CAMINHOS DE PORTUGAL é uma rubrica do Maisfutebol que visita passado e presente dos clubes dos escalões não profissionais. Tantas vezes na sombra, este futebol em estado puro merecerá a nossa atenção.

Tirem-nos a casa, mas não nos tirem o futebol. Nunca mais.

Este bem podia ser o lema do Futebol Clube de Gaia, a associação desportiva mais antiga do concelho de Vila Nova de Gaia. Embora já tenha superado a marca dos cem anos, é natural que o nome do clube tenha caído no esquecimento dos amantes de futebol.

A fundação do FC Gaia, que teve como primeira sede um cubículo de uma padaria, foi impulsionada pelo futebol em 1908. No entanto, o clube foi forçado a abdicar do futebol e recuperou-o volvidos quase sessenta anos. Resgatou, portanto, a sua essência.

«O FC Gaia deixou de ter futebol em meados da década de 50, mais ao menos, por volta de 1955. O clube ficou sem Campo de Jogos (João de Deus) e, então, a modalidade acabou. O Campo de Jogos era alugado e o senhorio fez um ultimato: ou o clube comprava o campo ou tinha de sair. O Campo de Jogos acabou por dar lugar a um empreendimento imobiliário», contou Aurélio Morais, ao Maisfutebol, presidente há mais de vinte anos.

Sem casa, o futebol ficou sem espaço. Mantiveram-se as restantes modalidades – andebol, basquetebol, e ginástica – graças a uma ação altruísta da Câmara Municipal de Gaia como relatou o presidente do clube.

«O clube ficou com 3000m2, um espaço que foi dado pela Câmara Municipal de Gaia e onde foi construído o actual Pavilhão. Dessa forma, foi permitido ao clube manter as restantes modalidades», referiu Aurélio Morais.

 

O emblema do FC Gaia (Foto: FC Gaia)

Após quase sessenta anos, apenas com as modalidades já referidas, o futebol regressou ao FC Gaia. Porquê? Tudo por causa do fecho de uma escola municipal e dos pais dos alunos dessa mesma escola.

«O futebol recomeçou em 2011 pela vontade de alguns pais. Na ocasião, uma escola municipal de Gaia fechou portas e, alguns dos pais desses miúdos, pediram ao clube para reativar o futebol. O clube não tinha campo, mas aceitou. Começámos por usar o sintético do Colégio de Gaia. Atualmente utilizamos o Estádio Municipal da Lavandeira e estamos a crescer», frisou o dirigente.

«O FC Gaia nasceu por causa do futebol, viveu com ele durante cinquenta anos, esteve quase sessenta sem ele. Agora cá estamos nós e queremos crescer.»

A ideia estava desenhada, faltava quem a coordenasse. Esse papel foi atribuído a Henrique Pereira, estudante do mestrado em Engenharia e Gestão Industrial na FEUP, na Universidade do Porto. O técnico é apaixonado por futebol – com 18 anos inscreveu-se no curso de treinadores da A. F. Porto – e agarrou o convite que lhe foi feito.

«O convite surgiu em primeiro lugar para treinar e foi feito pelo nosso vice-presidente. Envolvi-me rapidamente e propus à Direção do clube a coordenação-técnica do Departamento de Futebol no final da primeira época. Não havia nada que se assemelhasse nessa altura - o corpo técnico era composto por mim e pelo professor Ricardo Cunha que continua a liderar os nossos grupos de treino em idades mais baixas», especificou.

A partir desse momento, estavam criadas condições para um crescimento sustentável. Os números assim o dizem: há quatro anos, o clube tinha apenas uma equipa de competição, agora conta com seis (140 atletas). Tudo sobre o olhar atento de Henrique Pereira, o treinador que se cruzou com o clube ainda na infância, altura em que «assistia a alguns jogos de basquetebol e saraus de ginástica».

«Por princípio não ambicionamos enquadrar jogadores com um nível de desempenho superior ao dos nossos. Os principais recrutadores são os próprios atletas. ‘Quero jogar na equipa dele’, dizem. Aqueles que sentem que podem competir com estas referências acabam por nos procurar. No fundo, os jovens enquadram-se naturalmente e procuram um espaço que seja desafiante para eles», esclareceu quando convidado a explicar de que forma o clube chegava aos atletas.

«Queremos enquadrar o maior número de jovens jogadores o mais cedo possível no nosso processo, ou seja, em idades mais baixas. Temos, por exemplo, um protocolo com um projeto de iniciação ao futebol que direciona para o clube os seus finalistas. Este tipo de iniciativas fazem parte da organização do nosso departamento de recrutamento», acrescentou.

 

A ressurreição gradual do FC Gaia foi sobretudo feita com treinadores que já passaram pelos quadros do FC Porto.

«Temos um passado em comum. Desde esses tempos, mantiveram-se as conversas. Hoje em dia, temos um grupo que se junta semanalmente; a maioria dos treinadores deste grupo já trabalha no nosso clube. Aqueles que não estão, conhecem o projeto, acompanham o seu crescimento com entusiasmo», justificou Henrique, frisando que o clube «estará também atento a outros jovens treinadores que se identifiquem com o projeto».

Entre as exceções de técnicos do FC Gaia que não passaram pelo emblema portista, surgiuJoão Guimarães. Conheceu a formação gaiense de forma fortuita e, após um período de estágio, tornou-se parte integrante do projeto.

«Fiquei a conhecer o FC Gaia há quatro anos, através dos colegas de escola do meu irmão mais novo. Eles jogavam todos no FC Gaia e queria que o meu irmão também começasse a jogar, de preferência junto dos colegas de escola. Levei-o ao clube e ele ainda hoje por lá continua», recorda, o jovem treinador de 23 anos.

Mas, afinal, qual o propósito de um clube formar jogadores se não tem uma equipa sénior? Eis a explicação do coordenador do FC Gaia.

«O nosso processo de formação está orientado para o desenvolvimento de jogadores de elite, desenvolvendo competências nos nossos jogadores que potenciem as suas possibilidades de contribuírem para as suas equipas ganharem cada vez mais e perderem cada vez menos, mas sempre e só como resultado do seu desenvolvimento. O resultado é apenas uma forma de aferirmos continuamente se os nossos jogadores estão ou não mais capazes de jogarem de acordo com a lógica do jogo. É nossa intenção criar uma cultura própria, uma cultura de futebol no FC Gaia que, aliás, foi sendo criada nas restantes modalidades. Uma equipa sénior? Se ajudar ao desenvolvimento de jovens jogadores porque não?», disse.

O presidente Aurélio Morais corroborou a versão apresentada por Henrique Pereira e lamentou que a ideia de recuperar o futebol não tenha surgido antes.

«Foi pena não ter começado antes, mas tudo na vida tem o seu tempo. Não vale a pena pensar se foi tarde ou cedo, acho que foi o ideal. Em relação à equipa sénior, vamos esperar e deixar que os garotos cresçam. Vamos devagarinho», concluiu.

Que pontos comuns têm o encerramento de uma escola, um engenheiro apaixonado por futebol e um clube sobrevivente? Futebol, puro.

Fotos cedidas por: João Guimarães