A MF Total apresenta-lhe mais um Clube de Bairro: o Centro Desportivo de Pinheiro, clube vimaranense da freguesia de Pinheiro, como o próprio nome indica. O José «Mourinho» do futebol popular da Cidade Berço faz a apresentação geral do clube.

«O Pinheiro é um clube que foi fundado em 1978, tendo depois participado em vários torneios a nível de freguesias. Em 1988, com mais sete clubes, foi um dos fundadores da Associação de Futebol Popular de Guimarães. Até hoje, tem participado sempre nos campeonatos de futebol popular. Não há dinheiro para ninguém, joga-se pelo gosto. A única coisa que se ganha é títulos, quando se consegue», explicou-nos José Pereira.

José Pereira é treinador do Pinheiro desde a temporada 1995/1996. São duas décadas à frente das equipas do clube, nas quais já ganhou tudo que havia para ganhar, quer no futebol popular em Guimarães, quer nas provas interconcelhos. Pomposamente, gostam de chamar-lhe Taça UEFA.

Clube vencedor com uma mulher no comando

Estamos perante um clube vencedor, portanto. Quem é o confirma é a presidente do clube, Cecília Rodrigues: «A nível de futebol popular, tanto em Guimarães como no norte nas interconcelhias, somos a equipa que mais títulos tem e a única que tem os títulos todos».

Os destinos do clube estão entregues a uma senhora. E não há que ter qualquer tipo de receios. «O que faz uma mulher na presidência de um clube popular? Faz o mesmo que faz um homem, ora essa. Já sou adepta há muitos anos, já tinha estado na direção sem ser presidente e ajudava. Por isso, a motivação levou-me a estar aqui», atira a senhora presidente que, por acaso, é esposa do capitão de equipa.

Voltemos ao técnico, José Pereira, que nos enumera os títulos alcançados pelo Centro Desportivo de Pinheiro.

«Os melhores anos do Pinheiro foram na década de 90, em que conseguimos cinco títulos de Campeão da 1ª Divisão. Temos também dois campeonatos de juniores e duas Taças de Federação de Futebol Popular do Norte, temos ainda várias Taças Cidade-Berço (são bastantes, até é difícil contabilizar), temos Supertaças também e temos participado sempre na 1ª Divisão desde que se criou o futebol popular», enumerou.

Basicamente, o Pinheiro é um Clube de Bairro. Tem o nome da freguesia, com cerca de um milhar de habitantes, e disputa o futebol popular vimaranense. Ou seja, o futebol, pelo menos de forma organizada, do nível mais baixo que se pratica. Sendo o Pinheiro o clube com mais títulos nestas andanças, não seria de equacionar a participação nos campeonatos distritais?

«Não. Nunca nos passou pela cabeça. As dimensões do campo não permitem isso e, por outro lado, penso que nos divertimos mais assim a nível de freguesias do que no futebol federado», responde o técnico José Pereira.

«Aperta-se um bocado» porque «nunca ficou alguém para trás»

Ainda se lembra da descrição inicial? Da escuridão e do campo quase abandonado? Esse ganha vida todas as terças e quintas-feiras. Os holofotes acendem-se, as bolas começam a saltar no pelado e respira-se futebol. O grupo de trabalho reúne-se para treinar e preparar o jogo do próximo sábado.

As condições são as mesmas da esmagadora maioria deste tipo de clubes. Jogar «por amor à camisola e com gosto naquilo que se faz», refere o treinador, com um «exemplo» que não podia ser mais evidente: «Olhem para o dia de hoje: está a chover tanto, as pessoas estavam melhor em casa. É preciso muitos sacrifícios e gosto para vir para aqui.»

Armando Pereira junta-se à conversa. Tesoureiro e um dos responsáveis pelo futebol, cunhado da presidente Cecília Rodrigues, concorda com o treinador. De facto, é preciso um grande espírito de sacrifício para manter o clube em funcionamento.

«Todos temos chatices em andar aqui a liderar o clube. É pouca gente para um trabalho muito exigente. Muita gente fala do lado de fora, que há muito dinheiro, mas não há a noção do que isto é», desabafa o dirigente, que aponta a receita do bar em dia de jogo como principal fonte monetária do clube.

As deslocações para os jogos fora de casa fazem-se, na maioria das vezes, em carros particulares. E também aqui é preciso apertar; não o cinto, porque não chega para todos, mas apertar mesmo no espaço lá dentro. «Nunca ficou alguém para trás, quando não há carros suficientes aperta-se um bocado e vai tudo», garante. O clube até já teve uma carrinha, a Toyota amarela que carinhosamente era tratada como a «princesinha», mas o calor que se fazia sentir lá dentro «quase abafava os jogadores».

Os equipamentos são outra das dificuldades com que o Centro Desportivo de Pinheiro se depara a cada início de época. «Não é fácil arranjar. Felizmente, temos tido um patrocinador que nos tem ajudado bastante com os equipamentos e os próprios atletas também contribuem. Como o equipamento é personalizado, os jogadores ficam com ele dando uma pequena ajuda», revela o tesoureiro.

Mesmo tratando-se de um clube amador, há o orgulho de já ter visto vários jogadores dar o salto para outra dimensão, neste caso, para o futebol federado. «Já passaram por aqui bons jogadores. Por exemplo, o Ricardo, que joga a titular na baliza do Torcatense» - clube que disputa o principal campeonato da AF Braga e que está neste momento classificado em posição de subida ao Campeonato Nacional de Seniores -, ou «o Pedro, que já jogou em vários clubes, o Rafael e o Machado», enumera Armando Pereira.

Campo de dimensões reduzidas e árbitro em fuga com escada das vindimas

Pertencente à junta de Freguesia, mas entregue ao Centro Desportivo, enquanto este existir, o campo do Pinheiro tem como principal característica as suas dimensões reduzidas. É percetível. A linha lateral separa-se da grande área não mais do que três passos.

«Tem as medidas mínimas: 90 metros de comprimento por 47,5 de largura. Até já foi mais pequeno, mas há quatro anos foi aumentado», assume Armando Pereira. Ainda assim, o Parque de Jogos do Pinheiro foi grande o suficiente para uma história que mete um árbitro e uma escada das vindimas a servir de escapatória para a fuga aos adeptos.

O treinador José Pereira recorda o momento com sorrisos. «Foi com o Abação, o nosso maior rival, já há um bom par de anos. As coisas correram mal ao árbitro durante o jogo e ele, assim que terminou o encontro, fugiu para os balneários. Os adeptos foram a correr atrás dele, mas nós não deixámos chegar lá as pessoas. Depois, o árbitro tinha de sair daqui de alguma maneira e teve que sair para o terreno do vizinho com uma escada das vindimas».

Vida difícil para o árbitro, tal como para um outro um fiscal de linha, que passou por outros momentos de apuros: teve de se interromper um jogo para o bandeirinha ir à casa de banho.

Melhorar instalações com ajuda do autarca de Guimarães, um dos fundadores

A principal ambição de Cecília Rodrigues é «melhorar as instalações do clube, torná-las mais recentes e ter condições para voltar a ter uma equipa de juniores» explicou a presidente da coletividade que tem cerca de 150 associados ativos.

Mas, como em todos os clubes, a área das finanças não permite grandes aventuras: «A nível financeiro é muito complicado. O funcionamento aqui do nosso bar vai segurando as coisas, mas, como as instalações estão muito degradadas, torna-se ainda mais complicado sobreviver. Vamos vivendo com alguns patrocínios e também com as ajudas da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal».

O próprio campo, o Parque de Jogos do Pinheiro está em processo de legalização. O clube conta com o mais ilustre dos seus fundadores para auxiliar nessa tarefa. Domingos Bragança, atual presidente da Câmara Municipal de Guimarães, foi um dos fundadores do Pinheiro, em 1978.

Ele foi um dos fundadores do clube que em tempos «levou praticamente toda a freguesia atrás de si». Tempos que se querem ver voltar na freguesia de Pinheiro. Ao lado do campo há a modernidade de uma grande empresa. Uma inspiração. Modernizar as instalações e aumentar o número de sócios sãos os novos desafios do campeão nortenho do futebol popular, que só quer continuar assim.