filmava os treinos para poder corrigir defeitos logo na sessão seguinte.

«Lembro-me de um treino no Gil em que tínhamos de fazer 15 flexões e houve alguém que fez menos. Como ele via as sessões ao pormenor depois, apercebeu-se e confrontou esse jogador no treino seguinte.»

- Quantas fizeste?

-Fiz 15.

- Não fizeste, não. Fizeste 13!

«Se o jogador tivesse insistido, o João levava-o ao balneário para verem as imagens, mas nem sequer foi preciso: claro que ele sabia que não tinha feito as 15 [risos]», conta.

Ainda ao nível do detalhe, o médio, que está sem clube desde o final da época passada quando terminou a ligação ao Sp. Covilhã, recorda a preparação para os jogos, não qual não faltava quase nada aos jogadores. «Não se ficava só pela parte coletiva. Procurava ir ao pormenor. Além de ver muito bem o que as outras equipas faziam em termos táticos, tentava sempre encontrar uma forma para ganharmos vantagem, por exemplo, numa bola ofensiva. Também falava individualmente com os jogadores. Por exemplo: no meu caso, chamava os jogadores do meio-campo à parte e falava-nos dos adversários que podíamos enfrentar nas nossas posições e que características tinham.»

Leo Pimenta terá sido um dos primeiros jogadores que trabalhou com João de Deus, mas também com Jorge Jesus, que em 2012/13 o chamava regularmente para as sessões de trabalho da equipa principal do Benfica e o levou a uma digressão nos Estados Unidos.

«Se são muito diferentes? Não. E talvez seja por isso que estão agora a trabalhar um com o outro. Trabalhavam muito bem o lado tático e físico, mas o Jesus era um bocadinho mais rígido: não falha um pormenor e também por isso que todos os jogadores evoluem com ele. Não facilita rigorosamente nada com os jogadores, com os adjuntos ou com o preparador físico. Talvez aquilo que os diferencie mais seja o trato com os jogadores. O Jesus não tinha problemas em mandar alguém para algum sítio se tivesse de ser. Nesse aspeto, o João era mais calmo: tinha uma forma diferente de lidar com as pessoas, embora fosse mais próximo dos jogadores quando o encontrei no Atlético, talvez pelas coisas estarem a correr melhor. No Gil Vicente começámos bem, mas depois atravessámos uma fase complicada», atesta.

Benfica em boas mãos no dérbi e o amadurecimento com Jesus

José Rachão acredita que o Benfica estará em boas mãos – nas de Deus - quando se apresentar em Alvalade para um duelo potencialmente para o conjunto encarnado contra uma equipa em «excelente momento de forma». Ainda assim, está convencido de que Jesus estará… omnipresente. «Hoje, com a internet e outras tecnologias é muito mais fácil superar essas situações. Esteja ele na bancada por castigo ou em casa.»

Rachão considera que João de Deus só pode ter crescido muito nos últimos anos com a ligação quase umbilical a Jorge Jesus: Al Hilal, Flamengo e, agora, Benfica, sem esquecer a proximidade no Sporting quando um treinava a equipa principal e outro comandava os bês.

«A oportunidade que teve de ir trabalhar com o Jorge Jesus como adjunto direto, pelo que passaram no Brasil e agora no Benfica, vai torná-lo muito mais experiente e estou convencido que, como pessoa ambiciosa que é, vai estar cada vez melhor preparado. Toda esta experiência vai torná-lo mais treinador», diz antes de profetizar em jeito de remate.

«Ele tem as ferramentas para de hoje para amanhã vir a ser treinador principal. Mais tarde ou mais cedo vai voltar a caminhar sozinho.»

* Foto de capa: Tânia Paulo /SL Benfica