O Benfica enviou uma carta contundente à Liga Portugal, aos clubes das ligas profissionais, ao Governo e aos partidos políticos com assento parlamentar a requer a suspensão imediata do processo de centralização dos direitos televisivos.
Na missiva, a que o Maisfutebol teve acesso, a SAD encarnada expressa preocupações sérias sobre o atual processo de centralização, previsto para entrar em vigor em 2028.
«Não podemos embarcar numa aventura mal preparada que corre o risco de destruir valor, reduzir receitas e comprometer de forma duradoura o desenvolvimento do futebol em Portugal. Isso seria trair os pressupostos essenciais que foram garantidos aos clubes aquando da aprovação da centralização – todos os clubes teriam ganhos no seu valor de direitos e o futebol português sairia mais forte», pode ler-se.
Acima de tudo, o Benfica denuncia a ausência de um plano estratégico claro e sustentado, alertando que o processo corre o risco de falhar rotundamente os objetivos para os quais foi aprovado: reforçar a competitividade, aumentar as receitas e garantir maior equidade entre clubes.
Processo desatualizado e sem bases sólidas
O Benfica sublinha que, quatro anos após o decreto-lei ter sido aprovado, em março de 2021, continua a faltar um verdadeiro modelo de centralização e de afirmação do produto, bem como um plano estratégico, com dados concretos, sobre o potencial de receitas.
A SAD encarnada considera que deveria ter sido feita uma série de investimentos na valorização do produto, que não aconteceram, o que coloca o sucesso em causa. Entre outros erros, o Benfica destaca os seguintes:
- Não há modelos alternativos testados ou debatidos com operadores e adeptos
- Não houve um investimento concertado e estrutural na modernização dos estádios, da arbitragem (incluindo automatização do VAR) e na formação de quadros
- Não houve uma reflexão sobre a evolução dos quadros competitivos, nem foi quantificado o valor dos direitos associados a diferentes opções
- Não houve uma estratégia internacional de promoção da Liga, de aumento de audiências globais e de estabelecimento de parceiras internacionais
- Não há concorrência real entre operadores nacionais, considerando o Benfica que «o mercado de direitos televisivos doméstico permanece excessivamente concentrado»
- Não foi feito um combate eficaz à pirataria, a qual é responsável por prejuízos estimados entre 100 a 200 milhões de euros anuais (a SAD encarnada diz que se estima que uma em cada duas pessoas utiliza serviços de acessos ilegais)
Por tudo isto, o Benfica considera que a meta de 300 milhões de euros anuais em receitas está longe de ser realista, sendo «provável que o valor da centralização não atinja sequer os 150-200 milhões de euros, o que representaria uma perda de receita irreparável para todos os clubes portugueses: grandes, médios e pequenos».
O documento utiliza até alguns exemplos internacionais que reforçam a preocupação, chamando a atenção para o facto do mercado internacional de direitos televisivos enfrentar múltiplos desafios.
Nesse sentido, é referido o fracasso da negociação dos direitos da Liga Francesa - que acabou com a rescisão do contrato por parte do operador, já de si muito inferior ao inicialmente pretendido -, a contratualização com valores inferiores ao anterior acordo dos direitos da liga neerlandesa e o falhanço do acordo entre a Apple e a FIFA para a transmissão do Mundial de Clubes, que conduziu a um acordo pior com a DAZN.
Benfica suspende participação na Liga Centralização
Face ao atual rumo do processo, o Benfica anunciou a suspensão do seu lugar na comissão da Liga Centralização «até existir uma alteração de rumo, não acreditando que o processo em curso satisfará as necessidades do futebol português e do Benfica em particular».
Para além disso, a SAD encarnada avançou com um pedido de audiências urgentes ao Governo e aos partidos políticos, bem como a solicitação de investigação à atuação de ex-árbitros em estruturas desportivas.
Ao mesmo tempo, o Benfica desafiou todos os clubes das ligas profissionais a acordar, em sede de Liga Portugal, uma posição comum sobre requisitos mínimos, os quais devem incluir:
- Valores esperados de direitos audiovisuais em diferentes cenários de quadros competitivos
- Criação de um fundo de emergência para apoio de clubes em dificuldades financeiras numa eventual transição
- Formatos alternativos para a distribuição e promoção do produto futebol
- Modelos de distribuição com base em mérito desportivo, valor mediático e audiências
- Investimentos mínimos obrigatórios em infraestrutura e tecnologia por parte dos clubes
- Mecanismos de escuta regular aos adeptos e operadores
- Plano de combate à pirataria e modernização da legislação de proteção audiovisual
- Propostas de revisão fiscal
- Revisão do regime de seguros desportivos e proteção social no desporto profissional.
Benfica diz querer ser solidário sim, mas com realismo
O Benfica defende, de resto, que o modelo atual, sem reformas estruturais, «não serve os interesses do futebol português» e que avançar nas condições atuais seria um «salto no escuro». Por isso apela a políticas públicas adequadas, planeamento de longo prazo e um regime fiscal ajustado à função económica e social do futebol.
O clube reafirma o seu compromisso com o desenvolvimento coletivo do futebol português, mas defende que esse esforço não pode ignorar o seu valor de mercado.
«Qualquer tentativa de nivelar por baixo prejudicaria não só o Benfica, mas o futebol português como um todo», pode ler-se.
Nesse sentido, exige a suspensão imediata do processo de centralização e propõe uma nova reflexão estratégica, capaz de assegurar as promessas iniciais: valorização do produto, aumento real das receitas e reforço da competitividade do futebol português.
«Mais do que afirmações ou profissões de fé, precisamos de garantir - com dados, com planeamento e com reformas concretas - que essas promessas são exequíveis. E avançar na centralização quando estiverem asseguradas as condições que a justificam: valorização do produto, crescimento real de receitas, modernização da indústria e reforço da competitividade.»
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