O irmão mais novo de Super Mário – rótulo que o acompanhou ao longo da carreira – pendurou as chuteiras em 2010. Ouviu o aviso do seu coração, quando representava o CDC de Montalegre, e percebeu que teria de se adaptar a uma nova vida face à arritmia cardíaca que o acompanha.

Nesta altura percorre toda a zona centro e sul do país como vendedor ao serviço da Jerónimo Martins, comercializando produtos de mercearia e perecíveis. Na época natalícia dispara a compra de chocolates e derivados para deleite de algumas marcas que George Jardel representa em Portugal.

Os dias são passados de fato e gravata, normalmente com viagens longas de carro pelo meio, mas o irmão mais novo de Mário Jardel sente-se feliz e realizado. Uma vida normal, exigente, sem o ‘glamour’ do mundo do futebol, aquele que lhe virou costas quando se viu obrigado a dizer adeus.

Para trás ficaram o FC Porto – juniores e equipa B, o Benfica - teve contrato assinado mas foi emprestado após a pré-época ao Alverca - e outros clubes de boa memória como o Penafiel ou o Leça.

Voltemos ao ponto em que o destino lhe trocou as voltas. Novembro de 2010. George Jardel jogava no Montalegre (AF Vila Real), na III Divisão portuguesa, quando sentiu uma dor forte no coração após uma sessão de treino.

«Foi um susto enorme, podia ter sido trágico. Tive um episódio e após exames descobri que tenho uma arritmia cardíaca. Vi-me obrigado a terminar a carreira logo aí, com 31 anos, mas encaro isso de forma positiva, serviu-me de aviso e consegui seguir em frente. Hoje em dia levo uma vida normal, embora com alguns cuidados.»

Por essa altura o avançado já desenvolvia uma atividade paralela como forma de subsistência. Tinha iniciado a sua carreira como vendedor e essa seria a sua luz ao fundo do túnel.

«Ainda tentei algumas coisas no futebol mas não deu certo. Estive quase dois anos sem encontrar algo fixo e por isso fico satisfeito com a posição que tenho hoje. Já se sabe como são as coisas no mundo do futebol, as supostas amizades que ficam para trás, mas faz parte da vida.»

George Jardel fez-se à estrada. Agarrou uma oportunidade, aperfeiçoou técnicas como vendedor, foi conquistado espaço no mercado competitivo.

«Este é um mundo completamente diferente, um dia a dia cansativo mas gratificante. Trabalho em Lisboa, na zona Centro/Oeste e em toda a zona Sul. Estou como efetivo na Jerónimo Martins, uma empresa que me tem tratado muito bem, e procuro desenvolver o meu trabalho da melhor forma, tendo sempre em atenção o contacto com o cliente.»

Mas em que consiste, afinal, o trabalho de George Jardel? Quais são os principais produtos na sua carteira?

«Represento cerca de 25 marcas de produtos perecíveis e de mercearia, como chocolates, cereais, etc. Nesta época festiva há uma grande aposta em chocolates, como é óbvio, onde represento marcas como a Lindt.»

O futebol de competição ficou no álbum de recordações. Por estes dias limita-se apenas a jogar com os amigos, pontualmente, para matar saudades. Sem forçar.

George não esquece porém o arranque promissor na formação do Vasco da Gama, antes de embarcar para Portugal.

«A minha carreira podia ter sido diferente, claro. Saí do Brasil muito novo e nunca tive uma verdadeira oportunidade. Era difícil entrar no plantel do FC Porto porque nesta altura a equipa ganhava tudo e tinha um grupo muito forte.»

O avançado passou entretanto por Leça, Penafiel e Felgueiras. No verão de 2002 assinou contrato com o Benfica, de forma algo surpreendente. Posou ao lado de reforços como Emílio Peixe, Anderson Luiz, Éder e Cristiano, mas não passou da pré-época.

Em entrevista anterior ao Maisfutebol, George já tinha admitido que a transferência para a Luz pode ter estado ligada a um acerto de contas entre o Benfica e o irmão Mário

«Tive grandes momentos no Leça e também no Penafiel. Quando cheguei ao Benfica, penso que o plantel já estava definido, fiz parte da pré-época mas acho que a decisão de empréstimo ao Alverca já estava tomada.»

Em 2003, o avançado começa a descer alguns degraus nos patamares competitivos em Portugal. George Jardel representa o Amora, depois Esposende, Macedo de Cavaleiros e por fim o Montalegre.

Com 31 anos terminou a carreira mas ficou no nosso país. Um país que também já é um pouco seu. Não perde uma oportunidade para estar com o irmão Mário, ou com a irmã Jordana - «continuamos a ser uma família muito unida» - enquanto procura conquistar o seu espaço no comércio de bens alimentares.