De leão ou águia ao peito, Marcelo Cipriano entrelaçou o rumo de Benfica e Tirsense na década de ‘90. Este carioca, de 55 anos – nascido para o futebol em Aveiro, pelo Beira-Mar – embalou os jesuítas para o regresso à Liga e brilhou no histórico 8.º lugar conquistado em 1994/95.

No verão de '95, aventurou-se por marés «grotescas» na Luz, a fim de concretizar um sonho. Para contrariar a instabilidade no Benfica, brilhou na Taça de Portugal e resolveu várias eliminatórias, alumiando o percurso até ao Jamor.

A morar em Coimbra desde 2002, Marcelo recebeu o Maisfutebol em casa, que serve de museu e epicentro à atividade como agente FIFA. Apto a recordar inúmeras peripécias, aponta ao Tirsense-Benfica desta quarta-feira, além de revelar a caderneta de cromos preenchida no percurso de 20 anos, entre Portugal, Espanha e Inglaterra.

Em simultâneo, não se descarta do debate sobre o momento do Benfica e de um artilheiro grego que aprecia.

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Maisfutebol: O que sentiu ao perceber que o Tirsense vai reencontrar o Benfica?

Marcelo: Foram dois clubes que me marcaram. O Tirsense foi o clube que me lançou, em 1993/94 e 1994/95. Cheguei a Santo Tirso depois de uma época regular no Gil Vicente e optei por reforçar o projeto na II Liga. Foi uma época excelente. No regresso à Liga, mantivemos a estrutura do plantel – humilde, sem vedetas e de grandes homens. Parte do segredo esteve aí. Fomos bem orientados pelo Eurico Gomes. Ao juntar três talentos como o guarda-redes Goran Cumic, o médio Gioavanella e o avançado Hugo Porfírio [formado no Sporting, jogou também no Benfica], foi mais fácil fazer uma boa época.

MF: (…)

MA: Em 1994/95, liderei a lista de melhores marcadores da Liga durante várias semanas, mas acabei atrás do Domingos Paciência e do Hassan Nader (Farense). Nessa época, houve a possibilidade de vestir as cores de Portugal, mas não era habitual nacionalizar os jogadores. Guardo grandes memórias das épocas por Tirsense e Benfica.

MF: Vem do Rio de Janeiro com 12 anos. Os seus pais nasceram em Portugal?

MA: O meu pai é natural da Guarda, a minha mãe nasceu em Cabeceiras de Basto. Optaram por morar em Aveiro. Estávamos também habituados à praia. Em termos de distância dos meus avós, Aveiro serviu de ponto intermédio.

MF: Foi o único da família a jogar futebol?

MA: O meu pai jogou hóquei em patins na Portuguesa, no Rio. A modalidade era amadora. O meu irmão jogou futebol, mas na distrital de Aveiro. E as minhas irmãs fizeram formação de basquetebol, pelo Esgueira.

MF: Quanto à eliminatória entre Benfica e Tirsense, vai a Barcelos e à Luz?

MA: Faço conta disso. O estádio em Barcelos vai estar bem composto, acredito. O Tirsense continua a mobilizar adeptos fervorosos e milhares de apaixonados. Presenciar este jogo vai ser marcante e a oportunidade de rever amigos e antigos colegas.

MF: Jogou em Espanha e Inglaterra, países com tradição nas respetivas taças, onde não é usual as equipas recorrerem a estádios alternativos. Preferia que o Tirsense recebesse o Benfica em Santo Tirso?

MA: Em termos financeiros, o Tirsense certamente prefere jogar num estádio maior. Quando falamos de Inglaterra, os clubes da 6.ª divisão têm relvados impecáveis. Não é o caso do Tirsense.

MF: Recuando a 1983, iniciou a formação no Beira-Mar.

MA: Estive no Beira-Mar até 1987, quando decidi vir para Coimbra, para estudar engenharia civil na universidade. Na altura só podia estudar no Porto, Lisboa ou Coimbra, e tinha notas para escolher. Fui um bom aluno. Recebi convites para integrar os juniores de Boavista, Benfica e Académica. Não escolhi o Benfica porque não conseguiria conciliar os estudos com o futebol. O mais certo seria não estudar, nem chegar aos seniores. Ainda fui à experiência ao Boavista, mas treinavam de manhã, pelo que seria difícil conciliar com o percurso académico.

MF: Coimbra é a cidade dos estudantes, mas também dos boémios. Foi um desafio?

MA: Nunca liguei muito à vida noturna. Concentrei-me nos objetivos, restava pouco tempo para ser boémio. Claro que participei em convívios e na Queima das Fitas, mas com moderação, porque sabia que influenciaria o meu rendimento.

Marcelo, à direita, pelo Benfica, no reencontro com a Briosa.

MF: Em 1991 reforçou o Feirense e partilhou balneário com o jovem Pedro Martins, atualmente treinador do Al Gharafa (Qatar). Quem era este médio?

MA: Tinha muita qualidade e era agressivo. Era um jovem inteligente. O percurso do Pedro é fruto dessa inteligência e competência. Ainda mantemos contacto. Ele está bem e tem uma vida fantástica no Qatar. Mas, tem qualidade para regressar a Portugal e orientar uma equipa de topo, ou integrar um dos principais campeonatos europeus. Está preparado para dar esse passo. Já vingou em contexto difíceis, como na Grécia, pelo Olympiakos.

MF: No Gil Vicente, em 1992/93, conheceu o mestre Vítor Oliveira.

MA: Trabalhei com o Vítor Oliveira também no final da minha carreira, na Académica, em 2003/04. Na altura treinava na equipa B, por uma atitude menos correta do presidente. Mas, fui resgatado pelo Vítor Oliveira e ajudei a evitar a despromoção à II Liga. Muito antes disso, no Gil Vicente, era um jovem a viver a estreia na Liga. Tinha a concorrência do Drulovic e era complicado convencer o mister. Joguei a titular sobretudo em Barcelos, com o «Drulo» descaído na ala.

MF: Drulovic, que vivia a estreia em Portugal.

MA: Ele veio à experiência para o Gil Vicente. Chega a Portugal num contexto difícil, pela guerra na Jugoslávia. Mas, bastou um treino para provar a sua qualidade. Ainda que a comunicação fosse complicada, sempre foi simpático. De tal forma que o plantel se uniu em torno dele. Felizmente, conseguiu uma excelente carreira, sobretudo pelo FC Porto.

MF: No Gil Vicente também conheceu o Fernando Brassard.

MA: O Brassard era o meu grande amigo em Barcelos, porque éramos dois jovens solteiros. Estávamos sempre juntos. E ele tinha estatuto, porque foi bicampeão mundial pela Seleção de sub-20 e era formado pelo Benfica. Anos mais tarde, reencontrei-o no Benfica. Em fevereiro, estive com o Brassard a propósito da homenagem a Michel Preud Homme. Deu para matar as saudades.

MF: Já agora, que Michel Preud Homme encontrou?

MA: Está a desfrutar a vida, já não está ligado ao futebol e vive em Espanha. Adora jogar golfe e está a aproveitar. Conquistou esse direito.

MF: No verão de 1993 deixou Barcelos e rumou a Santo Tirso, descendo à II Liga.

MA: O [treinador] Eurico Gomes disse-me que estava a dar um passo atrás para dar muitos mais à frente. Foi uma figura importante na minha carreira, talvez o treinador mais marcante. Foi pouco mediático, faz parte do futebol e das escolhas de carreira.

MF: Regressam à Liga e conseguem o 8.º lugar. Foram a surpresa.

MA: As pessoas não me conheciam e aparece um luso-brasileiro a marcar, a desgastar as defesas. Foi um choque muito positivo. Mas, devo agradecer ao grupo, que me proporcionou os registos – 19 golos em 35 jogos. Fiz uma dupla fantástica com o Manuel Caetano, que era muito rápido e móvel, tanto podia jogar a falso nove como na ala. Pressionávamos o quarteto defensivo, éramos a primeira linha da defesa.

MF: Em Santo Tirso conheceu o defesa central Paredão, que o acompanhou na viagem para o Benfica.

MA: Essa alcunha do Emerson veio do Brasil, da Internacional, pela sua agressividade. Vivemos juntos em Santo Tirso e construímos uma amizade que perdura. Em 1995 demos o salto para o Benfica pela mão do falecido Manuel Barbosa, à data o melhor agente FIFA em Portugal. Era permitido os agentes comprarem os passes, podendo colocar os jogadores. Os nossos passes foram vendidos ao Benfica. Por coincidência, anos mais tarde, coincidi com o Paredão em Sheffield, mas joguei pelo Sheffield United [na II Liga] e ele pelo Sheffield Wednesday [na Premier League].

MF: Ao ser o terceiro melhor artilheiro da Liga, também recebeu contactos de FC Porto e Sporting?

MA: Houve interesse de Pinto da Costa e de Sousa Cintra. Em todo o caso, teriam sempre de negociar o passe com o meu agente. Nesse ano, o Manuel Barbosa agenciava metade do plantel do Benfica e o treinador, Artur Jorge. No final de 1995/96 houve a rutura com essa prática, o que me prejudicou, porque estava já ambientado. A segunda temporada seria mais fácil.

MF: Qual o primeiro impacto de jogar no Estádio da Luz pelo Benfica?

MA: Foi especial, até porque o estádio recebia mais adeptos. Na meia-final da Taça frente à União de Leiria (2-0), quando marco os dois golos no prolongamento (113 e 119 minutos), estavam mais de 70 mil pessoas na Luz. Sentir aquele ambiente vibrante e o terceiro anel a gritar o meu nome…É algo que fica para sempre. É emocionante. Foi o momento alto daquela época, a redenção depois de uma fase complicada.

MF: Foi no Benfica que trabalhou pela primeira vez com Artur Jorge, mas o treinador saiu na terceira jornada.

MA: O percurso começou com instabilidade, depois de uma mudança radical no plantel, com muitos jogadores novos. Era necessário paciência, o que nunca existiu. Por isso, à terceira jornada, o Artur Jorge saiu. Para dificultar, o FC Porto era equipa muito forte, orientada por Bobby Robson. Para mim foi um turbilhão, porque estava habituado a outro contexto de exigência. O início foi penoso. Sendo ponta de lança e não marcando golos, os adeptos cobram. Felizmente, dei a volta e fui importante, sobretudo para a conquista da Taça de Portugal. Marquei em quase todos os jogos.

MF: Nessa campanha, não marca na visita ao Tirsense (0-2), mas empata aos 106m contra o Farense (1-1), ajudando ao triunfo sobre os algarvios na Luz (3-0). Depois, marca ao Vit. Guimarães aos 113m (1-0), bisa contra a U. Leiria (2-0) e disputa um minuto da final vencida ao Sporting (3-1).

MA: No campeonato fomos segundos, a 11 pontos do FC Porto. Na Taça UEFA fomos eliminados pelo poderoso Bayern Munique, que viria a conquistar a prova.

MF: E ao leme esteve Mário Wilson, a princípio adjunto de Artur Jorge.

MA: Os adjuntos do Artur Jorge assumiram a época. O Mário Wilson gerou um balneário coeso. Estávamos tensos, as dinâmicas não encaixavam, havia desconfiança. Quando assumiu a equipa, o Mário Wilson ajudou o grupo a descontrair, até nos treinos. Pela qualidade do plantel, fomos ganhando confiança e conseguimos bons resultados. Em condições normais, o Benfica teria condições para disputar o título, até porque contratou dois avançados em destaque na temporada anterior – eu e o Hassan Nader. Havia também o João Vieira Pinto, Valdo, Calado, Ricardo Gomes, Paulo Bento, Hélder Cristóvão e Michel Preud Homme. O problema estava na instabilidade do projeto.

MF: Na época em curso, o Benfica despediu Roger Schmidt à quarta jornada. E o clube está próximo de novo ato eleitoral. É possível comparar esta fase àquela vivida em 1995?

MA: Não! Completamente diferente. A instabilidade era grotesca. Havia um grupo a forçar a entrada na direção, que, por sua vez, não defendia os jogadores. Neste momento, o Benfica é estável e competente. A exigência permanece igual, mas o contexto é diferente, sobretudo pelo profissionalismo da estrutura.

MF: Acredita que o Benfica vai ser campeão?

MA: O Benfica-Sporting é uma final. As equipas não vão perder muitos pontos até lá, a diferença pontual vai ser mínima aquando do dérbi.

MF: Revê-se em algum jogador do atual plantel do Benfica?

MA: Gosto muito do Pavlidis, é goleador e trabalha muito para a equipa. Desgasta os defesas e ajuda no processo defensivo, equiparo-me a ele. Claro que o Pavlidis, em termos técnicos, é muito mais evoluído. O jogador tem mérito, mas Bruno Lage acreditou nele.

[Prossiga para a segunda parte desta conversa]