O caso de César Boaventura era um caso extraordinário, um caso de amor: um empresário que decide gastar centenas de milhares de euros para corromper um jogador e favorecer o Benfica. E agora apareceu um segundo [empresário]. Isto ainda mais extraordinário é.
Frederico Varandas falou da acusação que o Ministério Público fez à Benfica SAD e garantiu que, mesmo que o processo não dê em nada judicialmente, a mancha ficará para sempre.
Referiu o presidente do Sporting que as várias teorias vão caindo aos poucos. Incluindo a teoria de que César Boaventura teria feito tudo por iniciativa própria, quando tentou subornar jogadores do Rio Ave. Até porque agora apareceu outro agente FIFA a fazer o mesmo.
Frederico Varandas não disse a que agente FIFA se referia, mas é certo que se enganou. Não apareceu mais um, apareceram dois. Dois agentes FIFA e um diretor desportivo.
Mas vamos por partes.
O despacho do Ministério Público fala de João Pinheiro, empresário que intermediou algumas transferências nos tempos de Bruno de Carvalho, e que terá alegadamente tentado subornar o guarda-redes Cássio para facilitar frente ao Benfica.
Mas fala também de Miguel Pinho, representante de Bruno Fernandes e Nuno Mendes, entre outros, que terá tentado alegadamente subornar Edgar Costa, do Marítimo.
Por fim, refere-se também ao diretor desportivo do Desp. Aves, José Luís Moça, que terá contactado Nuno Pinto para facilitar no jogo que o Benfica venceu por 2-1, no Bonfim, graças a um penálti cometido por Luís Felipe, que ainda tinha metade do passe no clube encarnado.
O Ministério Público acabou por determinar o arquivamento de todos estes casos, por falta de provas conclusivas, num conjunto de vários episódios suspeitos que foram arquivados.
Processo João Pinheiro - Cássio (Rio Ave)
A 4 de maio de 2017, três dias antes do Benfica defrontar o Rio Ave, o guarda-redes Cássio recebeu um contacto do agente FIFA João Carlos Pinheiro Paula (João Pinheiro), que se apresentou como José Carlos e que pediu ao guarda-redes para se encontrarem.
Os dois não se conheciam e, questionado pelo brasileiro se não podia falar por telefone, João Pinheiro respondeu que não e que os telemóveis hoje em dia têm ouvidos.
Foi então que Cássio disse que «se for lá de Lisboa, nem vale a pena», acrescentando que não estava disponível para ouvir nada que tenha a ver com propostas do Benfica.
Nessa altura, João Pinheiro respondeu que sim, uma parte tinha a ver com isso e a outra não. «Eu sei que no ano passado não correu bem, não sei o que foi falado ou não, mas nem me interessa. Não foi comigo, entende?», acrescentou.
O empresário insistiu que a vida é feita de oportunidades e que era preciso agarrá-las quando passavam, que ele era um grande guarda-redes, que não interessava que um dia corresse pior «seja contra quem for», porque continuava a ser um grande guarda-redes.
Cássio manteve-se irredutível e respondeu que estava de boa, que falava com toda a gente, mas sobre isso «não vale mesmo a pena». «Não é por aí, entendeu? Podemos marcar um dia e conversar, mas nessa situação não vale mesmo a pena», adiantou.
Logo a seguir, Cássio ligou a Rui Barbosa, treinador do Rio Ave na época anterior, que lhe tinha pedido para o avisar se houvesse algum contacto suspeito. «Um gajo tentou fazer isso comigo agora», disse-lhe Cássio. «Não é o mesmo da outra vez lá em Paços.»
O Ministério Público refere depois que Cássio se referia a César Boaventura, que na época anterior, de acordo com testemunhos de jogadores como Nélson Monte, teria contactado vários jogadores do Rio Ave a oferecer dinheiro para jogarem mal frente ao Benfica.
Acrescenta que na lista de contactos recebidos no telemóvel de João Pinheiro havia um número do Benfica, pertencente a Orlando Dias, secretário de Luís Filipe Vieira, que o tinha contactado várias vezes ao longo dos últimos seis meses. Garante também que na análise à documentação contabilística se verificou a emissão de uma fatura à Benfica SAD, no valor de 130 mil euros, mais IVA, no dia 7 de junho de 2017, a qual foi liquidada em duas tranches logo a seguir.
Apesar de tudo isto, o Ministério Público considera que a conversa de João Pinheiro com Cássio, por ser feita em meias-palavras, não é conclusiva como prova de aliciamento, pelo que determina o arquivamento dos autos.
Processo Miguel Pinho - Edgar Costa (Marítimo)
O Benfica deslocou-se aos Barreiros a 8 de maio de 2016, em jogo da 33ª jornada da Liga, com dois pontos de avanço sobre o Sporting. Antes disso, nos dias 6 e 7 de maio, o agente FIFA Ruben Pinho telefonou a Edgar Costa a informar que lhe queria transmitir uma proposta e a convidá-lo para se deslocar ao hotel Pestana Casino Park.
No referido hotel, os dois, mais Luís Miguel Pinho, pai de Ruben Pinho, conversaram num quarto do terceiro andar, tendo os dois empresários oferecido 30 mil euros ao jogador para facilitar frente ao Benfica, no dia seguinte. Entre outras coisas, queriam que Edgar Costa pudesse «jogar mal e não rematar à baliza».
Edgar Costa recusou de imediato a oferta.
O Ministério Público alega ainda que o Benfica contratou Aires Sousa ao Nacional por 130 mil euros e pagou 30 mil euros a Ruben Pinho pela intermediação do negócio. No entanto, segundo garantiu o presidente Rui Alves, Ruben Pinho não participou no negócio, nem sequer nunca com ele tinha falado, tendo aparecido no contrato por exigência do Benfica.
Ora a acusação desconfia que este pagamento, efetuado em fevereiro de 2016, terá servido de compensação para o empresário, mas perante a incapacidade de provar o envolvimento do Benfica, e por não terem sido recolhidos indícios suficientes para comprovar o crime, decidiu-se pelo arquivamento do processo.
Processo José Luís Moça - Nuno Pinto (V. Setúbal)
Nem só de agentes FIFA vivem os casos suspeitos não vão ser levados a julgamento. Na certidão do lateral Nuno Pinto, do V. Setúbal, a alegada tentativa de aliciamento é feita por José Luís Moça: um diretor desportivo do Desp. Aves.
Segundo a acusação, José Luís Moça no dia 4 de abril de 2018 – três dias antes do jogo entre Benfica e V. Setúbal - dirigiu-se de Mirandela ao Estádio da Luz, onde entrou pelas 17.16 horas, tendo ficado meia hora.
Nesse mesmo dia, pelas 20.45 horas, encontrou-se com Nuno Pinto na Gare do Oriente, para irem jantar juntos. O então lateral esquerdo do V. Setúbal sugeriu um lugar «recatado».
Depois disso, no dia a seguir ao jogo, houve uma conversa apagada entre Luís Filipe Vieira e José Luís Moça no Telegram, e entre 22 de abril e 4 de maio foram trocadas várias mensagens entre Nuno Pinto e José Luís Moça em que o primeiro pede a entrega das «coisas».
«Mas olha que a informação passada pelo boss, foi que ias entregar hoje, que já tinhas as coisas contigo e ias entregar antes do jogo. Os jogadores estão a contar e as pessoas estão à tua espera», escreveu Nuno Pinto numa delas.
A acusação recorda, de resto, que no dia 23 de abril o V. Setúbal defrontou o FC Porto, mas que as coisas a entregar não podiam referir-se a este jogo, porque o FC Porto ganhou e, portanto, não fazia sentido depois disso continuar a pedir um alegado prémio.
No entanto, e como a intervenção do Benfica neste caso não fica comprovada, existindo apenas pistas e várias conversas secretas ou apagadas, o Ministério Público arquivou o processo.
Processo Paulo Gonçalves - Luís Felipe (V. Setúbal)
No dia 7 de abril de 2018, o Benfica defrontou o V. Setúbal, no Bonfim, com um ponto de avanço sobre o FC Porto. Nesse dia, o brasileiro Luís Felipe começou no banco e entrou aos 89 minutos, para o lugar de Nuno Pinto, que pediu a substituição com queixas.
Aos 91 minutos, Luís Felipe (que nessa época pouco contou para José Couceiro, tendo sido apenas utilizado em dois jogos antes disso, e um dos quais novamente frente ao Benfica) cometeu um penálti, que originou o golo da vitória encarnada por 2-1.
Ora Luís Felipe, segundo contou Válter Vieira (na altura diretor desportivo do V. Setúbal) numa conversa com Nélson Lenho, foi comprado pelo Benfica através de Paulo Gonçalves, a um clube fictício, mas nunca jogou no clube encarnado.
«Os gajos do Porto e do Sporting, se eles souberem que foi comprado ao Benfica, e quem tratou de tudo foi o Paulo Gonçalves, e o Paulo Gonçalves contratou-o a um clube brasileiro que não existe», diz o dirigente sadino, adiantando que «depois juntas tudo isto, Paulo Gonçalves, Benfica, compras fictícias com clubes que não existem, o gajo não tem um minuto para o campeonato...».
Luís Felipe chegou ao Benfica em 2014, mas nunca jogou no clube, sendo posteriormente emprestado a clubes brasileiros, até que em 2016 foi cedido ao V. Setúbal, ficando os dois clubes com 50 por cento do passe.
Depois desse jogo a 7 de abril de 2018, e segundo a acusação, o V. Setúbal deu início às negociações para rescindir com o jogador.
Relativamente ao penálti cometido aos 91 minutos, o Ministério Público nota o jantar entre José Luís Moça e Nuno Pinto poucos dias antes e as mensagens trocadas entre eles a seguir ao jogo, falando de um quadro suspeito, que acabou por mandar arquivar pela inexistência de provas que permitam imputar o crime de corrupção aos intervenientes.
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