O sonho de uns pode ser o pesadelo de outros. A campanha épica do Bodo/Glimt na Liga dos Campeões continua de pé e fez do Sporting a sua nova vítima. Depois de Manchester City ou Inter de Milão, os 'selvagens' noruegueses voltam a vencer em casa, desta vez por 3-0. Se antes do jogo poderia haver alguma sobranceria em relação aos noruegueses, toda ela dissipou-se nesta quarta-feira.

Com apenas 4ºC de temperatura no Aspmyra Stadium, no Círculo Polar Ártico, o Sporting pareceu ter ficado, tal como o bacalhau, ultracongelado perante um Bodo/Glimt de processos simples, mas imparável. Dois golos na primeira parte e um na segunda (um resultado justíssimo, diga-se de passagem) dificultam a tarefa dos portugueses na segunda mão, em Lisboa. Mas continua a haver esperança.

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Sporting caiu no engodo do Bodo/Glimt na primeira parte

Os primeiros minutos fizeram antever as dificuldades sentidas pelo Sporting na Noruega. As mesmas dificuldades que outras grandes equipas europeias já tinham sentido. O 4-3-3 oleado de Kjetil Knutsen impunha-se frente a um Sporting algo desconcertado.

Com bola, o médio-defensivo Patrick Berg, o maestro desta equipa, recebia quase sempre sem pressão, nas costas de Luis Suárez e Francisco Trincão. A partir daí, desenhava as jogadas de perigo, que desembocavam normalmente nos corredores laterais, preferencialmente o direito.

Sem bola, os noruegueses recuavam rapidamente e protegiam a sua grande área como vikingues. A fórmula, aparentemente simples, entorpecia o Sporting de Rui Borges. As figuras do Bodo/Glimt começavam a aparecer – Hauge (ex-Milan) rematou um palmo ao lado do poste e Hakov Evjen obrigou Rui Silva a uma defesa atenta.

A proximidade dos noruegueses à área sportinguista tornou-se tão habitual, que o primeiro golo chegou. Vagiannidis exagerou num empurrão a um adversário e o árbitro apontou para a marca de penálti. O grego ficou frustrado, mas o VAR confirmou a decisão. Na conversão, Fet foi calmíssimo. 1-0.

Já nos descontos da primeira parte, o Bodo/Glimt aproveitou de novo essa proximidade da baliza, um corte infeliz de João Simões acabou por desmarcar Ole Blomberg na cara de Rui Silva. Fora de marcação, escolheu o lado e marcou o 2-0. O resultado era justo ao intervalo.

Borges ainda mexeu, mas Hogh complicou a segunda mão

A segunda parte trouxe mais equilíbrio e calculismo de parte a parte. As transições norueguesas voltaram a causar calafrios mas, curiosamente, também o Sporting começou a gerar perigo através dessa via. Ambas as equipas cruzavam com perigo, mas faltava a emenda na área.

O caráter do jogo mudou ligeiramente com as alterações promovidas por Rui Borges, à passagem da hora de jogo. Nuno Santos, Faye e Morita vieram dar novas dinâmicas à equipa, com o Sporting a recuperar mais alto e a atacar melhor pelos corredores. Mas o icebergue lá atrás... mantinha-se inamovível.

Numa das já raras saídas para o ataque, o Bodo/Glimt fez o 3-0 numa jogada em que a linha defensiva do Sporting não ficou bem na fotografia. O cruzamento rasteiro entrou na pequena área e, desta vez, houve desvio do avançado dinamarquês Kasper Hogh.

O Sporting já contava, com certeza, com um jogo difícil na Noruega. Mas não com este resultado. Rui Borges afirmou que este Bodo/Glimt não é «surpreendente» para si, na antevisão. Agora, na segunda mão em Alvalade, terá de ser ele a ludibriar esta equipa sensação.

A Figura: Patrick Berg 

Não marcou nem assistiu nenhum dos golos. Mas foi através dele que o Bodo/Glimt impôs a superioridade posicional que permitiu esta vitória folgada. Atuando como pivô mais recuado do meio-campo, o capitão dos noruegueses liderava com calma as operações, descobria os espaços no meio-campo e lançava contra-ataques venenosos.

O Momento: golo de Kasper Hogh, 71m

Se o Sporting mantinha esperanças modestas de dar a volta na segunda mão com uma derrota por 2-0, o terceiro golo do Bodo/Glimt veio adensar as preocupações leoninas. Hogh encostou na pequena área e os adeptos locais celebraram com a felicidade de uma vitória folgada.

Negativo: abordagem inicial do Sporting

O Sporting defendia em 4-4-2, com Suárez e Trincão na linha de pressão, mas o Bodo/Glimt contornava com facilidade o xadrez leonino. Berg surgia nas costas e criava o caos a partir daí. A avalanche foi tal, que à meia-hora Rui Silva caiu ao chão para que Rui Borges falasse com os jogadores. Para quem conhecia tão bem o Bodo/Glimt...