Se por acaso quando sintonizou a sua televisão e ficou boquiaberto por ter visto os tais Piratas, que ao fim e ao cabo até são boa gente, a jogar no principal escalão do futsal português, que não tenha ficado com dúvidas: este é mesmo um clube de bairro.

Comecemos pelos dados gerais: uma caveira serve de símbolo ao clube que fica sedeado na Rua dos Cutileiros, em Creixomil - freguesia à entrada de Guimarães. «Os Piratas foram fundados a 10 de junho de 1970, na altura para participar nos torneios organizados pelo Vitória [de Guimarães]. A juventude queria jogar à bola e decidiu fazer uma equipa», revela Jorge Lopes à  Maisfutebol Total.

Na presidência há 14 anos, o líder dos Piratas fez-se acompanhar por Hugo Magalhães, um «verdadeiro Pirata», que será apresentado mais à frente. Dois símbolos do clube que foram os anfitriões de mística dos vimaranenses que trajam de azul e amarelo.

«Vivemos da boa vontade das pessoas»

Desde logo, o nome causa estranheza. Porquê Piratas para nome de uma equipa de futebol? «Em 1970, a crise era ainda mais grave do que agora. Era difícil arranjar apoios e equipamentos. Um merceeiro aqui da zona lembrou-se de arranjar, para os jogadores terem roupa igual, uns prémios, que eram umas t-shirts das pastilhas elásticas Piratas. Como a principal referência das camisolas era Piratas, ficou esse o nome. Curiosamente, as t-shirts acabaram por não ser utilizadas», explica Jorge Lopes.

Começaram por participar em torneios organizados pelo V. Guimarães, de futebol 11, para posteriormente se dedicarem ao futsal. À entrada para o novo milénio Os Piratas filiaram-se definitivamente na AF Braga participando até aos dias de hoje nos campeonatos distritais. Principiaram com uma equipa de juvenis e no ano seguinte arrancou a equipa júnior para dar escoamento aos jovens jogadores que saltaram do escalão anterior.

Dentro da mesma lógica, criou-se depois o escalão sénior que conseguiu o feito de subir aos campeonatos nacionais de futebol de salão logo no segundo ano de atividade. Hoje em dia, Os Piratas contam com seis escalões federados e quase uma centena de praticantes da modalidade que entretanto evoluiu para futsal. A equipa principal disputa o segundo escalão nacional.

É um número de praticantes que quase se equipara ao número de associados. Depois do boom provocado pela chegada à 1ª divisão em que os cadernos de sócios chegaram às três centenas, atualmente são pouco mais de cem os que têm a sua situação regularizada e a quotização mensal de um euro devidamente saldada.

Como é fácil de perceber, o dia-a-dia da coletividade processa-se com as dificuldades naturais de quem não possui qualquer bem material: «As únicas coisas que Os Piratas têm são os equipamentos e as taças que vamos conquistando. Isso é nosso. De resto, a sede é alugada e pagamos à Câmara Municipal as horas de utilização dos pavilhões. Toda a gente fica admirada como Os Piratas não têm nada (não temos sequer uma carrinha) e como é possível sobreviver com cerca de 90 atletas e seis escalões federados. Vivemos da boa vontade das pessoas!»

Quotidiano em modo de sobrevivência, mas com 40 títulos

Em relação aos equipamentos, por exemplo, cada atleta trata do seu. E cada jogador lava o equipamento em casa para o jogo seguinte. São dificuldades como estas que colocam Os Piratas a viver numa situação de sobrevivência. Sem carrinha própria do clube, muitas das deslocações têm de ser feitas nos seus próprios carros. Só nas viagens mais longas de todas recorrem à camioneta.

O presidente Jorge Lopes dá outro exemplo prático do quotidiano do clube: «No fim de semana de 30 e 31 de maio vamos participar num torneio de juniores no Fundão, fomos convidados e somos cabeça de cartaz. Vamos com quatro carros: vai o meu carro, o do treinador, e dois carros de diretores. Ou seja, vamos em quatro carros para o Fundão e já estivemos a fazer as contas: portagens e gasóleo fica por cerca de 110 euros por carro. Sem receber um tostão, o treinador ao vir para o treino faz um desvio para trazer um jogador».

Ainda assim, neste cenário pouco propício à obtenção de resultados, a verdade é que o clube de Creixomil apresenta um registo histórico de sucesso. Ao todo, já tem 40 títulos conquistados, entre os quais se destaca o título de Campeão Nacional da 3ª Divisão de Seniores. Sem nunca ter tido atletas profissionais, tem nos irmãos Leite referências do clube. Formados nos Piratas, Carlos Leite e Paulo Leite fazem carreira no futsal e chegaram a representar a seleção nacional. Um feito que orgulha um clube modesto. De resto, aos 41 anos, Paulo Leite é novamente jogador dos Piratas.

«A brincar, costumo dizer que ao meu nível só está o Pinto da Costa. Conquistar 37 títulos federados em 14 anos não é para qualquer um», atira o presidente dos Piratas no meio da conversa que decorreu nas instalações da Junta de Freguesia. Na pequena sede do clube, café com quatro mesas e meia dúzia de cadeiras, não há condições.

Brincadeiras à parte, a realidade mostra um grande espólio de troféus num clube que não aparenta ter condições para tal. Qual é o segredo? «Os Piratas são um clube com uma mística muito grande; outros clubes têm dinheiro mas falta-lhes a alma e a mística que nós temos. É impensável um clube de bairro como Os Piratas de Creixomil estarem a ombrear com clubes de outra nomeada. Temos esta forma de estar muito diferente dos outros» diz Jorge Lopes.

O líder da direção prossegue o seu raciocínio: «Ninguém é profissional, faz-se tudo de forma amadora e por amor à camisola. Toda a gente que vai por aqui passando ganha amor a isto. Há vários jogadores que chegam aos juniores e depois não tem capacidades para subir aos seniores, mas ficam por cá, como diretores ou integrando as equipas técnicas da formação».

A aventura na 1ª divisão...

As voltas do destino levaram a que Os Piratas se classificassem no terceiro lugar da 2ª Divisão Nacional na temporada 2011/2012. A desistência do Farlab, que havia ficado em segundo lugar e por isso mesmo garantia a presença no principal escalão do futsal nacional, abriu as portas da 1ª divisão a um clube com uma alma enorme, mas que nunca se tinha preparado nem estruturado para tal feito.

«Fui bombardeado com telefonemas de todos os lados e de todos os jornais quando se soube da desistência do Farlab. A minha intenção era dizer logo às pessoas que sim, mas tivemos de reunir para decidir. Para um clube como o nosso é complicado estar na primeira, mas não quer dizer que não sonhamos. Temos uma viagem para fazer aos Açores e sete a Lisboa. Quando meter o autocarro e o almoço fica por cerca de 1.000 euros cada ida a Lisboa e ainda levamos nós o lanche», explica Jorge Lopes em alusão às dificuldades encontradas. Ainda assim, nada é impeditivo que o sonho seja concretizado.

O jogo de estreia na 1ª divisão foi contra o Sporting. Tinha transmissão televisiva agendada e até passou para o Pavilhão Multiusos de Guimarães em vez do Pavilhão da Escola D. Afonso Henriques, onde decorrem habitualmente os jogos da equipa da freguesia de Creixomil. Problemas técnicos obrigaram a que o jogo só fosse transmitido mais tarde em diferido. Para os adeptos dos Piratas até nem foi mau. Viram a sua equipa ao vivo e, depois, também na televisão – a derrota de 9-0 com os leões foi o que menos interessou.

A participação na 1ª divisão em 2012/13, apesar de ter o destino traçado de imediato para o segundo escalão novamente, foi entendida como uma oportunidade para desfrutar. A viagem aos Açores é exemplo disso mesmo.

«A federação só paga a viagem aos Açores a 13 elementos: são o que as equipas levam lá para não terem despesas. Dos Piratas foram 26 pessoas para o jogo com o Operário. Os jogadores organizaram-se e pagaram uma quota mensal para irem todos aos Açores. Não era justo irem só alguns. Foi um prémio para o grupo», recorda Jorge Lopes contando que Os Piratas até conseguiram «escapar» ao pacote comprado para a viagem: «No jantar a seguir ao jogo beberam vinho. Não estava programado, mas era uma vez e foi um fim de semana de festa. O nosso presidente da Assembleia-Geral, que é o presidente da Junta de Freguesia, e um vice-presidente pagaram por fora e eles lá beberam o vinho. Foi uma festa».

Jorge Lopes considera a participação na 1ª divisão como um prémio para aqueles que viram Os Piratas crescer. «Quando isto começou, o Magalhães era um miúdo. A gente começou a sonhar ver estes miúdos que cresceram aqui poderem ter um prémio de jogar contra um Benfica e contra um Sporting».

Magalhães: «um verdadeiro Pirata» que é guarda-redes e faz parte da direção

Hugo Magalhães, 28 anos, é natural de Creixomil e uma peça incontornável nos Piratas. Fez parte da equipa de juvenis com que a atividade de futebol de salão foi retomada e por isso mesmo é atleta do clube há 15 anos ininterruptos. Passou para os juniores e mais tarde para os seniores estando até hoje a defender a baliza da equipa que joga com uma caveira como símbolo. Ele que é também um símbolo de dedicação à causa fazendo neste momento parte da direção liderada por Jorge Lopes.

O guarda-redes e dirigente admite que são necessários sacrifícios para se manter no mundo da bola: «Faço sacrifícios: treinar três vezes por semana e conciliar com o trabalho não é fácil. Este ano já tive algumas lesões, o que ainda complica mais. Felizmente, tenho conseguido aguentar e nunca faltei a treinos ou ao trabalho. Eu, assim como os meus colegas, fazemos sacrifícios para andar nisto».

Magalhães, como é conhecido, recorda que apenas entrou nos Piratas para jogar futebol e entrar em torneios, mas hoje em dia não se imagina sem os jogos: «Quando entrei para Os Piratas era só para jogar em torneios, nada de mais. Reunimos os miúdos aqui da zona e gostámos da ideia. Com esta direção, começámos a entrar nos torneios distritais e agora nem sequer se pensa em não jogar».

Jogar na 1ª divisão, ao lado dos craques que vê na televisão, foi o realizar de um sonho. «Nunca ninguém pensou em jogar na primeira. Quando subi a sénior já apanhei os nacionais, nunca joguei nos distritais. Mas para nós, sendo não remunerados, a jogar por gosto e depois do trabalho, é um sonho jogar contra jogadores que víamos televisão», diz o guarda-redes ao mesmo tempo que revela já ter tido muitas propostas para representar outros clubes, mas que nunca jogou com outra camisola que não a dos Piratas. Daí ter sido rotulado como «um verdadeiro Pirata» durante a conversa.

Com tantos anos de Piratas, há algumas histórias para contar. Vem à memória de Magalhães uma bem recente, na 1ª divisão, em que foi necessário arrastar árvores da estrada para chegar ao destino.

«No ano passado, num dia de temporal, fomos jogar a Cascais. Saímos daqui às nove horas da manhã para chegar à hora de almoço e comermos lá. O jogo era às 17 horas. Chegámos a um ponto da viagem em que só se viam polícias de um lado para o outro e poucos carros a circular devido às árvores que estavam no meio da estrada. Tivemos que sair da camioneta para tirar árvores do caminho. Demorámos sete horas para chegar de Guimarães a Lisboa. Almoçámos aquele que era nosso lanche, desmarcámos o restaurante e comemos os panados na camioneta. Chegámos ao jogo quando faltavam 15 minutos para o início. Tivemos de aquecer à pressa», recorda Magalhães entre sorrisos.

Com um orçamento anual de 45 mil euros, em que cerca de 15 mil são direcionados para o aluguer de pavilhões e sete mil destinados à inscrição das equipas nos campeonatos, é necessário executar vários dribles para fazer com que as verbas cheguem para fazer face às despesas. Numa curta frase, Magalhães explica a mística dos Piratas: «Quem corre por gosto não cansa. Temos que dar a mão à palmatória e sermos nós a ajudar um pouco a direção!»