Depois do Adeus é uma rubrica do Maisfutebol dedicada à vida de ex-jogadores após o final das suas carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como passam os seus dias? Como subsistem longe do mundo do futebol? Confira os testemunhos, de forma regular.





Chef D’Pass






«Em março completam-se três anos desde a minha chegada a Londres. Comecei por vir sozinho, durante uns meses, e a minha família juntou-se a mim mais tarde. Vim sobretudo a pensar no futuro das minhas filhas e hoje posso dizer que valeu a pena. Estava a trabalhar na formação do Quarteirense mas as coisas não corriam da melhor forma e fiz as malas. Tinha o desejo do futebol mas sem grandes ilusões.»



«Sendo algarvio fui sempre falando inglês e isso foi importante quando cheguei aqui. O processo não foi nada fácil, ainda assim. No casino, por exemplo, o trabalho incluía a manutenção e a limpeza do espaço, era duro. Mas valeu a pena e hoje temos uma situação que consideramos boa.»



«A grande dificuldade foi a casa. Quem vem normalmente vive em casas partilhadas mas nós precisávamos do nosso espaço. Aqui, Os dois membros do casal têm de ter contrato de trabalho e os proprietários ligam para os empregos a pedir referências. Mas existem coisas muito boas, como as escolas públicas: aí só temos de comprar as fardas, que existem nas escolas e nos hipermercados, e depois as miúdas só precisam de levar uma caneta e um lápis. Todos os livros e material de apoio são por conta da escola.»



«Não é do sol que vamos viver. Infelizmente, Portugal está muito mal gerido. Acredito nesta altura que o futuro das minhas filhas passa por Inglaterra, um país onde não se liga à idade, onde somos valorizados, assente numa filosofia que tem tudo a ver connosco.»



Marisco português, clientes famosos e o restaurante sempre cheio

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«Ganha-se bom dinheiro embora os horários sejam complicados. A pouco e pouco vou conquistando o meu espaço e sinto que o futebol também me preparou para isto. No restaurante é preciso lidar com equipas, com diferentes tipos de pessoas, e durante a carreira fui várias vezes escolhido para ser capitão de equipa, talvez porque as pessoas gostavam da minha presença e do meu perfil.»



«Sou no fundo o intermediário entre a cozinha e o pessoal de 'floor', os 'waiters', empregados de mesa. Temos uma mesa com diversos mariscos, onde é possível encontrar marisco vindo do Algarve por influência do Décio, também antigo jogador de futebol, que tem uma boa relação com o proprietário do restaurante.»



«Ao almoço costumamos ter entre 60 e 150 pessoas, enquanto ao jantar pode chegar às 300 ou 400 pessoas! É um ritmo louco. Eu estou na parte de restaurante asiático, existe outro italiano e ainda uma zona de Lounge. Costumam passar por aqui várias personalidades ligadas ao futebol e vai dando para matar saudades. Já tive aqui portugueses como o Ricardo Quaresma, o Raul Meireles, o Bosingwa. O Cédric e o José Fonte também costumam passar por cá com alguma regularidade, para além de outras figuras do futebol.»






«Experiência mais gratificante foi jogar pelo Sp. Braga na Europa»



«A experiência mais gratificante da carreira foi jogar pelo Sp. Braga na Europa, sendo que nessa altura o Sp. Braga não tinha as condições que tem hoje. Fizemos coisas muito bonitas. Também fui feliz no Rio Ave mas as coisas não terminaram bem. No 2º ano, fui dos jogadores mais utilizados e quando Carlos Brito saiu para o Boavista quis levar-me com ele. Não deixaram, diziam que era muito importante. Mas passados um par de meses deixei de jogar e fui riscado.»



«Fico feliz pelo que consegui. Gostava de ter tido uma oportunidade num grande e, claro, na seleção nacional, mas tenho muito orgulho no que fiz durante a carreira. Atualmente, não preciso do futebol para sobreviver mas as pessoas lembram-se de mim, é bom sinal.»






«Quem joga no futebol português, exceto se passar pelos grandes ou pelo estrangeiro, não consegue juntar um grande pé de meia. Tive de fazer-me à vida, lutar. Trabalhei numa imobiliária no Algarve mas também não correu da melhor forma e acabei por emigrar.»



«O futebol jovem em Portugal atravessa um período muito mau, perderam-se muitos valores e não há uma mensagem positiva por parte dos pais. Por outro lado, claro que tive alguma mágoa pela falta de oportunidades no futebol quando terminei a carreira, mas agora estou bem e só volto ao futebol se for algo com pés e cabeça. Estou a deixar boa imagem aqui e posso crescer muito no mundo da restauração em Londres.»