Com 128,45 km² de área, a freguesia de Martinlongo (também designada Martim Longo) tem 1.030 habitantes, segundo os Censos de 2011, com uma densidade de oito habitantes por km². Entre os últimos dois Censos realizados (2001 e 2011) perdeu 350 habitantes e tem, agora, quase um terço da população residente em 1950 – que era de 2.875 habitantes.

Numa região em que só existem 102 habitantes (9,9% da população) com idade até aos 14 anos e 68 habitantes (6,6%) entre os 15 e os 24, torna-se complicado a existência de um clube desportivo dada a escassez de meios humanos. No entanto, há uma associação que tenta contrariar esse desígnio organizando atividades que cativem os poucos jovens das redondezas. Mas também com outras dirigidas à população mais idosa, dado ser este o escalão etário dominante.

O Inter-Vivos – Associação de Jovens do Nordeste Algarvio, foi fundado em 21 de fevereiro de 1995 com o objetivo de suprir a falta de atividades culturais e desportivas da freguesia e de juntar os jovens da aldeia. O nome foi perfilhado de um grupo de teatro que já estava extinto e que tinha sido criado pelo padre da paróquia de Martinlongo.

O clube tem 250 sócios, mas apenas 100 pagam a quota de 1 euro mensal. A sede funciona na antiga escola primária da aldeia, através de um protocolo com a Câmara Municipal de Alcoutim, estando aberta aos sócios e ao público em geral, todos podendo usufruir de um computador, jogar matraquilhos ou ping-pong e utilizar o ginásio.

O futsal é a modalidade que domina e o maior orgulho da região é Luís Conceição, selecionador nacional de futsal feminino e que deu os primeiros passos como treinador em Martinlongo residindo a pouco mais de 100 metros da sede do clube.

«Temos várias atividades, mas o futsal ocupa-nos praticamente o ano inteiro. Organizamos passeios de BTT, raids TT, como o Trilhos – que este ano não se realizou por falta de disponibilidade da malta que marca o terreno e que faz o road book –, torneios de sueca, bailes….», conta André Martins, 27 anos, presidente da Direção, e que fez parte das equipas de futsal que durante três anos andoaram pela 3ª divisão nacional. Pivot no campo, começou a jogar no clube em 2000 indo depois para o Lusitano de Vila Real de Santo António e para o futebol de 11, quando o futsal acabou no Inter-Vivos. Atualmente joga a lateral no Guadiana de Mértola, da 1ª divisão distrital de Beja.

Numa região de população envelhecida, o Inter-Vivos – uma associação de jovens, também direciona as suas atividades para esse nicho populacional. «Costumamos organizar torneios de sueca. Normalmente não temos lucro com essas atividades, mas fazemo-los porque a população da freguesia e do concelho estão viradas para isso, jogam muito às cartas nos cafés. E temos de olhar para a nossa população. Não fazia sentido organizarmos um torneio de paintball, por exemplo», justifica André Martins.

«No último [torneio] que organizámos, o primeiro prémio foi um veado. Também há borregos, leitões, galinhas e galos, como prémios. Ninguém nos oferece isso, temos que os comprar. Mas só com bons prémios é que conseguimos cativar o pessoal», acrescenta, até porque cativar a população tem sido uma barreira difícil de ultrapassar: «Organizávamos marchas populares e bailes, mas neste ano não vamos fazê-lo porque ninguém adere. As pessoas da aldeia queixam-se de que ninguém faz nada, mas quando fazemos não vão. E isso já nos vai cansando….», queixa-se.

Se os bailes têm pouca adesão, as expetativas foram superadas quando o clube organizou uma excursão aos estádios da Luz e de Alvalade, em 14 de junho do ano passado. «A população de Martinlongo está envelhecida e a maior parte nunca teve oportunidade de ir lá. E é para isso que também existem as associações, com o seu papel social. Foi um sucesso, enchemos o autocarro quando pensámos que não iria ter muita adesão.», conta o presidente, agora com satisfação.

O clube também organiza provas de desportos motorizados, como o Trilhos, para veículos todo-o-terreno, com a 16ª edição realizada no ano passado, ou as 4 Horas de TT do Pereiro, realizada pela primeira vez neste ano e que contou com a presença de Paulo Gonçalves, Ruben Faria e António Maio. «Conseguimos trazê-los através de um amigo, o Orlando Romana. Foi como um treino para eles. São muito simples e não fizeram qualquer tipo de exigência para participarem», agradeceu André Martins.

Mas é no futsal que o Inter-Vivos é conhecido. «Conseguimos mobilizar jovens devido ao gosto que eles têm pela modalidade. Mas, para termos jogadores suficientes, temos que ir busca-los fora de Martinlongo. Temos dois do concelho de Mértola e outros de Alcoutim. A Câmara Municipal de Alcoutim dá-nos uma grande ajuda no transporte. São eles que vão busca-los a casa para os treinos e levam-nos depois», explica André Martins.

Atualmente, o clube tem duas equipas, naquela que é a sua única modalidade federada. «Tentámos também ter petanca federado, mas as pessoas que costumam jogar não se mostraram muito disponíveis. Aqui, gostam muito de jogar, mas não gostam de compromissos», aponta.

São cerca de 30 os jogadores de futsal que se dividem pelas equipas masculinas de benjamins e juniores. «Os jovens, quando chegam ao 12º ano, vão estudar para fora e depois não voltam, ficam por lá a trabalhar. Gostam mais da cidade do que do campo», observa André Martins olhando para as dificuldades em voltar a ter seniores no clube.

Além da falta de matéria humana, o preço da interioridade é alto e cansativo: «Os sítios mais perto em que jogamos são Tavira [a 55 quilómetros], para os benjamins, e Faro [a 70], para os juniores. O mais longe é Lagos [a 130 quilómetros]. Quando vamos lá jogar [a Lagos], temos de sair com quatro horas de antecedência. Damos sempre uma sandes aos jogadores e por vezes o almoço ou o jantar. Os juniores, normalmente jogam às 17 horas e damos só o lanche. Aos benjamins, como jogam de manhã [às 11 horas], também pagamos o almoço.», especifica o líder da associação.

A população da aldeia gosta de futsal, mas André Martins lamenta que só sejam participativos quando a equipa ganha. «Quando somos campeões aparece toda a gente, mas quando jogamos às onze da manhã, não aparece ninguém. Reconhecem o nosso trabalho, mas não dão o devido valor. Gostavam de ir ao pavilhão quando estávamos na 3ª divisão: Nessa altura, o recinto estava sempre quase cheio».

«A Câmara de Alcoutim é o nosso principal patrocinador. Se não fosse a autarquia era impossível mantermos o futsal no clube. Os comerciantes da aldeia também dão uma ajuda, nas t-shirts e nos equipamentos e temos uma panificadora que nos dá o pão para o lanche», frisa com agradecimento.

Nas três épocas em que disputou a 3ª divisão nacional, o Inter-Vivos jogou com os Leões do Porto Salvo, que agora está na 1ª divisão. Luís Conceição, atual selecionador nacional de futsal feminino era o treinador. «Não sei se ele é um dos fundadores do clube, mas foi ele quem começou com o futsal. Até há um ano, era o tesoureiro da Direção, mas teve de suspender o cargo porque ao estar na Federação Portuguesa de Futebol tornou-se incompatível», refere André Martins.

A extinção da equipa de seniores e a desistência do campeonato nacional da 3ª divisão aconteceu a 15 de julho de 2011, após um vazio diretivo e a saída do treinador e de vários jogadores.

Antes do Inter-Vivos, Luís Conceição treinava os jovens da aldeia fazendo equipas para participarem nas Taças Snicker e Coca-Cola. «A primeira taça em que entrámos foi em representação do Atlético Clube de Martinlongo, que um ano depois acabou. Depois, fomos para o Inter-Vivos, que antes não praticava nada», lembra Luís Conceição.

«As primeiras equipas federadas surgiram a partir daí. Depois, foi sempre a andar para a frente. Se naquela altura me dissessem que iríamos ter a projeção que tivemos diria que era impossível devido à nossa interioridade», admite.

As primeiras equipas do Inter-Vivos jogavam ao ar livre, num campo com piso de cimento nas traseiras da escola primária, agora a sede do clube. «Nos dias de jogo, quando acordava, a minha primeira preocupação era ver se estava a chover para ver se poderíamos jogar ou não», recorda o presidente André Martins, na altura a dar os primeiros passos na modalidade.

Luís Conceição esteve ligado ao clube desde 1998 até ao ano passado. Foi treinador até 2011, com um ano de interrupção quando esteve no Sapalense (2006/2007). Em 2011/2012, treinou o Louletano, mas manteve a ligação ao clube de Martinlongo como dirigente. Passou depois para os quadros da Associação de Futebol do Algarve e é, desde 2014, selecionador nacional feminino de futsal orientando a equipa de seniores que em dezembro, na Costa Rica, se sagrou-se vice-campeã mundial.

O técnico nacional lembra-se bem dos tempos de clube de bairro. «Os nossos atletas tinham que fazer muitos quilómetros cada vez que vinham treinar. Na nossa zona não havia jogadores em quantidade e tivemos de recrutar em Vila Real de Santo António. São quarenta minutos o tempo da viagem, mas, em distância e para quem ia busca-los e levá-los (no ir e vir a dobrar), são 420 quilómetros. Ao fim de um mês, veja-se a quantidade de quilómetros que fazíamos, com as despesas inerentes e a quantidade de horas que os atletas passavam dentro dos carros», lembra o atual selecionador nacional de futsal feminino sobre as dificuldades que havia (e há) para treinar uma equipa do interior algarvio.

«Não é fácil, porque a nossa realidade é diferente, estamos longe de tudo. Se precisamos de dez miúdos, aparecem oito e temos de ir busca-los a casa. São poucos, trabalhamos com os que temos, damos-lhes a melhor formação possível. Mas também temos a vantagem de estarmos longe dos clubes de futebol, o que faz com que eles se concentrem no futsal. Desde há muitos anos que Martinlongo sempre teve tendência pela modalidade», acrescenta Luís Conceição.

No próximo dia 9 de maio, o clube vai organizar as 12 Horas de Futsal e, por influência do selecionador português, vai haver competição para equipas femininas, apesar de o Inter-Vivos não as ter. «Foi mais ou menos isso… O Luís disse-nos para fazer, apesar de não termos. Os campeonatos dos benjamins e dos juniores acabam muito cedo e é uma forma de manter a competição», explica André Martins.

No torneio, o selecionador nacional vai ter oportunidade de ver em ação atletas de Faro, Beja e Castro Marim porque em Martinlongo as raparigas não jogam à bola. «Aqui é impossível. Só deve haver umas três ou quatro que tenham jeito para chutar uma bola. E quando digo jeito, não quer dizer que sejam umas máquinas a jogar», aponta André Martins.