Livro: The Boys in the Boat

Autor: Daniel James Brown

Seattle, Washington.

Aquela cidade do noroeste dos EUA não tem uma longa tradição de vitórias desportivas, em comparação com outras. Por exemplo, só em 1979 os Supersonics conquistaram um troféu da NBA e, apesar de o troféu Vince Lombardi (NFL) ter chegado neste ano, pela mãos e pés dos Seahawks, só as Storm conseguiram vencer a liga de basquetebol feminina em duas ocasiões. Ou seja, é coisa rara haver campeões nacionais em Seatlle, mais conhecida pela música do que propriamente pela faceta desportiva.

Por isso, o que aconteceu em 1936 teve ainda maior relevo para aqueles nove rapazes. Eles foram os verdadeiros campeões de Seatlle. Para figurarem na eternidade, porém, tiveram de ser bem mais do que isso, como nos conta em livro Daniel James Brown.

Herbert Morris, Charles Day, Gordon Adam, John White, James McMillin, George Hunt, Joseph Rantz, Donald Hume e Robert Moch formavam a equipa de remo da Universidade de Washington.

«Numa modalidade como esta – muito esforço, pouca glória, mas popular em todos os séculos – bem, deve haver alguma beleza que um homem comum não vê, mas que um que seja extraordinário consegue.» - George Yeoman Pocok, construtor dos barcos que venceram ouro olímpico em 1936, 48 e 52.

A história de The Boys in the Boat, literalmente os Rapazes no Barco, é-nos contada através de Joe Rantz, o ocupante do sétimo lugar no barco

Nenhum dos nove está vivo já, mas foi depois de uma conversa com Rantz que Daniel James Brown decidiu avançar para o livro. E logo no prólogo conta-nos um pormenor delicioso, de como a medalha de ouro ganha nos Jogos Olímpicos de 1936, andou desaparecida.

No livro, Rantz é o protagonista. Desde a infância à glória olímpica, sob olhar de Adolf Hitler. Ainda no prólogo, o autor explica que Rantz começou por verter as primeiras lágrimas quando falou em «o Barco».

Ao longo da obra, perceber-se-á que para Rantz e para aqueles nove rapazes de Seatlle, «o Barco» foi muito mais do que o campeonato nacional ganho frente a equipas bem mais poderosas, da California e da Costa Este; foi mais do que vencer a Alemanha Nazi com Hitler a ver na varanda, numa das corridas mais memoráveis de sempre da modalidade.

Para começar, todos eles eram do oeste do estado e nenhum tinha remado até entrar na Universidade de Washington. Tiveram de autofinanciar-se e partiram de Nova Iorque rumo à Alemanha.

A corrida foi à medida de Hollywood: os germânicos na pista 1, os EUA na 6. Reza a história que Rantz foi o único que deu conta do início da corrida e deu um grito aos outros.

Outro pormenor para acrescentar à lenda: Donald Hume estava doente e houve até quem garantisse que tinha desmaiado. O próprio contestou essa alegação, porém, 60 anos mais tarde.

Os EUA ultrapassaram a Itália e a Alemanha e chegaram ao ouro olímpico. Para Rantz e colegas foi muito mais do que isso. Para a Universidade e para Seattle pode não ter sido tanto, mas ficou para sempre.

«Naquela altura, não éramos uma cidade com equipas nas ligas profissionais. Não tínhamos ganho um campeonato nacional de futebol ou basquetebol. As pessoas identificavam-se com a equipa de remo da universidade. Eles eram tão bons quanto poderiam ser, no tempo em que o fizeram», declarou Bob Ernst, treinador de remo na UW, citado pelo Seattle Times, no dia em que Herbert Roger Morris, o último sobrevivente dos nove, faleceu.

Desconto de tempo é uma nova rubrica do Maisfutebol, de Luís Pedro Ferreira. Junta desporto e cultura, sobretudo o que é novidade. Sugestões? Siga para lpferreira@mediacapital.pt