A ideia surgiu ao ler este texto de André Pipa: Cristiano Ronaldo atingiu os mil golos na carreira, se incluirmos na contagem os particulares. Segundo a FIFA, o português foi o segundo jogador a consegui-lo, logo a seguir a um tal de... Pelé.

Ora André Pipa dizia que o primeiro golo de Ronaldo foi num particular em Alcochete, realizado em julho de 2002, frente ao Samouquense. E dizia também que alguém devia encontrar o guarda-redes que sofreu esse tal primeiro golo do maior goleador da história.

O Maisfutebol pensou que era um bom desafio e foi atrás das pontas soltas. Leu o artigo que escreveu na altura sobre esse jogo, consultou o jornal Sporting, falou com antigos jogadores do Samouquense e chegou ao homem.

Quem é o guarda-redes afinal?

Chama-se Sérgio Mateus e nasceu em 1981, no Montijo. Foi ele quem sofreu o primeiro golo de Cristiano Ronaldo enquanto jogador sénior.

Já se sabe que João Ricardo, do Moreirense, sofreu o primeiro golo oficial e até já disse que devia se recompensado por isso. Sérgio Mateus sofreu o primeiro de todos, que não foi tão importante, nem há imagens que o documentem, mas terá também um significado especial.

«Para mim não é alegria nenhuma. Um guarda-redes nunca gosta de levar golos, a intenção é defendê-los», começa por contar Sérgio Mateus.

«Ainda que hoje seja associado ao nome do Cristiano Ronaldo, sofrer um golo não é um orgulho. Mas pronto, foi o que foi.»

O que realmente lhe traz um sorriso à face foi a experiência de jogar na Academia, o ritmo intenso do jogo e a oportunidade de viver aquele momento único.

«Uma pessoa queria que aquilo durasse uma semana, não apenas um dia. Quando chegámos lá, havia muita ansiedade de começar o jogo, mas aquilo passou a voar. É normal, quando as coisas são boas, passam muito rápido.»

Os bastidores do jogo

Ora já se percebeu que a passagem de Sérgio Mateus pelo Samouquense acabou por coincidir com uma das páginas mais curiosas da história do clube: quando a equipa recebeu um convite improvável para defrontar o Sporting, então campeão nacional, num jogo à porta fechada.

«Ninguém estava à espera de ter um jogo de pré-época destes. Foi uma surpresa muito agradável. Qualquer jogador gosta de jogar contra o campeão da Liga.»

Sérgio admite que alguns pormenores lhe fugiram da memória com o passar do tempo, mas ainda se lembra que as férias foram encurtadas e que a pré-época começou mais cedo, para que o grupo pudesse apresentar-se em Alcochete. A notícia foi dada pelo presidente, no balneário.

A noite do dia 5 de julho de 2002, véspera do jogo, não se esquece. Muitos foram os jogadores que não pregaram olho «sempre com aquele nervoso miudinho» e a ansiedade «que o jogo chegasse o mais rápido possível».

A estreia da Academia de Alcochete e... Ronaldo

Pelo caminho, houve outro detalhe importante: o Samouquense - que tinha acabado de subir à I Divisão Distrital de Setúbal - foi a primeira equipa de fora a ir jogar na Academia de Alcochete, que tinha sido inaugurada duas semanas antes. O que dava também um outro significado ao encontro.

«Deu ainda mais vontade de aproveitar», confessa Sérgio.

No dia do jogo, o grupo foi recebido com uma visita aos vários cantos da Academia. Houve um elemento do staff leonino que os acompanhou durante a manhã, mostrando-lhes os campos, o ginásio e as zonas de treino. Na altura, o complexo era mais pequeno do que é hoje, mas para quem vinha do futebol distrital, já era um mundo.

«Em comparação com as infraestruturas que tem um clube da distrital a diferença é enorme. O Samouquense sempre teve boas condições para a divisão em que estávamos, mas havia clubes com instalações, balneários e acessos muito maus», refere.

«Para jogadores habituados à realidade amadora, tudo aquilo parecia outro planeta. Todos ficámos contentes por conhecer o espaço e viver um momento tão especial»

Terminada a apresentação do centro de treinos, chegou o momento mais aguardado: o jogo.

A equipa dirigiu-se para o balneário, onde Sérgio Mateus recorda que se viveu um ambiente de grande agitação e alegria. Juntavam-se ao «nervoso miudinho» da noite anterior «as habituais piadas para aqui e para ali, tudo na base da brincadeira».

Memórias do jogo

Dentro de campo, o objetivo daquela manhã era só um: «Sofrer o mínimo de golos possível», atira.

«Já sabíamos que não íamos ganhar, mas pronto... Acabámos por perder por 9-0. Ainda tivemos um penálti a nosso favor, mas o guarda-redes defendeu. Acho que não foi mau de todo. Podia ter sido bem pior», recorda entre risos.

Apesar de já terem passado mais de duas décadas, Sérgio Mateus ainda guarda na memória algumas imagens nítidas daquele dia. Uma delas envolve o romeno Marius Niculae, que voltava de lesão.

«Foi um lance em que ele tirou a defesa da frente e ficou cara a cara comigo. Ainda tenho até uma fotografia desse momento».

Juntamente com outros três ou quatro lances que não esquece, há uma particularidade do jogo que lhe ficou marcada.

«O árbtiro era László Bölöni, o próprio treinador do Sporting».

E foi imparcial?

«Estava por nós. Qualquer lance dava falta a favor do Samouquense e não do Sporting. Era para criar mais dificuldades. Foi uma boa arbitragem», sorri.

Foi um jogo de pré-época, com cerca de 80 minutos, em que houve tempo para todos jogarem, de um lado e de outro.

«No Samouquense jogaram quatro guarda-redes. O titular foi o Cândido. Depois entrei eu, que fiz os vinte minutos finais da primeira parte e o início da segunda. A seguir entrou o meu colega Luís Hugo e, nos últimos cinco minutos ainda jogou o Hélder, que era júnior, mas foi connosco porque era todo do Sporting.»

O primeiro golo da carreira de Cristiano Ronaldo

Entre os quatro guarda-redes que entraram em campo naquele dia, Sérgio teve a sorte, ou o azar, de ficar para a história por ser primeiro a sofrer um golo de Cristiano Ronaldo numa equipa principal, como jogador sénior, ainda que num particular.

«Lembro-me que ele [Cristiano Ronaldo] marcou de cabeça, mais ou menos ali no meio da grande área. Foi de um cruzamento, penso que do lado direito. Não foi preciso assim muita força, foi só encostar.»

Sérgio conta que, na altura, o nome de Cristiano já começava a ser falado, mas ainda sem o mediatismo que viria a ter, claro.

«O Ronaldo ainda era júnior e, claro, quando se faz essa transição direta tão cedo já se chama a atenção. Nós já conhecíamos o nome e já sabíamos quem era. Mas pronto, havia ali dois ou três que davam mais nas vistas, como era o caso do Niculae», refere.

«O que mais me marcou foi o nível competitivo de um jogador profissional em comparação com um amador. Às vezes temos um jogador ou outro que achamos que pode dar o salto para uma I ou II Liga, mas depois vemos o ritmo deles, que neste caso foi na pré-época, e não tem nada a ver. A diferença é enorme. Não tem nada a ver com a nossa realidade. Um amador trabalha o dia inteiro, ao fim do dia vai fazer o seu treinozinho, entre uma hora e hora e meia, e no fim de semana tem jogo. Ali é a vida deles.»

Fora do jogo particular ficaram os nomes principais daquele Sporting. Jogadoes como Jardel, João Pinto, Pedro Barbosa, Paulo Bento ou Rui Jorge.

«Houve jogadores que não jogaram porque na altura tinham vindo do Mundial 2002 e ainda estavam de férias. Claro que nós gostávamos de ter jogado contra o João Pinto, grande jogador português, mas pronto, não houve essa possibilidade», recorda.

«Já era uma alegria estarmos lá, independentemente de quem estivesse. Foi muito bom na mesma. No fim todos os jogadores cumprimentaram a nossa equipa. Estiveram a tirar fotografias connosco e a trocar algumas palavras. Acho que não houve ali nenhum com o complexo de vedeta. Tudo pessoas muito humildes, que inclusive durante a partida, quando as coisas não saíam tão bem, incentivavam-nos e diziam para não baixarmos os braços. Não estávamos a contar com isso, mas aconteceu. Foi muito bom.»

Uma carreira construída no futebol local

De regresso à realidade do Samouquente, importa dizer que Sérgio Mateus construiu toda a carreira a jogar na distrital de Setúbal.

Começou no futebol aos dez anos, nos infantis do Clube Desportivo do Montijo. Foi no clube da terra que cresceu e fez toda a formação.

Pelo caminho surgiu um interesse do Sporting, uma oportunidade de ouro que não conseguiu agarrar. O antigo guarda-redes recorda o episódio como «uma situação quase idêntica à de Cristiano Ronaldo».

«Na minha segunda época de iniciado, tinha já tudo preparado para assinar contrato com o Sporting, só que como tinha de ir de barco e de metro todos os dias para Alvalade, não pude ficar. Os treinos eram muito tarde e os meus pais não me conseguiam acompanhar nesse trajeto. Na família também não tinha ninguém que me pudesse ajudar e acabei por não ir», conta.

«Na altura saber que o Sporting estava interessado num rapaz de 12 anos, deixa qualquer um feliz. Queria muito ir para lá jogar, independentemente de ser o clube do meu coração ou não, isso não interessa.»

A vida seguiu, porém, por outros caminhos. Enquanto sénior, o primeiro emblema que representou foi o Samouquense, durante cinco épocas. Foi aí, entre treinos ao fim do dia e jogos ao fim de semana, que acabou por viver uma experiência que poucos jogadores amadores podem contar: jogar contra o Sporting em plena Academia de Alcochete.

O fim da carreira e a vida como motorista de pesados

Depois da passagem pelo Samouquense, na época de 2005/2006 voltou ao Clube Desportivo do Montijo, casa que o formou e que após duas épocas viu abrir insolvência. Reergueu-se depois com um novo nome: Clube Olímpico do Montijo.

Foi aí que terminou a carreira aos 29 anos.

«Na Distrital, uma pessoa não ganha praticamente nada. O que se paga a um jogador é quase simbólico», sublinha.

«Na altura, trabalhava até tarde e isso dificultava muito. Também por isso não conseguia dar o salto para um clube melhor, numa divisão mais acima. De vez em quando aparecia um convite ou outro, mas o trabalho não ajudava. Dava mais jeito ficar por aqui, perto de casa: chegava, trocava de roupa, comia qualquer coisa, fazia a mala e ia para o treino.»

Entre o futebol e o emprego, a vida fazia-se de esforço e paixão. Houve um momento que não deu para aguentar mais e, no final da época 2010/11, Sérgio decidiu pendudar as chuteiras.

«Trabalhei muito tempo em armazéns, como auxiliar. Mais tarde tirei a carta de pesados e comecei a trabalhar na distribuição. Hoje sou motorista de pesados», revela.

«Chegou um momento em que tive de deixar o futebol. Curiosamente, foi no ano em que fomos campeões distritais. Já fazia muitas horas como motorista de pesados e, no fim do dia, ainda tinha mais uma ou duas horas de treino. E como se sabe, o guarda-redes tem um treino muito específico - está sempre no chão, sempre a cair - e isso começou a fazer moça. Senti que precisava também de algum tempo para mim. Já era tudo muito cansativo.»

Ao olhar para trás, Sérgio faz um balanço positivo do percurso que teve no futebol. Desde os escalões de infantis até chegar aos seniores, conquistou dois títulos e somou ainda duas subidas de divisão.

«Para um jogador amador, foi uma carreira sólida e satisfatória»

Entre as recordações que o antigo guarda-redes guarda com maior carinho estão as memórias de infância. As viagens de autocarro quando a equipa jogava fora, o ambiente descontraído e as brincadeiras que marcavam esses dias.

Lembra-se também de alguns momentos dentro de campo que o fizeram sentir especial, como o campeonato conquistado no escalão de iniciados, decidido nos penáltis, e um jogo em Sesimbra em que defendeu várias bolas seguidas.

«Mas o que me fez manter no futebol durante tantos anos foram, acima de tudo, as amizades. Crescemos juntos desde os iniciados e éramos quase uma família, com praticamente os mesmos colegas ao longo dos anos. Até hoje mantemos contacto, fazemos almoços ou jantares.»

Hoje em dia, Sérgio já não tem qualquer ligação com o futebol. Não esquece o que o desporto lhe deu, mas sublinha que é «um capítulo da vida que está fechado».

«Quando terminei, desliguei-me do futebol, principalmente do clube da minha terra. O futebol quase parou para mim nesse ano. Ainda assim, não esqueço que me deu muita coisa. Na minha terra toda a gente me conhece. Vou na rua e muita gente me fala, lembram-se da altura em que jogava à bola, e isso é muito positivo. Uma pessoa sente-se bem».

Por vezes, Sérgio ainda pensa em como as coisas poderiam ter sido diferentes.

«Quando foi o jogo em Alcochete pensei nisso. Passou-me a ideia: ‘Há uns anos podia ter assinado e estar ali daquele lado’.»

O destino não quis que assim fosse, mas também não o impediu de ficar na história: numa história muito particular, que mete Cristiano Ronaldo e o primeiro golo de todos.

FICHA DE JOGO

SPORTING: Nuno Santos; César Prates, Santamaria, Rui Bento e Paíto; Custódio e Ricardo Fernandes; Quaresma, Toñito e Ronaldo; Luís Filipe.

Na segunda parte: Nuno Santos; César Prates (Santamaria), Hugo, Quiroga e Rodrigo Tello; Diogo e Carlos Martins; Quaresma, Toñito (Ronaldo) e Lourenço; Luís Filipe (Niculae).

SAMOUQUENSE: Cândido; Lóia, Jorge Firmino, João Marques e Ruben; Sérgio Dias, Carlitos e Henrique; Plirú, Gomes e Galvão.

Jogaram ainda: Sérgio Mateus, Luís Hugo, Hélder, Mário Guerra, Pedro Gil, Barri, Xano e Hélder Oliveira.

GOLOS: César Prates, Quaresma e Ronaldo (na primeira parte), Lourenço (duas vezes), Quaresma, Diogo, Niculae e Carlos Martins (na segunda parte).