De Milheirós de Poiares para a China! O Maisfutebol esteve à conversa com Bruno Xadas, médio português que se aventura pelo futebol chinês, ao serviço do Tianjin Jinmen Tiger.
Depois de vingar no Sp. Braga, chumbou nos exames médicos do Monaco, devido a uma lesão no pé, e acabou por ver fugir o sonho de disputar a Liga dos Campeões. No seguimento, perdeu espaço no plantel minhoto e foi obrigado a procurar novos lugares para continuar.
Nesta entrevista ao Maisfutebol falou sobre a saída do Sp. Braga, o empréstimo ao estrangeiro, os anos na Madeira e a mudança para a China.
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Maisfutebol - Sem lugar no Sp. Braga, acabou por sair por empréstimo: primeiro Marítimo e depois Mouscron, da Bélgica. Como foi a primeira experiência no estrangeiro?
Bruno Xadas - No Marítimo foi bom. Meio ano em que apanho um treinador que é o José Gomes. Gostei muito de trabalhar com ele, uma pessoa espetacular e um treinador fantástico. Fui emprestado com a ideia de procurar minutos e ritmo de jogo. Felizmente correu bem e acabámos numa posição tranquila da tabela.
E na Bélgica?
Sou emprestado ao Mouscron. Perdi o meu espaço no Sp. Braga, porque perdi o meu timing de crescimento. Apareceram outros jogadores. Faz parte, é o ciclo do do futebol. Vou emprestado para a Bélgica com o intuito de procurar fazer 30 e muitos jogos, ter mais minutos e sentir-me outra vez valorizado. Também correu bem, apesar de coletivamente não ter corrido como desejávamos. Foi uma aprendizagem, uma realidade, um futebol e um país completamente diferente. Foi uma experiência.
Quais as principais diferenças entre o campeonato português e o belga?
Para jogadores que queiram ir para campeonatos muito ofensivos, a Bélgica é um bom destino. O português já é muito mais evoluído fisicamente e taticamente. O belga também é físico, mas é mais a nível de transição. Lá, o importante é haver golos, seja 5-3, 4-3, 5-2. É muito ofensivo, procuram sempre o golo. O primeiro contra o último classificado não é como em Portugal, uma batalha tática. Lá, é um jogo aberto, jogo por jogo e quem for melhor vai ganhar. O que interessa é o espetáculo do futebol.
Mas isso não é melhor para os adeptos?
Claro que sim, mas em Portugal ainda não aderimos a este tipo de jogo. Quando o primeiro classificado vai jogar com o último, já sabemos que o último vai estar sempre a defender. Na Bélgica, no último contra o primeiro, era para haver sempre três, quatro, cinco golos. O que interessava era haver golos e a parte tática era posta de lado.
Depois do empréstimo ao Mouscron, terminou a ligação com o Sp. Braga e reforçou o Marítimo. Na Madeira agarrou a titularidade na Liga, mas acabou por descer de divisão em 2022/23. Por que razão decidiu continuar no clube?
Não forcei a minha saída porque sentia que tinha uma dívida para com o clube. O Marítimo já não descia à II Liga há muitos anos. Foi uma época completamente atípica, começámos com um treinador e tivemos mais três treinadores diferentes. Acabou com aquele desaire do Marítimo descer à II Liga. E, apesar de ter propostas para fora, não forcei a minha saída. Decidi ficar e tentar levantar novamente o Marítimo, mas infelizmente não foi possível.
Na temporada passada, 2023/24, ainda tiveram a oportunidade de disputar os play-offs de subida à Liga, mas acabaram por empatar na última jornada e deixaram essa vaga para o AVS. O que se sente num momento destes? O árbitro apita e com ele cai o sonho de voltar à Liga...
É um sentimento de muita impotência, porque estivemos o ano todo a lutar pelo play-off e pelo segundo lugar. Chegar ao fim e saber que faltou só um bocadinho, também por culpa nossa... porque bastava termos ganhado em Viseu e íamos ao playoff. Podíamos ambicionar nesses dois jogos subir à Liga. Aí ficava tudo bem. Falhámos em jogos determinantes, os jogadores e a equipa técnica, e fica um sentimento de tristeza e impotência por não termos levado novamente o clube à Liga.
Quero ficar o máximo de tempo neste tipo de mercado asiático, na China ou noutros países. Na vertente financeira não há igual... em Portugal ninguém chega perto dos valores da China. Tenho de olhar para a minha vida extra-futebol
Terminada a ligação ao Marítimo, surge um novo clube, o Tianjin Jinmen Tiger. Como surgiu a oportunidade de ir para a China?
Surgiu mesmo depois do campeonato em Portugal terminar. Passado uma semana eles já me estavam a abordar. Queriam fechar tudo, porque os chineses são assim, procuram fechar e acordar logo tudo. Surgiu esta oportunidade, é uma realidade diferente, uma outra experiência no estrangeiro, muito agradável, mas também muito importante do ponto de vista financeiro, que é irrecusável num país destes.
Qual a diferença entre o investimento futebolístico na China e na Arábia Saudita?
Parece que na Arábia Saudita o dinheiro não acaba e aqui acabou (risos). O futebol chinês tem muito para progredir, mesmo os jogadores chineses têm talento. São pessoas muito respeitadoras, muito disciplinadas, muito trabalhadoras. Financeiramente a Arábia está muito mais forte do que a China. Nem tem comparação. Mas acho que o futebol chinês pode voltar a ser o que foi há uns anos. Não digo que consigam chegar aos valores que pagavam, mas crescer ainda mais. As qualidades e as condições que os clubes apresentam são boas. Dão tudo e tratam bem os jogadores, com máxima excelência.
Como está a correr esta nova aventura? Quais são as grandes diferenças do futebol chinês para o português? Culturalmente como tem sido a experiência?
A língua é muito difícil. Alguns chineses falam inglês, mas não muito, só o básico dos básicos. Tenho dois ou três colegas que falam um bocadinho de espanhol. No staff da equipa técnica também há dois ou três que falam espanhol. Os tradutores falam inglês, espanhol e português. Mas são pessoas muito respeitadoras e acolhedoras. Ajudam em tudo, procuram que te sintas bem integrado. Fui muito bem recebido e gosto muito de estar cá. O clube dá- nos todas as condições, tanto de trabalho, treino, estágios e viagens. Estou a gostar muito e o campeonato também vai acabar daqui a três semanas.
Qual o próximo passo na carreira?
Tenho mais um ano de contrato. A minha ideia é ficar o máximo de tempo neste tipo de mercado asiático, na China ou noutros países. Na vertente financeira não é igual… em Portugal ninguém chega perto dos valores da China. Tenho de olhar para a minha vida extra-futebol.
Aos 26 anos, quais são os sonhos que alimenta?
O meu sonho, e sei que é difícil, é jogar a Liga dos Campeões. Com esta minha tomada de decisão tornou-se ainda mais difícil, mas é o que persigo todos os dias. Está um bocadinho mais difícil de jogar a Liga dos Campeões Europeia, pode ser que jogue a Liga dos Campeões Asiática.
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