Esta é aquela fase da campanha em que aparecem vozes a dizer que o mais importante é apoiar a selecção, não discuti-la.
Discordo.
Poucas coisas no futebol merecem discussão, numa base regular, como a selecção. Creio até que uma parte importante do problema é discutirmos pouco a equipa de todos nós.
Neste sentido, a frase de Carlos Queiroz na última conferência de imprensa tem a vantagem de ser clara. Ao recusar a discussão, o seleccionador abre-a.
Na linha de Luiz Felipe Scolari, Carlos Queiroz aparece cada dia mais crispado. Fica a sensação de que vê um inimigo em cada esquina. Tenta como pode escapar às responsabilidades que são suas, recorrendo a desculpas frágeis.
A má concretização e os erros de arbitragem.
A baixa taxa de transformação de remates em golos é um problema antigo em Portugal. Tem a ver com o sítio de onde se chuta e a qualidade do gesto. E também com o jogador que remata. No último jogo, por exemplo, os dois futebolistas com mais golos no currículo ficaram no banco: Liedson e Nuno Gomes. Queiroz escolheu outros, que falharam diversas oportunidades. Problema dele, logo nosso.
Os erros de arbitragem são uma queixa muito portuguesa. Nesta campanha, Carlos Queiroz pode lamentar uma ou outra decisão que podia ter saído ao contrário, mas é preciso lembrar que a selecção não foi vítima de nenhum erro clamoroso. Logo, disparar sobre os árbitros é absurdo.
Queiroz pode não querer discutir tácticas ou convocatórias com os jornalistas. Está no seu direito. Mas isso não quer dizer que os temas não sejam conversados e que as perguntas não sejam feitas. O seleccionador até podia gostar de calar algumas vozes e impedir certas questões. Pouca sorte. Esse tempo passou.
Pode ser que a selecção ressuscite e consiga pelo menos discutir o apuramento até ao fim. Queiroz, estou convencido, já não alterará a sua visão da história desta qualificação: é um treinador incompreendido pelos portugueses, azarado, perseguido pelos media e pelas arbitragens. Além de um génio da táctica, claro.
P.S.Claro que não precisamos do seleccionador para conversar sobre tácticas. No último jogo, por exemplo, a alteração que fez resultou muito bem. Tiago nasceu para aquele papel, Raul Meireles é o espanto que se conhece e o sistema tem a fantástica vantagem de libertar Deco do trabalho «sujo», o que lhe dá frescura e o coloca uns metros mais à frente. O único problema de Queiroz foi ter mudado tudo ao intervalo, sem perceber que a selecção acabara de se exibir a um nível poucas vezes alcançado nos últimos anos. Azar, diria ele se conversasse sobre o tema.