DESTINO: 80's é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 80's.

TONY SEALY: Sporting (1987/1988) e Sp. Braga (1988/1989)

O raciocínio transporta-nos para lugares improváveis. A velocidade do pensamento acompanha a urgência da necessidade. Neste caso, de encontrar um nome. E lá vamos nós. 

Liga das Nações, Final Four. Portugal, Holanda, Suíça, Inglaterra.

Futebolistas holandeses? Falámos com Glenn Helder na passada semana. Helvéticos? Hmmmm, not really. E ingleses? Ingleses, isso. Ingleses com um passado em Portugal? 

Havia o British Benfica, claro, mas já tivemos Scott Minto e Gary Charles. E no Sporting? Ingleses no Sporting. Ralph Meade era uma hipótese, mas gostávamos mais de Tony Sealy. Avançado baixinho, entroncado, muito rápido, autor de 13 golos em 36 jogos oficiais. 

Por onde andará Tony Sealy? 

Pois bem, anda pelo outro lado do mundo, oito horas à nossa frente no fuso horário. O contacto inicial é feito por email, diretamente para o seu gabinete de luxo no Hong Kong Football Club. 

A secretária pessoal, Cecilia Pang, faz o resto. E aí está Tony Sealy, a alto e bom som, agora com 59 anos. «De Portugal? Uau, que surpresa. Eu acho que só os portugueses e a minha família sabem que joguei aí.»

Tony Sealy tem um cargo de grande importância no Hong Kong FC e na federação local. Foi treinador durante muitos anos e trocou recentemente os relvados pela secretária. Mas não troca a vida em Hong Kong por nada. Já lá está há 26 anos. 

Vamos à conversa com este simpático inglês. 

Os golos de Sealy na vitória no Restelo (4m20s e 6m40s):

Maisfutebol – Tony, que tal a vida em Hong Kong?

Tony Sealy – Bem, o que posso dizer? Em 1992 assinei um contrato de seis meses com um clube chamado Sun Hei. Estou cá há 26 anos e pretendo continuar (risos). A vida dá mesmo muitas voltas. Tenho um percurso cheio de aventuras e tudo por culpa do Sporting.

MF – Como é isso? Por culpa do Sporting?

TS – Exatamente. Até aos 29 anos nunca tinha saído de Inglaterra. Quando já não esperava nada do futebol, o senhor Keith Burkinshaw desafiou-me para aceitar o convite do Sporting. Um ano em Lisboa mudou completamente a forma como eu e a minha mulher, que está casada comigo há 40 anos, olhamos a vida.

MF – A temporada no Sporting abriu os vossos horizontes.

TS – Vivemos em São Pedro do Estoril, um sítio mágico. Tínhamos dois filhos e estávamos sobretudo interessados na minha carreira desportiva, no Sporting, e em criar bem as crianças. Não estávamos interessados em bares e em saídas à noite. Não havia melhor local para isso do que Portugal. Na Inglaterra joguei em bons clubes – Fulham, Crystal Palace, Leicester, QPR – mas no Sporting a pressão, a pressão boa, era muito mais alta. E consegui jogar na Taça das Taças, uma prova da UEFA. Sinceramente, chegámos a pensar ficar em Portugal durante muitos anos.

Sealy com a Supertaça ganha em 1987

MF – O Tony fez 13 golos no Sporting e foi quase sempre titular, mas saiu no final da época. Porquê?

TS – Fiz no Sporting uma das melhores épocas da minha carreira. Saí porque em 1988 chegou um novo treinador [o uruguaio Pedro Rocha] e havia um novo presidente [Jorge Gonçalves]. Nós tínhamos ficado no quarto lugar e eles quiseram mudar tudo. O senhor Gonçalves veio falar comigo, elogiou-me muito e depois dispensou-me (risos). Disse que só havia duas vagas no ataque e que o novo técnico trazia um sueco [Eskilsson] e o Jorge Plácido. ‘Vais ser emprestado a um clube da zona de Lisboa e depois regressas’. Recusei. Eu já tinha 30 anos, não podia andar em empréstimos. Entretanto, vários colegas do Sporting falaram-me do Sp. Braga. Clube organizado, em crescimento… aceitei.

MF – E só fez quatro jogos. Correu tudo mal?

TS – O Sp. Braga de 1988 não era o Sp. Braga de 2018. Não gostei, estava habituado a outra atmosfera. Senti que não era o que eu precisava naquela altura.

MF – Voltemos ao Sporting. Que clube encontrou em 1987?

TS – Um gigante europeu a atravessar uma fase difícil. O plantel era forte, mas todos sentíamos estar atrás do FC Porto e do Benfica. Basta dizer que o FC Porto tinha acabado de ser campeão da Europa, era uma equipa com uma intensidade impressionante. Ganhámos a Supertaça, pelo menos, com uma vitória por 3-0 na Luz. Que ambiente impressionante!

MF – Foi o seu melhor jogo com a camisola do Sporting?

TS – Não. Acho que o melhor jogo foi outro. Também no dérbi contra o Benfica, mas em Alvalade. 1-1. Alvalade estava a ferro e fogo, que ambiente fantástico. E também marquei quatro golos na Taça das Taças, nunca me esquecerei disso.

O golo de Tony Sealy ao Benfica (6m38s):

MF – Costuma rever as imagens desses jogos?

TS – (risos) Não, não. Tenho cassetes VHS em casa dos meus sogros, mas já não as vejo há muitos anos. Honestamente, não sou um tipo muito sentimental em relação ao meu passado no futebol.

MF – E como era ser o único inglês num balneário treinado por um inglês?

TS – Percebo a sua questão. O Keith [Burkinshaw] era um técnico old school. Teve mais dificuldades do que eu em Portugal. Acabámos por ser muito próximos, por razões óbvias. A forma de ele olhar para o jogo era ‘work hard, play hard’ (trabalhar no duro, jogar no máximo) e em Portugal o futebol pedia mais inteligência e paciência. Tentei, sobretudo, ser o elo de ligação entre ele e os rapazes, os meus colegas de equipa.

MF – Poucos falavam inglês?

TS – O Oceano falava bem. O Carlos Xavier também. Acho que eram os únicos. Por exemplo, eu jogava no ataque com o Paulinho Cascavel. Ele não falava inglês e eu não falava português. Era uma risota (risos). Lá nos entendíamos. O Oceano era um brincalhão. ‘Fala português, Sealy, fala!’. Que doido. Tantas vezes me cortou os dedos das meias. Eu chegava do duche, vestia-me e as meias estavam cortadas. Olhava para o Oceano e lá estava ele a rir-se como um perdido.

Sporting 87/88: Venâncio, Duílio, Oceano, João Luís, Vítor Santos e Rui Correia

 Cascavel, Cadete, Tony Sealy, Mário e Silvinho

MF – No balneário o ambiente era bom?

TS – Sim, quase sempre. Quando perdíamos era mau, claro. Ninguém no Sporting aceitava perder. Fora isso… só me lembro de uma situação má.

MF – Vamos lá ouvi-la. Pode contar?

TS – Na altura do Natal, o Sporting estava mal classificado [sexto lugar] e havia uma pressão enorme sobre o Keith Burkinshaw. Um jornal, não me lembro qual, fez uma primeira página com um canhão e uma bala a ser disparada. A cara do Keith era a bala e o título era qualquer coisa assim: ‘este ano não há peru para o Keith’. O pessoal estava a ler o jornal e a rir-se do treinador, mas eu não gostei nada daquilo. ‘Acham piada a isso? Estão a gozar com a vossa própria cara, já pensaram nisso?’

MF – O ambiente ficou mau?

TS – Não, não ficou porque o senhor Vítor Damas não deixou. Acalmou a malta, deu um abraço a todos… e passou. O Damas era o nosso Sean Connery, o nosso James Bond, um 007 cool. Sempre bem penteado, elegante, gentil e eloquente. Ele tinha deixado de ser titular, mas nunca perdeu a pose, a compostura pop. Tenho muitas saudades dele.

MF – E quem eram os melhores jogadores desse Sporting 87/88?

TS – Eu adorava o Silvinho, um esquerdino brasileiro, rápido e vertical. O Cascavel era golo, golo, golo. O Oceano era um tipo muito competitivo, da seleção. E tínhamos dois bons centrais, o Venâncio e o Duílio.

O bis de Sealy na Taça das Taças (16s e 1m18s):

MF – Explique-nos lá como passa de Lisboa, e de um futebol profissional, para a liga de Hong Kong.

TS – Como sabem, Hong Kong é uma antiga colónia britânica. Na fase final da minha carreira, desafiaram-me a fazer lá alguns meses, para ganhar algum dinheiro e ajudar o futebol deles a evoluir. Encontrei um sítio seguro, vibrante e onde fui tratado como uma celebridade. Eu não tinha nada disso em Inglaterra e pensei que seria um bom sítio para criar os meus filhos. Um deles, o Jack, joga pela seleção de Hong Kong e já esteve na Superliga chinesa. Tem 31 anos e é um futebolista de boa qualidade.

MF – O que faz o Tony hoje em dia?

TS – Depois de muitos anos como treinador, agora sou o Diretor de Operações do Hong Kong FC e conselheiro da federação de futebol. Tenho uma palavra na organização do futebol local e sou o principal responsável pela gestão das infraestruturas do meu clube. Além disso participo em vários programas desportivos na televisão. Honestamente, já não me vejo a sair daqui.

MF – E a Portugal, quando regressa?

TS – Ahhhh, é um dos meus desejos, falo muitas vezes com a minha mulher sobre isso. Ainda não conheço o novo estádio do Sporting. Um grande abraço aos sportinguistas e ‘Força, Sporting!’.

Tony com o filho Jack, internacional por Hong Kong

[artigo originalmente publicado às 23h50 de 21 de novembro]

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