Uma gestação prematura pós-revolução, mas que ainda assim foi capaz de fazer vingar um clube duradouro que, aproveitando os ideais da liberdade, se mantém até aos dias de hoje com o propósito de permitir aos cidadãos a prática do desporto sendo o único clube de hóquei em patins da Cidade-Berço.

Um clube de bairro, sem dúvida, como assume sem rodeios e sem complexos o atual líder máximo da instituição com quatro décadas de existência. Lima Pereira recebeu o Maisfutebol no Pavilhão do CART, antes de mais um jogo da equipa B de hóquei em patins do clube. Uma equipa B que é um espelho fiel dos valores da coletividade, como veremos mais à frente.

«O nosso clube nasce da fusão de alguns grupos que existiam cá na vila. Inicialmente era não só um clube desportivo, mas também uma associação de atividades culturais, com um grupo de teatro e mais uma série de coisas», começa por explicar o presidente do CART.

O hóquei em patins e o voleibol foram as duas principais modalidades desportivas implementadas no clube atuando, contudo, em sítios distintos. O voleibol, à semelhança do que acontece nos dias de hoje, faz das escolas da vila a sua casa, enquanto o hóquei em patins começou a dar os primeiros passos, ou melhor, as primeiras patinagens, no pavilhão dos Bombeiros Voluntários das Taipas.

Número de desportistas aumenta mesmo sem remunerações

Atualmente, a situação é diferenciada de há uns anos, em que chegou a ter cerca de três dezenas de atletas praticantes de hóquei patins. Com o voleibol e todos os escalões do hóquei o número de atletas disparou.

«No ano passado, quando tratámos da documentação para entregar na Câmara Municipal de Guimarães, contabilizámos o registo de 236 atletas no clube. Há oito anos, o CART não tinha mais de trinta atletas no hóquei. Hoje, temos voleibol de formação feminino e uma equipa sénior masculina. No hóquei, temos todos os escalões e duas equipas seniores. No ano passado, arrancámos também com a patinagem artística, em ambos os sexos», refere Lima Pereira, dando conta de que se trata já de um número considerável de desportistas.

É uma contagem que ganha ainda mais ênfase quando se percebe que não há ninguém com direito a remunerações no clube. Inclusivamente, há apenas um treinador para quatro escalões de formação.

«Ninguém recebe nada, nem atletas, nem treinadores, nem diretores. Temos atletas de Barcelos, de Riba d’Ave, de Famalicão e a esses atletas contribuímos com alguma coisa para combustível, umas pequenas ajudas de custo, mas isso é legítimo e mentiria se dissesse que não há essas ajudas», assegura.

Desporto pelo desporto, pelo amor à camisola e pelo gosto pela prática de exercício físico. Apenas a falta de espaço leva a que o CART não tenha mais modalidades, como por exemplo o basquetebol e o andebol, que já estiveram várias vezes em equação.

Para além dos desportos já referidos, o clube taipense possui ainda outras atividades complementares, como é o caso de balé, karaté, zumba e pilates, numa vertente sem competição.

Ninguém deixa de jogar por falta de dinheiro

A componente social está sempre ligada intrinsecamente ao clube, como se percebe pelas palavras do presidente e também por alguns exemplos da vida quotidiana da coletividade. No último verão, deu-se um dos casos em que se contaram os cêntimos para que um grupo de jovens não deixasse de jogar hóquei em patins através da criação de uma equipa B.

«A nossa equipa sénior subiu de divisão e qualificou-se para disputar a 2ª Divisão Nacional. Temos um grupo de miúdos que chegaram a seniores pela primeira vez e houve pouco espaço para esses atletas na equipa que está a disputar o segundo escalão. Andámos numa grande indecisão, porque cada cêntimo conta neste clube e a parte financeira fez-nos ponderar muito, até ao ponto de dizermos não a esse projeto», relata Lima Pereira.

O projeto chegou a ser posto de lado, como o próprio presidente refere, mas a história não acabou dessa forma. Ainda se lembra do que dissemos mais acima? De o facto de a equipa B ser um espelho daqueles que são os valores do CART?

A história prossegue: «A consciência pesou e não conseguimos dizer que não a estes miúdos. Tinham de ter um seguimento depois de andarem aqui nestes anos todos. Não faz sentido chamar jovens para a prática do desporto para depois chegar a um ponto de não poderem continuar. Andaram aqui desde os infantis, chegaram agora a seniores e não fazia sentido mandá-los embora. Estamos a disputar a terceira [divisão] com um misto de jogadores de primeiro ano sénior, alguns juniores e um juvenil até.»

Para rematar esta ideia, Alberto Lima Pereira atira uma frase que resume e simboliza esta vivência: «Costumo dizer que somos um clube desportivo, sem dúvida. Mas também costumo dizer que trabalhamos a parte social».

Mas há mais exemplos. Para se ser atleta do CART é necessário pagar uma pequena mensalidade. O aumento do número de atletas levou a que fosse insustentável fornecer equipamentos a toda a gente. Nada que seja impeditivo para quem não possa pagar.

«Se tiver pais desempregados não pagam. Não há nenhum atleta que entre no CART e deixe de praticar desporto por não ter dinheiro para praticar a modalidade, seja bom ou mau jogador. Os atletas pagam para cá estar, no passado não era assim, mas com este número de atletas tornou-se insustentável», sustenta o presidente do clube acrescentando que a aposta no voleibol feminino foi feita com o intuito de colmatar uma lacuna que havia nas Caldas das Taipas, que passava pela «falta de oferta desportiva para o sexo feminino». «O único desporto que temos para as meninas é o voleibol que o CART oferece.»

Pavilhão remodelado com os braços de todos

Está a chegar a hora do encontro entre a equipa B do CART e o Boavista, a contar para a terceira divisão nacional de hóquei em patins, e o telemóvel do presidente não pára. Um dos treinadores está atrasado, o outro ainda está em trânsito a transportar miúdos. «Como vai haver jogo sem treinador? Eles que vão aquecendo, sabem aquecer.» Situação que altera o rumo da conversa. Não há hierarquia nem pessoas importantes, há apenas uma equipa de pessoas ao serviço do CART, nove diretores e vários seccionistas.

«Sou presidente do clube, mas pego muitas vezes na esfregona para limpar o piso; acabam os jogos e quando não está aqui mais ninguém eu limpo o balneário. Quando digo eu, digo igualmente outras pessoas que me acompanham, dirigentes, porque somos nós que fazemos esse trabalho», diz Alberto Lima Pereira, não em jeito de desabafo, mas com um sorriso de que o faz por gosto.

Foi com esta energia que se tornou possível mudar o piso do pavilhão há dois meses, limitando-se ao mínimo a intervenção de pessoal especializado e os custos do clube.

«Trocámos o piso antes do início da época, foi preciso mão-de-obra especializada, mas tudo o que estava ao nosso alcance fomos nós que fizemos. Desmontámos o piso todo e tirámos as tabelas para que a empresa chegasse aqui e apenas tivesse que montar o novo piso. Depois, aumentámos as tabelas, porque o piso subiu, pintámos balizas e pintámos algumas partes do pavilhão. Tudo feito por pessoas que andam por cá, dirigentes, seccionistas, pais de atletas, tudo por voluntariado. Só num clube com este espírito é que isto é possível», atira.

Não é caso único. As reparações e a manutenção das instalações do clube são feitas por gente da casa, que faz de tudo um pouco para manter o pavilhão em ordem.

«O pavilhão fez este ano dez anos. Somos nós que temos zelado por ele. Já sofreu inúmeras obras, noventa por cento delas foram feitas por nós. Já tivemos inundações, fomos nós que as reparámos e arranjámos forma de não continuar a ter. Já pintámos os balneários. Em conversa com o presidente da câmara, já tive oportunidade de lhe dizer que se não formos nós a cuidar do que é nosso ninguém cuida», conclui.

Sem objetivos, mas com resultados

No CART não se perseguem vitórias. Obviamente que, quando se entra em campo, ninguém quer perder e os jogadores de campo fazem por vencer todos os jogos, mas, como já deu para perceber, não se fazem equipas para ganhar campeonatos. O próprio presidente já foi jogador e não esconde isso.

«Não entramos em competições para ser campeões. Embora, se as coisas acontecerem não dizemos que não. Não contratamos atletas para ser campeões, trabalhamos com o que temos. A prioridade é estruturar o clube e sem dívidas. Estamos a virar-nos para a qualidade na formação. Não entramos pela competição, mas sim para a prática desportiva, não há nenhum miúdo que vá embora, jogam todos», assegura Alberto Lima Pereira.

Ainda assim, mesmo com esta filosofia vincada, «também há qualidade». A equipa sénior masculina de hóquei em patins foi campeã nacional da 3ª Divisão na temporada 2012/2013, sendo que esse é o maior feito do CART. Vários atletas foram chamados às seleções regionais e outros deram o salto como hoquistas chegando mesmo a construir carreiras no estrangeiro. No voleibol, também há títulos a registar, nomeadamente nas cadetes e iniciadas femininas, que se sagraram campeãs na última época.

Dentro dos trâmites normais do CART, aberto à comunidade e ao incentivo à prática de novas modalidades, o clube taipense foi um dos fundadores da Associação Portuguesa de Rope Skipping, uma modalidade de salto à corda, de forma rítmica e ao som da música.

«Foi uma modalidade que apareceu nas escolas e a convite do professor tivemos cá. Tiveram resultados fantásticos, mas chegou-se a um ponto em que os responsáveis pela secção saíram e criaram um novo clube. Não faz sentido continuarmos a ter, quando havia aqui ao lado quem praticasse», revela Lima Pereira.

Resultados fantásticos, de facto. Fernando Ferreira sagrou-se Campeão Europeu da modalidade enquanto atleta do CART e foi considerado o Jovem Revelação do Ano em Guimarães.

Portas abertas ao serviço de todos

Atualmente, com um número um pouco superior a duzentos associados, o objetivo passa por fazer crescer o clube nesta vertente e continuar a seguir aquelas que são as diretrizes do Centro de Atividades Recreativas Taipense. «Qualquer modalidade, desde que estruturada e com pessoas para a trabalhar, é bem-vinda».

O CART está aberto à comunidade e a todos quantos queiram contribuir, por carolice e para fomentar o desporto. Até porque os fins de semana têm sido funcionado a adrenalina com tanto para movimentar.

«Chegamos a ter onze jogos por fim de semana, o que é muito. Temos três carrinhas, o que não chega a nada porque uma carrinha não chega para levar uma equipa. Só com uma ginástica muito grande e com a ajuda dos pais dos atletas, que assim como os treinadores se disponibilizam para levar os seus carros, só assim, é que se consegue», remata Lima Pereira.

O presidente, ex-jogador de hóquei, despediu-se do Maisfutebol já com a braçadeira de delegado no braço, para o tal jogo que estava na iminência de começar. O treinador, Orlando Ribeiro, chegou a tempo de dar a tática já com os jogadores no ringue.

O presidente respirou fundo. Respirou fundo, mas sempre com um sorriso e simpatia de sobra. Abriram-se as portas ao Maisfutebol, como estão abertas a todos que assim o entendam. O CART está, desde a sua génese, ao serviço da sociedade através do desporto.