DESTINO: 80's é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 80's.

PAULO SILAS: Sporting (1988 a 1990)

Elenco da seleção do Brasil no Mundial de 1986:

. Carlos, Paulo Vítor e Leão;

. Edson, Óscar, Edinho, Josimar, Júlio César, Mauro Galvão e Branco;

. Falcão, Júnior, Zico, Alemão, Sócrates, Elzo, Paulo Silas e Valdo;

. Muller, Casagrande, Careca e Edivaldo.

Selecionador: Telé Santana

Elenco da seleção do Brasil no Mundial de 1990:

. Taffarel, Acácio e Zé Carlos;

. Jorginho, Ricardo Gomes, Branco, Mozer, Aldair, Ricardo Rocha e Mauro Galvão;

. Mazinho, Dunga, Alemão, Bismarck, Valdo, Paulo Silas e Tita;

. Careca, Romário, Muller, Renato Gaúcho e Bebeto.

Selecionador: Sebastião Lazaroni.

Repetentes? Ora anotem, por favor: Branco, Mauro Galvão, Alemão, Valdo, Careca, Muller e Paulo Silas.

Paulo Silas, pois então, dois Mundiais no currículo e, entre eles, uma passagem importante pelo Sporting. Nos loucos anos 80 era assim. Os grandes de Portugal tinham a capacidade de contratar jogadores da seleção brasileira.

Ai as saudades, ai, ai. Silas, pois então, seja muito bem-vindo a este DESTINO: 80s.

Em Alvalade vivem-se dias turbulentos, Jorge Jesus não arranja forma de encontrar o par perfeito para Bas Dost. E se ele tivesse um Silas…? Ele sim, um número dez encantador, capaz de segurar, driblar, rematar de longe e até fazer golos de cabeça. Não era assim?

«Era pois. Na minha estreia pelo Sporting no campeonato português, em casa do Leixões, fiz um golo de peixinho. Até tive de me baixar para acertar de testa o cruzamento do Carlos Manuel, feito na direita».

A frescura da memória surpreende. O jornalista não esconde uma certa inveja. Saudável, pois claro. Lembra-se desse dia, caro Silas [n.d.r. 21 de agosto de 1988]?

«Cara, estava um calor danado. E o Estádio do Mar a abarrotar de pessoas [25 mil espetadores, rezam as crónicas]. O Sporting ganhou 0-2 e eu acabei o jogo abraçado ao meu amigo Mauro Ramos, central do Leixões na época. Primeiro jogo, primeiro golo (risos)».

Paulo Silas, 38 vezes internacional brasileiro, faz 52 jogos e 14 golos de leão ao peito. O de Matosinhos é «o único de cabeça», mas não o mais belo. Esse sai em Amesterdão numa vitória inesquecível [5 de outubro de 1988].

«Eu olhei para aquela equipa do Ajax… nem é bom pensar. Winter, Blind, Wouters. Então pensei, ‘é aqui e agora’. Vi o Stanley Menzo, na altura suplente do Van Breukelen na seleção da Holanda, um pouco adiantado e arrisquei um chapeuzinho. Saiu perfeito. Na mesma noite tive o melhor golo e a melhor exibição pelo Sporting».

Melhor golo, melhor exibição e, depreendemos nós, melhor repasto. Tudo à custa da vitória na Holanda e eliminação do todo-poderoso Ajax.

«Vencemos 4-2 em Alvalade e antes do segundo jogo o dono de uma marisqueira na Costa da Caparica fez uma aposta connosco: ‘se o Sporting se qualificar, há marisco para toda a gente, por conta da casa’. Voltámos de Amesterdão e fomos nesse dia jantar lá. Esgotámos o stock de marisco. Coitado do homem (risos)».

Paulo Silas (ao centro, em baixo) na seleção do Brasil

PAULO SILAS NA LIGA PORTUGUESA

. 1988/89. Sporting, 33 jogos/8 golos (4º lugar)

. 1989/90: Sporting, 12 jogos/3 golos (3º lugar)

TOTAL: 45 jogos/11 golos

TÍTULOS: nada a registar em Portugal

Melhor jogador do Mundial de Sub20 em 1985, estrela de um São Paulo fortíssimo, presença obrigatória na seleção do Brasil. E, depois, o Sporting. Como, quando e porquê o Sporting?

«Nos anos 80, Portugal era a porta de acesso a toda a Europa. Eu tinha 23 anos e o Sporting era um nome fortíssimo no Brasil. O Juan Figger [empresário] disse-me que o clube tinha um presidente novo, ambicioso, e que queria acabar com o domínio de Benfica e FC Porto».

Presidente novo, domínio de Benfica e FC Porto, projeto ambicioso. Ok, o déjà-vu passa já.

Em frente. Que presidente é esse?

«Jorge Gonçalves, bigode gigante. Lembra-se? Muito sorridente, gente boa. O problema é que ele estava sempre mais preocupado com o Porsche dele do que connosco (risos). Porsche para baixo, Porsche para cima, não parava».

Gonçalves promete um Sporting vitorioso. Não corre bem. A equipa acaba o campeonato no quarto lugar, é eliminada pela Real Sociedad na segunda ronda da Taça UEFA e cai contra o Belenenses nas meias finais da Taça de Portugal.

Paulo Silas, é importante sublinhar, faz uma temporada brilhante: 40 jogos, sempre a titular, e 11 golos.

O que falha, então? Tudo, a não ser o motor do Porsche?

«Não, não foi assim. Tínhamos um plantel muito forte. O grande Vítor Damas, Morato, João Luís, Fernando Mendes, eu e o Carlos Xavier, o Mário Jorge, o Douglas, o Oceano… os problemas eram outros, não a qualidade da equipa».

Paulo Silas num jogo contra o Marítimo

O Maisfutebol lá insiste no assunto. Silas, simpatiquíssimo e apaixonado pelo Sporting, evita ao limite a recordação de temas fraturantes. Mas lá sai um ou outro desabafo.

«Problemas financeiros, administrativos… e a força de FC Porto e Benfica. Infelizmente, o futebol é assim. Acabei por sair sem ser campeão, apesar de nas minhas duas épocas o Sporting ter construído plantéis fantásticos».

Memória fantástica, lembram-se? Paulo Silas começa a percorrer a lista de adversários. O Maisfutebol não o interrompe.

«O Porto tinha uma defesa incrível e craques no ataque: Geraldão, Celso, Semedo, Juary, Madjer, Bandeirinha, Rui Barros, Casagrande… E no Benfica não era diferente: Mozer, Ricardo Gomes, Aldair, Lima, Vitor Paneira, Magnusson. Na verdade, não era fácil ao Sporting ser campeão».

«Saí do Sporting porque o clube não pagou o meu seguro»

Em Lisboa, Paulo Silas tem a primeira experiência fora do Brasil. Recém-casado e com a esposa grávida do primeiro filho, o internacional brasileiro entrega-se a «uma vida tranquila e concentrada no futebol».

«Eu tinha sempre em mente a seleção do Brasil. Não podia escorregar, não. Isso ficava para os meninos (risos). Litos, Filipe, Peixe, todos eles rapazes incríveis», conta o antigo médio do Sporting, uma das figuras mais importantes dos leões nos anos 80.

Silas trabalha com três treinadores: Pedro Rocha, Manuel José e Marinho Peres. Cria «uma excelente relação» com todos e até com o polémico Sousa Cintra, o presidente que sucede ao homem do Porsche, Jorge Gonçalves.

O único problema, garante, está relacionado com uma questão financeira. Uma questão que o leva a abandonar Alvalade em 1990, em vésperas do Mundial de Itália.

«É importante esclarecer isso. As pessoas pensam que parei vários meses devido a uma lesão grave. Mentira. Eu fiz uma pequena entorse no tornozelo em Wembley, contra a Inglaterra, mas recuperei rapidamente».

Sporting 88/89: R. Rodriguez, Morato, Miguel, J. Luís, F. Mendes e C. Xavier (cima)

Lima, Oceano, P. Cascavel, Paulo Silas e C. Manuel (baixo)

Paulo Silas faz o último jogo pelo Sporting na Luz. Derrota por 2-1 e golo [25 de março de 1990]. Outro golo, tal como na estreia.

«Depois há a tal lesão e o problema é fácil de explicar: o meu seguro desportivo foi acionado e o Sporting não teve condições para pagá-lo. Empurraram a questão para a federação brasileira, a federação para o clube e eu fiquei ali no meio, infelizmente».

Após o Mundial de 1990, Paulo Silas assina pelo Cesena e depois joga ainda na Sampdoria, para regressar ao Brasil com a camisola do Internacional.

Em 2006, com 41 anos, o adeus aos relvados no Inter de Limeira. A carreira de treinador começa no Paraná, como adjunto, e passa por Fortaleza, Avaí, Grémio, Flamengo, Avaí, Qatar, Náutico, América Mineiro, Portuguesa, Ceará, ABC e, novamente, Avaí em 2016.

Quase sempre na companhia de Paulo Pereira, irmão gémeo e anterior convidado no DESTINO: 80s, e Rui Maside, colega de equipa nos tempos do Sporting.

«Tenho uma carreira bonita e em 2016 surgiu mesmo a hipótese de treinar o Marítimo. Não deu, mas tenho o objetivo de trabalhar em Portugal. Sou apaixonado pelo futebol europeu, estou sempre atualizado e gosto de trabalhar vários sistemas: 4x1x4x1 resulta muito bem, tal como o 4x2x3x1, utilizado por alguns gigantes europeus».

Silas é um treinador «organizado e ofensivo».

O «chapéu» de Paulo Silas em Amesterdão (55 segundos):

«Figo era a terceira opção para trinco. Chegou a melhor do mundo»

Paulo Silas é um bom comunicador, esclarecido. E tem uma longa carreira, cheia de boas histórias. Uma delas mete Luís Figo ao barulho.

«Conheci esse menino no Sporting. Sempre caladinho, jogava a trinco nos treinos. Era a terceira opção para o lugar», conta ao Maisfutebol.

«Uns anos depois encontrei-o em Barcelona, num jogo amigável. Mal o vi disse-lhe logo: ‘minha nossa, o melhor jogador do mundo nem lugar tinha na equipa de suplentes do Sporting’. Que atleta fabuloso, um craque incrível».

E há outra, esta talvez mais conhecida. «No Mundial de 90, os argentinos ‘adormeceram’ o Branco durante cinco minutos (risos). Perdemos esse jogo nos oitavos de final. Eu entrei e ainda fiz um bom passe para o Muller. Nunca mais me esqueci desse episódio da ‘água batizada’. Pobre Branco!».

«Foi um privilégio jogar dois Mundiais pelo Brasil. Infelizmente não fui campeão do mundo. Em 1986 tínhamos uma equipa fantástica e perdemos contra a França nos penáltis, noutro jogo em que fui suplente utilizado. Estive em grandes momentos no lado dos derrotados».

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