«Nas vitórias ninguém põe nada em causa. Nas derrotas tudo se questiona».o momento de forma do capitão do Benfica, Luisão.

A  má exibição no dérbi de Lisboa ( «Uma das piores de águia ao peito», escreveu o Maisfutebol) veio, na verdade, na linha de outras, esta época, em que foi visível que o brasileiro não atravessa o melhor momento de forma. Seguiu-se um coro de críticas, adensado pelo facto de a equipa de Rui Vitória ter sofrido a quinta derrota em doze jogos oficiais.

Ora, o Maisfutebol quis perceber qual a posição de Luisão neste tema: vítima ou vilão? Para isso, ouvimos dois antigos centrais do Benfica, William (133 jogos em cinco temporadas) e Dito (81 jogos em duas temporadas), sendo que ambos foram unânimes num ponto: o capitão encarnado está a ser vítima das circunstâncias.

«Um grande poder requer uma enorme responsabilidade. É normal, como líder, como capitão e sobretudo pelo que representa para o Benfica, que as pessoas procurem ver no Luisão um responsável pelo mau momento que a equipa atravessa. É como os problemas da sociedade: tem de explodir para algum lado», comenta William, em contacto telefónico com o nosso jornal.

Dito vai mais longe e diz mesmo que o brasileiro está a ser vítima de uma injustiça: «Pelo trajeto dele no Benfica são injustas as críticas que tem vindo a sofrer, apenas porque esteve menos bem em um ou dois jogos. Estão a carregar nele a responsabilidade do mau momento da equipa.»

A verdade é que os números, nomeadamente nos golos sofridos, não espantam ninguém. Tendo em consideração os encontros do campeonato, o Benfica sofreu sete golos em sete jogos, um número igual, por exemplo, ao primeiro título da sequência do bicampeonato.

Golos sofridos pelo Benfica nas primeiras sete jornadas:

2009/10: 4 golos

2010/11: 6 golos

2011/12: 8 golos

2012/13: 6 golos

2013/14: 7 golos

2014/15: 4 golos

2015/16: 7 golos*

*Números à oitava jornada porque o U. Madeira-Benfica foi adiado

Dito dá o exemplo do jogo da Luz frente ao Sporting. O Benfica encaixou três golos, quase metade do total até então. «E o Luisão tem culpa em todos?» questiona o antigo central.

«No primeiro golo é uma perda de bola do André Almeida em zona proibida. Apanha a defesa a adiantar-se, não há tempo para recuperar, tenhas, 20, 25 ou 30 anos. E o terceiro também foi uma perda de bola, se não estou em erro. A recuperação é sempre difícil para qualquer defesa», reitera.

Entremos, então, no tema da idade. Luisão está com 34 anos. O Benfica tem tradição de centrais «trintões». Mozer, Ricardo Gomes, Hélder ou Humberto Coelho foram titulares no clube da Luz já com mais de três décadas de vida nas pernas.

Luisão é mais um. A idade pode ser problema? William acredita que não. Se a equipa ajudar.

«Chega uma idade em que há menos velocidade, reflexos mais lentos. Quando a equipa está bem, isso pode passar despercebido porque a experiência ajuda a ser mais uma peça na engrenagem. Quando a equipa te protege menos, ficas exposto e aí aparecem os defeitos todos. O Luisão está a ser vítima do processo de toda a equipa», considera.

Dito, que tal como William, também jogou até bem tarde na carreira, considera «natural» que os jogadores vão «perdendo algumas qualidades». «Nomeadamente a velocidade», define. «Mas o Luisão nunca foi rápido», acrescenta.

«Acho que, num central, o posicionamento e capacidade de antecipação é dos pontos mais importantes. Lembro-me que, nos primeiros tempos do Luisão em Portugal, essa era a maior dificuldade. Hoje é das maiores virtudes. Perdem-se umas coisas, ganham-se outras», completa Dito.

Luisão em ação frente ao FC Porto esta época

Sendo assim, qual a causa do mau momento de forma? As opiniões, neste ponto, divergem.

William considera que o capitão está «mais exposto» este ano, alicerçado-se no mau momento do Benfica. Dito pensa o inverso, embora também foque o número excessivo de desaires: «Este ano a equipa do Benfica está menos exposta. Joga mais junta do que no sistema do Jesus. O problema são as derrotas e como no futebol as análises são mais emocionais do que racionais é natural que vão por aí. Mas é injusto para ele.»

As derrotas. Pois. O momento do Benfica, de facto, não ajuda quem, a nível pessoal, também não vive a melhor das fases.  Em doze jogos, os encarnados perderam cinco, números que fazem lembrar o arranque do segundo ano de Jorge Jesus, o pior em largos anos.

Derrotas do Benfica nos primeiros 12 jogos oficiais:

2009/10: 2 derrotas (Vorskla Poltava e AEK Atenas, Liga Europa)

2010/11: 6 derrotas (FC Porto, Supertaça; Académica, Nacional e V. Guimarães, Liga; Schalke 04 e Lyon, Liga Campeões)

2011/12: 0 derrotas

2012/13: 2 derrotas (Barcelona e Spartak Moscovo, Liga Campeões)

2013/14: 2 derrotas (Marítimo, Liga; PSG; Liga Campeões)

2014/15: 2 derrotas (Zenit e Bayer Leverkusen, Liga Campeões)

2015/16: 5 derrotas (Sporting, Supertaça; Arouca, FC Porto e Sporting, Liga; Galatasaray, Lica Campeões)

«Nas derrotas tudo se questiona. Nas vitórias ninguém põe nada em causa, ninguém repara em algo que possa estar mal se a equipa ganhar, mesmo que com um golo no último minuto», considera Dito.

William acredita que a mudança abrupta pela saída de um treinador com seis anos de casa está a fazer-se sentir: «A equipa vinha de um processo bastante enraizado e teve de aprender outro. Essa mudança traz custos.»

Luisão acaba, por isso, no entender do compatriota, por ser levado por arrasto. E, ao mesmo tempo, arrastar também consigo a equipa. «O futebol é um desporto coletivo. A ligação entre todas as partes faz o todo. Se uma peça carece de velocidade, por exemplo, pode enterrar todo o processo», resume.

«Não será fácil ao Luisão ultrapassar esta fase porque o Benfica tem uma forma de jogar que não é fácil para os defesas. As equipas grandes jogam contra a teoria: atacam em campo pequeno e defendem em campo grande. Os livros dizem que deve ser ao contrário para se ter sucesso, mas as equipas grandes têm de jogar assim para contrariar os adversários», explica William.

Luisão, um símbolo do Benfica

Dito é mais otimista e acredita que se trata, apenas, de uma «má fase» que irá melhorar quando as vitórias também surgirem com maior facilidade. «Se o Benfica tem ganho este jogo ninguém falava do Luisão», insiste, ainda em relação ao dérbi com o Sporting.

William toca ainda num ponto importante: a experiência de Luisão para lidar com as críticas. No seu entender, isso pode até proteger a equipa. «Pode funcionar como para-raios. O Luisão pode ser o escudo para a equipa e até para o treinador. Deve assumir a responsabilidade de capitão e de líder. Sacrifica-se em prol de todos», defende.

Quer para William quer para Dito há uma certeza, contudo: Luisão continua a ser imprescindível no Benfica.

«Neste momento, não vejo melhor dupla que a atual no plantel. Era muito mau para a equipa uma eventual saída do onze do Luisão», diz Dito.

William termina dizendo que será com Luisão no onze que o Benfica caminhará até águas mais seguras: «Quando o futebol da equipa melhorar, o Luisão melhorará com ela. Vai usar a sua experiência para camuflar os defeitos e dar o seu contributo à equipa como tem feito ao longo de todos estes anos.»

A verdade é que, tanto para Luisão como para o Benfica, há alguma urgência em recuperar os melhores dias. Porventura um levará o outro atrás. Resta saber qual. Porque, já dizia Guardiola, há uma verdade importante no futebol: «As Ligas só se ganham nas últimas oito jornadas, mas perdem-se nas primeiras oito.»