A Figura: Andreas Schjelderup
Perante um Real Madrid todo-poderoso, o maior gigante da Champions, um exército de pequenas formiguinhas foi decisivo para conseguir a incrível vitória. Prestianni começou por destacar-se, mas a grande figura foi mesmo o Schjelderup, um franzino que contribuiu para amarrar um titã adormecido, tal como no famoso conto de Jonathan Swift ‘As Viagens de Gulliver’.
Muitas vezes acusado de ser inconstante, o extremo parece ter um condão para os jogos grandes. No ano passado marcou ao Barcelona e foi decisivo na Taça da Liga. Nesta temporada, praticamente ainda não tinha aparecido. Nem no jogo, até aos 36 minutos. Numa transição rápida, surgiu ao segundo poste para cabecear como manda a lei, de cima para baixo, entre as pernas do gigante Courtois. Celebrou efusivamente. Um pouco à sua imagem, falhou de pé esquerdo outra grande oportunidade logo a seguir. Mas ainda viria a ser feliz novamente, num momento capital do jogo, com o 3-1. Recebeu de Pavlidis com espaço, encarou Asencio e rematou pelo buraco da agulha, no único sítio onde era possível marcar – entre as pernas do defesa e no ângulo inferior direito. O gigante Courtois ficou pequeno para aquele remate certeiro.
O Momento: golo inesquecível de Anatoliy Trubin, 90+8m
O que dizer do minuto 90+8m? É um dos melhores momentos da história recente do futebol português. Trubin, talvez mal informado, perdia tempo aos 90+7m. Os adeptos e colegas diziam-lhe para lançar a bola na frente. O Benfica ganha um livre e o guardião subiu à área – por que não? Por ironia do destino, se falávamos da importância dos liliputianos, foi um bom gigante (Gulliver, se o caro leitor quiser) que ditou a passagem do Benfica à próxima fase. Do alto dos seus dois metros cabeceou para dentro da baliza e marcou o seu primeiro golo na carreira, soltando uma festa eufórica na Luz. O Benfica estava dentro da próxima fase, na última jornada, no último segundo. Um momento inesquecível.
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— sport tv (@sporttvportugal) January 28, 2026
Outros Destaques:
Gianluca Prestianni: outro pequeno liliputiano fundamental. Não marcou, mas merecia ter saído de campo com um golo. Começou por destacar-se nos passes em rutura, com especial relevo para o passe que resultou no 1-0, o golo de cabeça de Schjelderup. Mas talvez o seu melhor momento tenha acontecido aos 20 minutos. Que remate em arco, cheio de certeza, para o ângulo mais distante. O longilíneo Courtois disse presente e desviou para a barra. Ficou inconsolável.
Vangelis Pavlidis: em certos momentos, parecia a acusar a pressão. A bola fugia do pé (como naquela chance aos 14 minutos, na cara do guarda-redes) e tomava decisões precipitadas. Ao longo da primeira parte, foi melhorando. No lance o 1-1, contemporizou bem para cruzar ao segundo poste, de forma exímia, para a cabeça de Schjelderup. A fechar a primeira parte, teve a chance de se redimir do falhanço (e consequente chacota) da escorregadela de Turim. Na cara de Courtois, atirou para o meio da baliza quando o titã já tinha tombado. Ainda veio a assistir o 3-1, numa exibição que oscilou do melhor ao pior.
Amar Dedic: aproveitava a liberdade que lhe era dada por Vinicius Júnior e Jude Bellingham, não tão acutilantes defensivamente. Como habitual, desequilibrava muito mais do que Samuel Dahl, no corredor contrário, atuando como um extremo. Passava em rutura, surgia na grande área, mas faltava melhor definição na hora H. Na defesa, vai ficar marcado pela falta de acompanhamento a Mbappé no golo do francês.
Tomás Araújo: belo corte aos 19 minutos, a impedir um golo memorável a Jude Bellingham. Manteve os apoios, intercetou o remate na altura certa e adiou as decisões. Tal como habitual, esteve bem na antecipação e a sua velocidade foi importante contra uma equipa muito física. Jogo muito maduro.
Leandro Barreiro: muito atento nas interceções, protegeu bem as costas da linha média com bastante concentração e sagacidade. Não foi brilhante (quase nunca o é) mas foi bastante útil nos equilíbrios no miolo. Há que recordar, porém, que falhou duas vezes na cara do golo de forma incrível.
Thibaut Courtois: dá a ideia de que, aos 20 minutos, só um guarda-redes no Mundo podia defender o remate irrepreensível de Gianluca Prestianni - Thibaut Courtois. Mesmo com a bola a desferir um arco convergente ao poste mais distante, como manda a regra, o belga chegou e desviou a bola para a barra. Teve outras intervenções importantes, mas dá a impressão que nada podia fazer nos golos, ficando desprotegido pela defesa.
Kylian Mbappé: na primeira vez em que aparece verdadeiramente em jogo, aos 30 minutos, marcou. Podíamos dizer até – marcava mais um, porque somava 12 golos em sete jogos, num registo que faz lembrar a era blanca de Cristiano Ronaldo. E teve a eficácia do seu ídolo. No final da primeira parte ficou tocado, mas viria novamente a ser clínico. Num momento de desconcentração encarnada, o francês rematou de primeira para o fundo das redes e relançou a partida no 3-2. 13 golos na competição.
Arda Guler: o fantasista do meio-campo ofensivo do Real Madrid destacou-se sobretudo na assistência primorosa para o 3-2, tirando dois adversários da frente com uma simulação e entregando no pé direito de Mbappé. Tem um recorte técnico diferenciado.