Livro: Dynamo, Defending the Honour of Kiev
Autor: Andy Dougan

Escrito como documento-ficção, o livro «Dynamo, Defending the Honour of Kiev» será adaptado para cinema, com Gerard Butler escolhido para protagonista. Aquela obra do escocês Andy Dougan, de 2001, tenta distinguir o que é factual sobre aquele jogo de futebol de 1942, com base em investigações de historiadores ucranianos e cujas conclusões chegam a ser mais surreais que a própria lenda. 

O trailer de Fuga para a Vitória

O palco é a capital ucraniana. A conquista de Kiev em 1941 foi fruto do maior cerco bélico conhecido e um dos maiores orgulhos militares de Hitler.

É, assim, no contexto de uma Ucrânia ocupada que decorre o jogo. A 9 de agosto de 1942, uma equipa da Lufftwaffe [a força aérea Nazi] defrontou o Dínamo Kiev.

Durante décadas, os alemães foram descritos como bem preparados, bem alimentados, numa equipa que continha «alguns profissionais e internacionais germânicos, enviados pelo chefe da Lufftwaffe, Herrman Goering, desde Berlim».

Os adjetivos para descrever os ucranianos são opostos: «esfomeados, magros e exaustos.»

A lenda continua assim: o árbitro era um membro da Gestapo, que antes da partida foi ao balneário ucraniano e fez um ultimato: «Vencem e morrem, perdem e sobrevivem.»

Do jogo em si há relatos da brutalidade alemã: numa das versões publicada na imprensa soviética, descrevem-se entradas violentas sobre o guardião e a fratura de uma perna a um avançado ucraniano.

Ainda assim, o Dínamo Kiev venceu por 5-3 e as consequências foram exemplo da bestialidade do Reich: os jogadores do Dínamo foram presos e torturados. Quatro foram executados. Os restantes foram depois enviados para centros de concentração. Sobreviveram para contar a história. Ou uma versão dela.

No resumo sobre o livro de Andy Dougan, na Amazon, escreve-se: «Um homem estava determinado a salvar não apenas os futebolistas do Dynamo, mas também outros atletas.» Esse homem era Otto Schmidt, um alemão nascido em Kiev.

«Ofereceu-lhes trabalho, abrigo e, mais do que isso, pão, como fruto do emprego deles na padaria. Inspirado pelo carismático guarda-redes Nikolai Trusevich [que será desempenhado por Butler], a equipa do Dínamo foi reformada com o nome de Start FC e foram agendadas várias partidas, as quais a equipa venceu magnificamente.»

A estátua de quatro jogadores do Dínamo que participaram no jogo (Ivan Kuzmenko, Nikolai Trusevich, Olexiy Klimenko e Nikolai Korotkykh)

Ora, entre factos e ficção, o livro logo aqui opõe-se à versão lendária dos acontecimentos: afinal, os ucranianos não estariam assim tão «magros e esfomeados»; estariam, até, em boa forma.

Também a equipa germânica não seria formada por internacionais alemães ou jogadores profissionais, mas antes por militares de serviço em Kiev.

Muito menos os ucranianos foram torturados e mortos – pelo menos por motivos futebolísticos. Os filhos que lhes sobreviveram disso deram conta e os historiadores encontraram testemunhas ucranianas que estiveram presentes no recinto.

Uma delas relata que o jogo foi «tenso, mas disputado com fair-play» e que «no final, as duas equipas apertaram mãos, posaram para fotografias e foram para casa.»

Onde é que a história mudou, então?

Logo após a guerra, os jogadores do Dínamo foram acusados de colaboração com os Nazis. Numa ideia propagandista formulada entre a polícia secreta soviética e o partido Comunista, terão acordado na censura da verdade para escapar ao fuzilamento.

O mito do Jogo da Morte terá nascido.

Uma primeira versão contrária à lenda desta partida foi escrita por Anatoly Kuznetsov, que na obra «Babi Yar: A Document in the Form of a Novel» desmistificou a história. Seria censurado e banido da URSS, em 1966.

Assim, só a partir de 1991, com a desagregação da União Soviética, surgiram novos factos sobre o que sucedeu no estádio Zenit, a 9 de agosto de 1942, em Kiev.

As investigações ucranianas foram ignoradas pelo russo Andrey Malyukov, que em 2012 realizou o filme Match, adaptação ao cinema da versão soviética que se orgulha da sobrevivência à bestialidade Nazi.

Já o livro de Andy Dougan aponta que o Jogo da Morte não terá sido bem assim. Terá sido, até, um pingo de humanidade no meio da mais atroz das guerras que o Mundo conheceu. 

Desconto de tempo é uma nova rubrica do Maisfutebol, de Luís Pedro Ferreira. Junta desporto e cultura, sobretudo o que é novidade. Sugestões? Siga para lpferreira@mediacapital.pt