DESTINO: 90's é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 90's.

Alex Bunbury: Marítimo (1993 a 1999)

Chegou quase como um desconhecido, partiu com obra feita e brilhante. Letal em frente à baliza, melhor marcador da história do Marítimo, Alex Bunbury é, ainda hoje, o canadiano mais emblemático da história da Liga lusa. Foram seis anos e quase 60 golos sempre com o mesmo emblema ao peito. Aprendeu a gostar do Marítimo e o amor ficou para sempre.

Alex, o Alex do Marítimo, é figura incontornável dos anos 90, a ponto de, em 1994/95, ter sido eleito o melhor estrangeiro a jogar em Portugal. A título de exemplo, havia por cá homens como Emerson, Balakov ou Cannigia. Mas foi Alex, em ano de ouro para o Marítimo, que pela primeira vez chegou à final da Taça de Portugal, a ficar com a distinção.

Passaram mais de 20 anos desde essa altura. Há 17 que Alex deixou o Marítimo e Portugal, já no final da carreira. Por estes dias, é treinador numa Academia de futebol no Minnesota, nos EUA. Trouxe uma equipa a Portugal para um período de testes com o Sporting. E é em Lisboa que atende o telefone para falar com o Maisfutebol.

Alex: a camisola do Marítimo entre Barcelona e Man. City

É, então, Alex o cicerone ideal para esta viagem no tempo que começa em 1993, ano em que aterrou na Madeira. Praticamente rumo ao desconhecido.

«Não conhecia nada do Marítimo. Só sabia que era uma equipa da I Divisão e sabia que a Liga portuguesa era boa. E eu queria era jogar, portanto era o suficiente (risos). Mal cheguei apaixonei-me pela ilha da Madeira e pelo clube. Foi tudo muito bom», começa por dizer.

Alex estava em Inglaterra, no West Ham, onde tinha chegado há um ano. Mas pouco jogava. «Não estava a jogar porque viajava muito para representar a seleção na qualificação para o Mundial 94», explica. O treinador, Harry Redknapp, disse-lhe que assim seria difícil. «Estava a viajar muito», lamenta Alex.

«Eu queria era jogar, sentia que podia jogar. Entao, o Edinho tornou-se treinador do Marítimo e eu tinha jogado com ele no Canadá, alguns anos antes. Quando soube que eu tinha problemas no West Ham, convidou-me para vir para o Marítimo. Disse que sim, porque queria jogar futebol. Vim, gostaram de mim, assinei e, como dizem, o resto é história. Nem acredito que ainda sou o melhor marcador de sempre do Marítimo. Foi uma transferência muito boa para mim», defende.

O resto é história, como diz bem Alex. Uma história que se escreve com muitos números. De jogos e de golos.

Os números de Alex no Marítimo

1993/94- Marítimo (20 jogos/4 golos)

1994/95- Marítimo (39 jogos/12 golos)

1995/96- Marítimo (26 jogos/10 golos)

1996/97- Marítimo (27 jogos/8 golos)

1997/98- Marítimo (30 jogos/11 golos)

1998/99- Marítimo (33 jogos/15 golos)

Alex marcado por Alexi Lalas num EUA-Canadá

«Benfica? Nem deixei que chegasse uma proposta»

A paixão de Alex pelo Marítimo só é correspondida pela dos adeptos insulares por Alex. O Marítimo voltou a ter bons avançados, como Gaúcho, Manduca ou Derley. Nenhum, contudo, despertou a mesma paixão de Alex.

«Não sei porque gostavam tanto de mim. Se calhar era porque jogava com paixão. Eu sei que houve jogadores melhores do que eu, até no Marítimo, certamente, mas mesmo nos jogos que não me corriam bem eu dava tudo em campo. Tive sempre muito respeito pela equipa e acho que as pessoas gostavam da forma como me entregava ao jogo», explica Alex.

A paixão, de resto, é recíproca, como faz questão de sublinhar: «O Marítimo é o meu clube. Vai ser sempre o meu clube. É o meu amor. Deram-me oportunidade de jogar na Europa de forma regular, fui muito bem tratado por todos.»

Aliás, Alex gostava tanto do Marítimo que só decidiu sair quando quis «abrandar a carreira». E não foi por falta de oportunidades.

«Tive oportunidade de sair do Marítimo, mas, sinceramente, estava tão bem e era tão bem tratado que acabei por optar por renovar o contrato. Que clubes? Sei que o Benfica era um deles. Não disse ‘não’ ao Benfica, atenção. Sabia que estavam interessados mas nem deixei chegar ao ponto de chegar uma proposta: disse ao Marítimo que não queria sair, queria renovar. Também o Bari e a Udinese, de Itália, falaram com o Marítimo para saber como me poderiam contratar», revela.

«Quando saía de casa pensava: será que o Carlos Jorge aprova esta roupa?»

Em seis anos num clube, é natural que Alex tenha criado ligações fortes. Companheirismo e amizade, claro. Em campo, por exemplo, lembra a dupla com Paulo Alves. «Provavelmente foi com ele que fiz a melhor dupla», afirma.

Mas atalha logo de seguida: «E o Edmilson, claro. Meu Deus, o que jogava o Edmilson! Quero que toda a gente saiba: aquele homem tinha um talento fenomenal. Era excecional.»

No banco conheceu, também, vários líderes, mas um destacava-se: «Paulo Autuori! Era fantástico.»

«Inspirava os jogadores. Tinha uma forma fenomenal de falar connosco. Acreditávamos que eramos os melhores do mundo», recorda.

O onze do Marítimo na final da Taça de Portugal em 1995

Quanto a amizades, Alex também guarda boas memórias. «Tinha três grandes amigos no balneário: Vado, João Luiz e Everton. E o Romeu também. Ahhhh e o Soeiro! Como me ia esquecer! Meu Deus, se ele lê isso e vê que eu me esqueço dele! (Risos) Era um grande, grande amigo. Ok, já não são bem três…», atira entre risos.

O tema agrada a Alex. É notório. Quisemos saber quem eram os mais brincalhões do balneário e o canadiano aponta logo dois nomes, sem pensar muito: Vado e Carlos Jorge. Depois, faz algum silêncio, e acrescenta: «Deve estar surpreendido por ter dito o Carlos Jorge, não? Mas era…Ninguém imagina como ele era.»

Pedimos exemplos, claro. Alex ri-se muito e lá conta um: «Estava sempre a gozar com o que os outros vestiam, principalmente o Romeu. Dava por mim a vestir-me em casa e a pensar: ‘Será que o Carlos Jorge aprova esta roupa ou vai gozar com isto?’. Tínhamos todos de ter cuidado com o que levávamos vestido para os balneários.»

A final da Taça sem jogar «nada de especial» e as camisolas de Baggio e Vialli

Depois de conhecer por dentro o balneário do Marítimo naqueles anos, passamos a conversa para os duelos nos relvados. É daí, de resto, que Alex guarda as melhores recordações, como conta.

Lembra-se, por exemplo, que os jogos mais difíceis eram contra o V. Guimarães. «Estávamos ali sempre os dois a lutar por um lugar na Europa», recorda.

«Tenho a certeza que qualquer pessoa diria os três grandes. Eram, de facto, muito difíceis, tinham os melhores jogadores, tinham muito apoio. Tinham uma vantagem grande para as outras equipas. Mas, sinceramente, para nós, se calhar por não termos a mesma responsabilidade, eram jogos fáceis. Perdíamos mais do que ganhávamos, mas nem nos dávamos mal contra eles.»

Aliás, um desses duelos está marcado na memória de Alex como o melhor de sempre em Portugal. As meias-finais da Taça de 1995 foram decididas nos Barreiros. O Marítimo ganhou 1-0, com golo de Alex.

«Todos lembram que eu marquei aquele golo, mas a verdade é que nem joguei nada de especial nesse jogo. Gigante foi o Everton na baliza. O FC Porto massacrou-nos em alguns períodos e ele defendia tudo. Este jogo vem-me sempre à memória. Foi dos melhores da minha carreira, não pelo que fiz mas pelo que significou para o povo do Marítimo e para o presidente Rui Fontes, que merecia uma festa assim», destaca.

Outro duelo marcante foi duplo, com a Juventus, para a Taça UEFA, na mesma temporada. O Marítimo enfrentou a poderosa Juventus. Perdeu ambos os jogos mas nem se deu mal: 1-0 em casa, 2-1 em Turim. Foi à justa…

«Foi muito, muito especial», lembra Alex. «Aquela equipa tinha o Baggio, Ravanelli, Vialli. Mas nós não tínhamos medo. Nem deles, nem de ninguém. Estávamos confiantes e fizemos dois bons jogos, mesmo tendo perdido», considera.

Desses duelos guarda recordações especiais: «Marcou-me que no final do jogo de Itália, o Baggio veio falar comigo, pediu para trocar de camisola comigo e deu-me os parabéns, disse-me que eu era bom jogador. Já o Vialli tinha feito o mesmo na Madeira. Isto marca uma carreira.»

Roberto Baggio e Alex Bunbury

Um filho profissional, outro a caminho, um músico e uma atriz

Em 1999 Alex deixou o Marítimo, depois da época mais goleadora em Portugal. Foram 15 golos. Chegou aos 59 com a camisola madeirense, algo que mais nenhum jogador conseguiu superar até hoje.

«Saí na altura certa. Tinha mais um ano de contrato mas queria abrandar a minha carreira e voltar à América porque também queria lançar um outro projeto», conta.

Hoje, como se disse, Alex é treinador numa Academia nos EUA, mas não se fica por aqui. Está a lançar um projeto inovador em Guiana, o país de onde é natural. Arrancou em janeiro, quando negociou com o governo local a construção de uma infraestrutura de apoio aos jovens locais que desejem praticar desporto.

«O Governo aceitou trabalhar comigo neste projeto, cedeu o terreno e dá um apoio financeiro. É um acordo muito bom para o país, que precisava de algo assim grande. Especialmente para os pobres. Dar-lhes esperança e oportunidades, não só no futebol mas também noutros desportos e até noutras áreas de estudo», explica.

É ainda presidente e proprietário de uma equipa local, o Fruta Conquerors FC, e segue a carreira dos filhos. Theo é jogador profissional no New England Revolution, da Major League Soccer. Matteo, o mais jovem, é ainda um projeto que tenta lá chegar. Logan deixou o futebol e dedicou-se à música. Kylie, a menina do grupo, não é menos famosa: não joga futebol mas é uma das protagonistas da série «Pitch» que passa no canal FOX.

Kylie Bunbury, filha de Alex, na série «Pich»

De Portugal, Alex guardava apenas uma mágoa. E guardava é o tempo verbal correto.

«Só me arrependi de não me ter despedido como queria, mas consegui fazê-lo agora, quando voltei à Madeira, há dois meses. O presidente Carlos Pereira deixou-me subir ao relvado e fui muito ovacionado. Caíram-me lágrimas. Foi impressionante. Um dos melhores momentos da minha vida», garante.

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