«Os Heróis Portugueses». Um clube de bairro, literalmente. Fica sediado numa pequena rua de Guimarães, onde apenas circulam automóveis ligeiros, mas mesmo a esses é exigida alguma perícia ao condutor. A MF Total foi até à Rua dos Moinhos, na freguesia de Creixomil, para conhecer a história deste clube peculiar.

A designação oficial do clube é Grupo Recreativo Os Heróis Portugueses. E tem como bandeira e como principais baluartes distintivos o símbolo do primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, as caravelas de Vasco da Gama, o Infante D. Henrique e ainda o castelo de Guimarães em pano de fundo. Símbolos de heróis portugueses, portanto; e figuras nobres que marcaram a história de Portugal.

João Lopes, atual presidente da Assembleia Geral do cube, foi o anfitrião que recebeu a nossa revista na humildade daquela que é a segunda casa de muitos associados. Fez-se acompanhar por mais dois sócios que outrora desempenharam funções na hierarquia da coletividade e guiou-nos numa visita à sede dos Heróis Portugueses, pequena em tamanho, mas grande em história.

Para além do cargo que ocupa atualmente, João Lopes carregou durante muitos anos a braçadeira de capitão do clube pelos pelados do futebol popular de Guimarães. Nasceu e cresceu paredes meias com a sede dos Heróis, mas hoje em dia já não vive junto da coletividade. Nada que o impeça de marcar presença quase diária na sede. Foi atrás deste associativismo exacerbado que a MF Total foi à procura.

Os primórdios: tasca contenciosa com a vizinhança

Passemos então à história da coletividade vimaranense, fundada a 10 de agosto de 1948. Adriano Fernandes, que para além de jogador foi também tesoureiro, secretário e vice-presidente, conta-nos os primeiros passos dos Heróis Portugueses.

«Isto foi criado na base de um grupo de amigos que se juntaram para fazer uma excursão anual através do pagamento de uma quotização tendo em vista a realização desse passeio. Juntavam-se aqui na rua, bebiam um copo de branco pela manhã para matar o bicho e discutiam este assunto», diz Adriano Fernandes.

José Manuel, ex-presidente da Assembleia Geral, corrobora a história contada e lembra o primeiro passeio: «Logo no primeiro ano foram dois táxis ao Algarve passar uma semana com tudo pago. As quotas que recolheram deu para pagar hotel refeições e tudo.»

Estavam lançadas as bases, era preciso solidificá-las. Seguiu-se o passo seguinte: a conquista de uma sede própria para o clube, que funcionasse como uma tasca no sentido de agremiar mais sócios e servir de centro do clube. Isso foi conseguido, não no sítio atual, mas noutro e em litígio com um taberneiro local.

«Lembro-me que havia lá uma pipa de vinho, o que não era permitido. Muitas vezes, o taberneiro de cima chamava lá a polícia, de maneiras que me lembro de ver os sócios antigos a levar vinho ao garrafão pelas traseiras para depois o juntar num sótão escondido. A malta sabia e subia o escadote para ia buscar o vinho e quando ia lá a polícia não encontrava nada», recorda Adriano Fernandes.

Verdadeiro serviço social, bem comum e pertencente a todos quantos quisessem lá ir por bem, a sede era dos poucos locais com televisão, pelo que aos fundadores e outros associados que entretanto se juntaram ao movimento começaram a associar-se jovens sedentos de novidades e das novas tecnologias. Com obrigatoriedade de fecho às 22h30, a luz era muitas vezes apagada para despistar a polícia que acorria ao local no sentido de terminar com o barulho.

Choque geracional entre a tasca e o desporto

O desenrolar dos tempos e o aparecimento de novas gerações provocou uma nova era nos Heróis Portugueses. Os velhos associados apenas com a intenção de desenvolver o passeio anual e manter a sede em funcionamento afastaram os jovens da coletividade caindo-se num marasmo agudizado com a falta de meios.

Ao mesmo tempo, com o futebol a proliferar mais do que nunca, a juventude da zona reuniu-se no sentido de praticar a modalidade. Criaram-se equipas. Primeiro foram os «Diabos Negros», em virtude dos equipamentos tingidos de preto para serem todos iguais; depois, «Josim», em nome da empresa que cedeu uns equipamentos verdes e brancos de acordo com as cores e o próprio nome da empresa.

Nos Heróis Portugueses, os problemas financeiros foram-se agudizando e até pagar o aluguer da sede ficou posto em causa. Como relembraram à MF Total, chegou mesmo a ser necessário vender uma velha garrafa de Vinho do Porto para fazer face a essas dificuldades. A juventude decidiu-se então a pegar no clube, no que foi um choque geracional.

«Formos lá num dia de tarde uns quatro ou cinco. Eles disseram para entrarmos que éramos bem-vindos, mas nós percebemos que não estavam a ser humildes. Dissemos que sabíamos das dificuldades que a coletividade estava a atravessar e propusemo-nos a tomar conta daquilo. Propuseram-nos fazer dos Heróis uma cooperativa e tasca de comes e bebes. Dissemos não . Dissemos  vimos para aqui, se for preciso vai-se a eleições, para manter isto como uma sede e passa também a ser a sede do futebol», conta Adriano Fernandes.

Não chegou a haver eleições. Não foram necessárias e imperou o bom senso. Entre argumentos esgrimidos e algumas discórdias, os jovens rapazes do Rio de Selho fizeram-se sócios da coletividade na hora e assumiram as rédeas do Grupo Recreativo Os Heróis Portugueses.

Entraram em campo mais mortos do que vivos

Fica o registo de tempos de futebol popular e de participações honrosas em torneios quando o escudo ainda circulava em Portugal. Sempre por amor à camisola, sem qualquer tipo de remuneração. Não havia recompensa maior do que entrar em campo naquele que era o clube das suas raízes. Passamos a bola a quem sabe, ou melhor, a palavra. São histórias que podem sensibilizar leitores mais sensíveis. São «histórias de morte», segundo relata João Lopes.

«Foi numa segunda-feira de Páscoa, numa curva fechada a descer. Iam certamente dez jogadores dentro do carro e o condutor nem sequer tinha carta. Caíram a um campo, capotaram o carro. Estava mesmo de pernas para o ar. A preocupação foi sair do carro e pegar nos equipamentos para ir jogar. Todos ensanguentados, a mancar. E o Carlos até tinha a cabeça aberta. Eu já estava lá, tinha ido noutro carro e estava era à espera dos equipamentos. Jogámos na mesma. No fim, tivemos que pagar dez contos pelas árvores que deitámos abaixo no acidente. O lavrador queria cinquenta contos, mas só demos dez», conta João Lopes.

Que história! Relegou para segundo plano o resultado. Já ninguém se lembra quanto ficou esse jogo disputado na tal segunda-feira de Páscoa. O realce é que, fazendo jus ao nome, foram autênticos heróis e as camisolas do clube entraram em campo.

Mas há mais. João Lopes, capitão de várias jornadas relembra: «Há pessoas que hoje passam por mim e agradecem-me a vida. Apanhei uma vez uma sachola no ar a centímetros da cabeça de um senhor. Atirei-me a ela! No final, o individuo, aquele adversário que ia dar com a sachola, chorava como uma criança a agradecer-me por tê-lo impedido de fazer aquilo. Foi num torneio. Teve de ser».

Associativismo continua bem vivo

A falta de instalações próprias, nomeadamente de um campo de futebol, foi sempre um dos grandes calcanhares de Aquiles do clube. Foram os primeiros a padecer com a crise. Mesmo tratando-se de futebol amador, sem ninguém remunerado, o aluguer de campo fazia com que uma época desportiva chegasse a ficar orçada nos mil contos; verba avultada para um clube pequeno a quem os patrocínios começaram a escassear.

Exibem, como qualquer clube, os troféus na sua sede. O principal é um título de campeão da II Divisão de Futebol Popular de Guimarães, marco mais importante a par das participações honrosas na «Taça Uefa» do futebol popular: a Taça Inter Concelhos.

Ainda se lembra de como tudo começou? Do passeio anual? Pois, continua de pedra e cal, apesar do choque de gerações, das dificuldades económicas e até do fim do futebol no clube. O propósito da fundação permanece e em agosto continua a realizar-se o passeio anual dos Heróis Portugueses. Começou com dois táxis; agora, normalmente vão o dobro dos autocarros.

«Chegamos a levar quatro autocarros, uma grande caravana de associados de carros atrás e muitas carrinhas. Cerca de 350 pessoas. Agora paga-se uma quota simbólica de seis euros por ano e fazemos o passeio gratuito para os sócios», diz João Lopes.

Atualmente, a coletividade conta com mais de duas centenas de associados. A sede, por vezes, torna-se pequena e com horários reduzidos para o associativismo das suas gentes. O espírito de Heróis Portugueses, talvez alicerçado na fundação da nacionalidade, continua vivo.