«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como sobrevivem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para spereira@medicapital.pt

Caro leitor, Constantino Jardim diz-lhe alguma coisa?

Porventura, não. Mas de Tino Bala todos se lembram. A alcunha surgiu pela rapidez e pela facilidade com que fugia aos adversários, atributos que lhe valeram por uma vez a conquista da Bota de Bronze.

Constantino representa Salgueiros, União de Lamas, Águeda, Desportivo das Aves, mas vive o período mais feliz da carreira no Leça. Sete temporadas em Leça da Palmeira, três delas no escalão máximo do futebol português. Marca quase meia centena de golos pelo histórico emblema do concelho de Matosinhos e por pouco não chega à seleção de Angola.

Quase quinze anos após encerrar a carreira, Constantino é funcionário de um empresa municipal responsável pela gestão das infraestruturas desportivas em Matosinhos.

«Sou funcionário da Matosinhos Sport, uma empresa ligada ao desporto. Gerimos pavilhões desportivos relacionados com a patinagem artística e futsal. Gosto do que faço», conta ao Maisfutebol.

«O convite surgiu por causa da minha passagem pelo Leça. Aceitei a proposta com todo o agrado. Temos de fazer alguma coisa (risos). Tomo conta dos pavilhões: abro e fecho a porta, acompanho os treinos, faço a manutenção do espaço, trato de tudo o que é preciso para os jogos oficiais.»

Antes do emprego na Matosinhos Sport, Constantino arrisca e aposta na área da restauração. Onde? Em Leça, como não poderia deixar de ser.

«Fui dono de um restaurante-bar em Leça. Tínhamos menus do dia e fazíamos pratos por encomenda. Enfim, servíamos um pouco de tudo», revela, pedindo depois, delicadamente, para mudarmos de tema.

Deixar o futebol para abraçar um emprego normal não foi fácil. O «bichinho» mantém-se sempre. Por isso, Tino procurou manter-se ligado ao futebol mal deixou os relvados.

«Mal acabei a carreira, voltei ao Leça como adjunto. Era profissional na altura, o clube estava na antiga III divisão. Trabalhei com o Jorge Gonçalves e com o Madureira nos três anos em que lá estive. Ainda subimos de divisão», frisa.

«Depois comecei a acompanhar o meu amigo Abílio Novais, que foi meu colega no Campomaiorense. Estivemos juntos no Boavista, onde treinámos o Bruno Fernandes, e no Canidelo. O Abílio é muito competente, merecia outros patamares, mas o futebol é feito de oportunidades», acrescenta.

Constantino é reservado, nota-se no discurso. Pensa cada palavra e não se alonga muito. Porém, solta-se quando recorda os jogos em Vidal Pinheiro, Leça e no Levante.

«Comecei nas escolas do FC Porto com seis anos e segui para o Salgueiros. Cumpri a formação e subi a sénior com o Rodolfo Reis, com o cunho pessoal do Humberto Coelho que deu aval à minha chegada à equipa principal. Entrei em vários jogos, mas o ponto mais alto foi contra o Marítimo: entrei e marquei o meu primeiro golo na Liga. Eles tinham uma grande equipa, não perdiam há vários jogos. Ganhámos 1-0, nunca mais vou esquecer. E foi um golo muito bonito», refere, entre risos.

Por empréstimo do Salgueiros, Tino Bala representa o Desportivo de Águeda e Desportivo das Aves até ficar desempregado um par de meses.

«O meu contrato com o Salgueiros acabou e fiquei sem clube. Estava com o meu amigo Jorge Faria na praia e ele disse-me que o União de Lamas não tinha avançado. Falou com o Pedro Nery e fui lá. Assinei logo e acabei como o melhor marcador da II Divisão. É engraçado», relembra.

Por fim, chega ao Leça e brilha como nunca. 

«Subimos de divisão no segundo ano em que lá cheguei.  Massacrámos quase todas as equipas e fomos promovidos com mérito», assume, sem rodeios.

«Essa equipa era fantástica, há quem diga que é a melhor da história do Leça. Tínhamos uma união enorme. Lembro-me que íamos jantar todos tantas e tantas vezes. Tudo começava nesses jantares. Aliás, o Leça sempre foi conhecido pela união das suas equipas. Por isso, conseguia fazer pequenos milagres», defende.

Tino Bala descreve-se como «um avançado sem medo de marcar golos» e elege o jogo que mais o marcou: Leça-Tirsense.

«Ganhámos por 3-1. Fiz três golos e garantimos a manutenção. O Tirsense tinha uma grande equipa com o Caetano, Paredão, entre outros. Esse foi o mais importante porque garantimos a manutenção», explica.  

Um problema relacionado com a sua filha impediu que Constantino representasse a seleção angolana. Pelo contrário, o avançado teve a possibilidade de jogar em Espanha, defendendo as cores do Levante.

«O início foi complicado, estive dez ou 12 jogos sem marcar. Equacionei sair, mas o presidente não deixou. Mais, disse-me que ia contratar um avançado para me ajudar. Quando marquei pela primeira vez, senti-me como se tivesse vencido o Campeonato do Mundo. Fui com a minha família jantar com a claque do clube. As pessoas ficaram mais contentes que eu», rememora.

A memória ninguém apaga. Outrora estrela do Leça, Constantino passa os dias no anonimato, mas é feliz.

«Sou bem tratado, vejo jogos de futsal, tenho um ambiente fantástico no trabalho. Estou no mundo que gosto», conclui.

 

OUTROS TESTEMUNHOS NA RUBRICA DEPOIS DO ADEUS: 

Camiões, agricultura e pesca: a nova vida após dez anos na Liga

Palmeira: «Há cinco meses via um jogo de futebol e começava a chorar»

Daniel deixou o Corinthians e é chef de picanha e feijoada no Porto

Depois de Sporting e do Benfica, Carlos Martins lançou-se nos negócios

Do Pescadores para o Sporting e para a Era Imobiliária

Gabriel, o taxista: do FC Porto e do Sporting às ruas da Invicta

O capitão do Boavista que se dedicou às festas de aniversário

De avançado no FC Porto de Pedroto a assistente de arte em Serralves

Jogou 11 anos no Sporting, treinou com Scolari e agora é caixa no Lidl

Miguel Garcia, a nova vida do herói de Alkmaar

Jogou no Sporting e encontrou a estabilidade na Zara

Uma vida de pescador depois de 150 jogos na primeira divisão

Histórico do Beira Mar trocou futebol pelos consumíveis de soldadura

O campeão pelo Boavista que virou advogado

Gaúcho, o goleador do Estrela que se entregou aos cabelos

A história do antigo jogador que trabalha na Autoeuropa

O ex-capitão do Benfica que trabalha numa ONG e faz voluntariado

O professor que foi campeão pelo FC Porto e fez dois autogolos pelo Benfica

O capitão do Sporting que faz relógios de diamantes na Suíça

Ramires encontrou conforto a vender suplementos naturais

Da Geração de Ouro a chauffeur no Luxemburgo

De grande promessa do Sporting a comissário de bordo na TAP

Lixa: os sonhos traídos até à receção de um hotel em Paris

O outro mundo de Ricardo: a venda de casas no Algarve

Sem a família: as noites geladas num mercado do Luxemburgo

Gaspar: um histórico da Liga na metalomecânica de precisão

José Soares, do Benfica para a moda

Morato, com ele não há inseguranças 

João Paulo Brito, o mediador imobiliário

Diogo Luís, primeira aposta de Mourinho foi parar ao Banco 

Edgar Caseiro, o promotor de eventos 

Heitor, o Perfeito de Laranjal Paulista 

George Jardel: o vendedor que ouviu o aviso do coração

Campeão no Benfica é mestre do padel em Salamanca

O funcionário do pão quente com 42 internacionalizações

Ivo Damas: a segunda vida como comercial de automóveis

Um funcionário público pentacampeão pelo FC Porto

Mawete: hotelaria, agropecuária e piscicultura em Angola

Ivo: do choque com Mantorras à distribuição de encomendas

Hélder Calvino: segurança, barman e animador noturno

Cavaco: dos golos com Pauleta à segurança num centro comercial

Mauro mudou de rota: FC Porto, Chelsea e a TAP aos 24 anos

Vasco Firmino: o médico que marcava golos pelo Benfica

O jovem engenheiro que foi da Liga à reforma em dois anos

Aos 20 anos saiu do Benfica e trocou o futebol pela Fisioterapia

Idalécio: a nova carreira num famoso restaurante de Londres

Venceu Toulon, deixou de sonhar no FC Porto e procura novo rumo

Ex-goleador português remove amianto nos Alpes suíços

João Alves tem novo clube: uma comunidade de compras

Da baliza do Benfica ao trabalho em centrais nucleares

Nélson: um faz-tudo na gestão de espaços desportivos

Da dobradinha no Sporting a cultura, surf e skate em Sagres

«Gastei 200 mil euros em carros, agora nem 200 euros tenho»

Jogou seis épocas na Liga, agora é agente de viagens em Pombal

De jogador a rigger, do relvado à cobertura do Estádio da Luz

Bergkamp português dedica-se à terra e à produção de tijolo

Do futevólei ao quiosque, passando pela agência funerária

Após treze clubes em Portugal, Tiago instala condutas em França

Formoso: a vida entre a bola e as redes de pesca nas Caxinas

O motorista de táxi que jogou com Cristiano Ronaldo

Carlitos: «Arrisquei muito num restaurante de qualidade em Barcelos»

Jogou contra o FC Porto de Mourinho e ajuda crianças no Alentejo

Histórico da União dedica-se à venda de automóveis em Leiria

Da baliza do Benfica a um instituto superior da Noruega

O massagista bloqueado por Michael Thomas no Benfica

(Artigo originalmente publicado às 23:51 de 15-05-2019)