Há 30 anos, estes amigos de há muito já se juntavam naquilo que era a génese dos dois princípios acima citados. Na história escrita dos 12 primeiros anos do clube pode ler-se como eles não dispensavam as «confraternizações no café do Rodrigues» ou os «jogos de futebol entre solteiros e casados no Campo das Salésias».

O nome, fica claro, foi escolhido «por influência» das ruas Luís de Camões e dos Lusíadas, em Alcântara. O clube ainda hoje vive no 3º andar do nº66 da Rua dos Lusíadas. O poema épico do poeta português ficou homenageado no centro do emblema desta associação fundada por sete pessoas vindas para Lisboa de vários pontos do país que se estabeleceram na capital como operários ou comerciantes.

Passou pouco tempo até amigos e vizinhos passarem as quatro dezenas – um número que não diferirá muito dos atuais Lusíadas de Alcântara – e foi então chegado o momento de arranjar a sede. Reza a história do clube que a primeira compra foi uma bola de futebol, que custou mil escudos reunidos pelos sócios. A primeira bola deu seguimento ao primeiro jogo, mas o empate da equipa de veteranos dos Lusíadas nem foi o pior da estreia – num momento de distração, a bola acabou roubada...

A crescer até aos meados de 90…

Presentes nos primeiros Jogos Desportivos da Cidade de Lisboa, a relação dos Lusíadas com a atividade desportiva da freguesia e da capital sempre foi estreita – desde o ponto em que a enriquecia até ao ponto em dava sentido maior ao clube. Até, também, ao ponto em que o clube foi diminuindo quando a relação de Lisboa com o desporto jovem evoluiu noutros sentidos...

O clube foi crescendo, o número de sócios também. As modalidades praticadas iam desde a pesca desportiva ao atletismo, do tiro de ar comprimido ao futebol de 5 em todos os escalões; atividades sempre complementadas com a comida a preceito. Além do desporto, os sócios encontravam-se na sede para «uma sueca a feijões, uma leitura na imberbe biblioteca, bebendo um copo ou conversando».

António Felício esteve ligado à edificação do clube e é o sócio nº13. No presente é o presidente dos Lusíadas. Conta-nos como os primeiros anos de crescimento culminaram na «maior projeção» da ainda curta história do clube entre 1989 e 1992 «participando em torneios e organizando outros» fazendo um ponto de honra «gratuito», mas sem esquecer a «ajuda da Junta» de Freguesia de Alcântara.

O atletismo dos Lusíadas chegou a movimentar «seiscentos atletas», frisa António Figueirinhas, também homem de várias outras direções e agora mais ligado à tesouraria. «O bairro de Alcântara teve uma modificação muito grande», aponta em concreto e, no geral, também «a cidade mudou» no plano desportivo: «Desde que a Câmara acabou com os Jogos da Cidade.»

Os Lusíadas nunca foram um clube grande, mas, naquele tempo de maior projeção, lidavam com muitos jovens. E de uma forma muito especial. «Não pedíamos nada ao clube, pagávamos nós a gasolina, dávamos comida aos miúdos», conta António Felício. Muita dessa comida vinha do café do Rodrigues, o António, irmão de Manuel, que mais tarde se juntou a esta conversa na sede.

Antigo treinador de futebol no clube e agora também membro da direção, Manuel Rodrigues conta como chegou a «pôr 14 ou 15 [miúdos] dentro de um mini» para irem aos torneios. «Éramos nós, os sócios, que levávamos umas sandes e umas bebidas para os miúdos», diz sobre o espírito com que se dedicavam aos jovens que acolhiam para o seu emblema – muitos deles de famílias muito pobres – que, inúmeras vezes, «tomavam a primeira refeição do dia» quando chegavam ao café de António Rodrigues.

«Fazia-se comida em casa, uns petiscos para vender, vendia-se bebidas, uma rodada paga um, outra paga outro.» E assim se ia reforçando o orçamento dos Lusíadas, que recebia nas suas equipas de futebol miúdos não só de Alcântara, mas também da vizinha Ajuda, alunos da Casa Pia, ou até de bairros bem distantes, como da Boavista, que «vinham com os outros», os locais, como explica António Figueirinhas.

Dar desporto aos jovens

Manuel Rodrigues diz-nos que «os miúdos vinham oferecer-se para jogar» pelo clube e recorda quando uma avó preocupada lhe pediu para «falar com o neto» porque «tinha problemas na escola» quanto às notas. Entre definições de prioridades – «o jogo é uma brincadeira, a escola é a sério» – e a autoridade de treinador que escolhe quem joga – e, no caso, seria quem tivesse notas escolares que o merecesse – o jovem «aplicou-se». «Recebi um telefonema da avó a pedir que ele continuasse a jogar cá», conclui.

«Olhe para as fotografias e pergunte qual deles é que se estragou? Nenhum», diz-nos Manuel Rodrigues. Já na história contada dos Lusíadas, o clube se propunha a «afastar os jovens da toxicodependência, do crime e da morte». «Dar aos jovens o desporto, aos de mais idade passeios ou almoços de convívio» era uma das missões passadas para o papel, onde também se lê que a «grande fonte de receita» era esperada pelo «subsídios» conseguidos na «boa vontade de quem os dá».

Nos meados dos anos 90, os corpos gerentes comprometiam-se a «renovar» as atividades e a «criar novas modalidades que possibilitem» novas adesões» pretendendo «dinamizar andebol, atletismo, futebol, tiro, ténis de mesa, pesca, jogo das damas e chinquilho» e «incentivar passeios de convívio». Em 1994, ainda se celebrava o aniversário com «sardinhas assadas, fêveras grelhadas, frango assado, entremeada, pão», num repasto «regado com vinho, cerveja, sumos e água para os abstémios».

Pelo mesmo ano se conta que os Lusíadas chegam a adquirir «uma viatura de transporte dos atletas» e em 1995 adquirem «uma máquina de escrever». Em 1997 os sócios ainda passavam as quatro centenas. Mas este clube deste bairro nunca foi um clube rico. E, quando os tempos foram mudando, o seu crescimento foi declinando.

António Figueirinhas lembra as corridas desportivas à volta da freguesia, «em todos os escalões», que «as burocracias deixaram de permitir». «Havia polícia para ajudar, mas cada um de nós estava numa esquina a controlar o trânsito», recorda para frisar que, «desde 1996, acabou». «Passou tudo a ter de ser pago» e foi desaparecendo o que «era muito importante para os miúdos». «Connosco, era tudo de borla, mas a juventude também diminuiu», assim como «agora é só computadores» e «começou a haver também mutas escolas» de futebol.

Tudo tem um preço agora e, se em 1989, «Os Lusíadas» conseguiram juntar 300 pessoas num almoço, nos dias de hoje pedem-lhes «170 euros só pelo aluguer de uma sala no Instituto de Agronomia», como refere o presidente. António Felício conta-nos que, «sócios, até têm entrado, mas malta nova não». No presente, o número de associados está reduzido às poucas dezenas que havia no arranque. Quem paga as quota dá um euro por mês e, quanto à renda da sede, «vai-se pagando».

O convívio e os passeios continuam a fazer honra aos preceitos defendidos na construção do clube, mas, atualmente, à ordem de dois por ano, já são realizados também com amigos de pessoas ligadas ao clube. Geralmente, num autocarro, com cerca de 50 pessoas. «Os Lusíadas» vão sobrevivendo como podem, já só com uma equipa de futsal sénior – que participa nas Ligas Masterfoot – em que «só o Figueirinhas e o treinador é que vão» ver, como descreve António Felício, pois «com jogos à meia-noite»...

A equipa é constituída por «alguma malta do bairro, muitos funcionários do Pingo Doce», diz-nos António Figueirinhas. As pessoas que seguiam as equipas dos Lusíadas «foram desaparecendo» também. A sede já só abre ao fim de semana, das 15:00 até às 19:00. Por norma, não se encontram lá mais de seis ou sete pessoas. A nós, nesse sábado, juntou-se ainda Manuel Felício, filho do presidente, que também já vai participando na vida do clube – como o filho de António Figueirinhas. Com Fernando Pina – responsável pela fiscalidade do clube – e a mulher de Manuel Felício, lá estivemos sete, pois então.

Foi boa altura para Manuel Felício nos recordar como nos tais meados de 90, participou na vitória sobre a equipa da cidade de Madrid, que nunca tinha sido batida no seu périplo europeu. Ou para o seu pai recordar o título lisboeta de futsal de veteranos. Por entre uma rodada paga – no fim de contas – ao clube contam-nos como vivem agora pelo meio das recordações de há não tanto tempo assim.

Manuel Rodrigues, por exemplo, confessa: «Eu, agora, já só tenho tempo aos sábados…» E, enquanto se dá uma moeda para uma rifa que dará um belo petisco ao vencedor – como faz parte da alma destes bons pratos Lusíadas –, António Felício revela-nos: «O presunto já dá para a renda...»