Técnica

Começamos pelo melhor golo da carreira, segundo o próprio. Apontado aos suíços do La Chaux-de-Fonds, na primeira eliminatória da Taça dos Campeões Europeus de 1964/65. «Uma obra de arte», descreveu Eusébio ao Maisfutebol, por ocasião da publicação do livro «Sport Europa e Benfica». «Esse golo foi uma inspiração. Tabelei com o Simões e apareceram os dois centrais. Ameaçei e o primeiro protegeu a cara. Ameaçei outra vez e o segundo protegeu a cara. Depois rematei sem a bola cair. Quando o guarda-redes tentou defender já a bola tinha passado. Toda a gente já festejava quando olhei para o lado e lá estava ele para me cumprimentar», acrescentou o «Pantera Negra». Um lance que mostra toda a qualidade técnica de Eusébio, que levanta a bola ao primeiro toque, para ela voltar a cair apenas no fundo da baliza.

Arranque imparável

Eusébio era praticamente imparável quando embalava em velocidade. Procurava a bola a meio-campo, longe da área, e depois partia para cima dos defesas de peito feito e olhos postos na baliza. Foi assim que marcou um grande golo na goleada ao Real Madrid (5-1), em fevereiro de 1965, para a Taça dos Campeões Europeus. «Foi, sem dúvida, um dos melhores jogos da minha vida», disse Eusébio ao Maisfutebol. «Marcou-me muito porque consegui voltar a marcar dois golos ao Real, e desta vez sem penalties, o que é melhor. Esmagar uma equipa que tinha Santamaria, Puskas e Gento, com 85 mil pessoas a ver, foi mágico!».

Épico

A carreira de Eusébio esteve associada a momentos épicos. Um deles foi vivido em Bratislava, a 25 de abril de 1965. A seleção portuguesa visitou a Checoslováquia, vice-campeã do mundo, e venceu por um a zero, num jogo em que perdeu Fernando Mendes muito cedo (não havia substituições) e com José Pereira a defender um penálti. O único golo do encontro foi apontado por Eusébio, com uma espantosa jogada sobre a direita, deixando Portugal praticamente qualificado para o Mundial.

Fenómeno global

Eusébio já era uma estrela europeia, por força das campanhas do Benfica na Taça dos Campeões Europeus, mas as exibições no Mundial66 elevaram-no a fenómeno mundial. Na última jornada da fase de grupos Portugal venceu o Brasil por 3-1. Pelé, que se lesionou frente à equipa das quinas, foi mais cedo para casa, e Eusébio assumiu-se como estrela da prova, da qual foi melhor marcador. O golo ao Brasil, aquele que sentencia o 3-1 final, surge aqui como um símbolo do que o «Pantera Negra» fez em Inglaterra, sem esquecer a incrível exibição frente à Coreia do Norte.

Fulgurante

Eusébio tinha defrontado Pelé pela primeira vez cinco anos antes. Foi no Torneio de Paris, a sua estreia internacional de águia ao peito. Primeiro defrontou o Anderlecht, jogo em que marcou um golo, e depois fez um «hat trick» ao Santos mesmo começando no banco de suplentes. Um início fulgurante, frente àquela que era então a melhor equipa do mundo. O Santos venceu esse jogo, tal como depois a Taça Intercontinental. Em 1966 veio a «a terrível vingança da bola quadrada», como escreveu o mestre Carlos Pinhão, em «A Bola».

Decisivo

Eusébio aparecia nos momentos decisivos. Renunciava à pressão, jogava como se estivesse ainda no Bairro de Mafalala, em Maputo. Em 1962 conquista o título europeu com o Benfica. Na final de Amesterdão, frente ao Real Madrid, o «King» marca os dois golos que desequilibram o marcador (5-3). O último de livre direto, aos 68 minutos, a garantir o troféu. No final foi levado em ombros. «O Benfica foi a primeira equipa a travar o Real Madrid num só jogo. Eu e Simões éramos estreantes em finais, não tínhamos estado em Berna. Foi uma grande satisfação, das melhores que tive na minha carreira», disse.

«Drible»

Eusébio era um jogador muito forte no duelo individual, pela forma como atacava o defesa. Não se tratava só de velocidade ou poder físico, era também fruto de uma espantosa capacidade de «drible». O «Pantera Negra» teve sempre companhia à altura, tanto no Benfica como na Seleção, mas por vezes bastava meter a bola na frente que ele fazia o resto. Veja-se este golo ao Sporting.

Desportivista

Eusébio era respeito por colegas e adversários. Até mesmo os guarda-redes que sofriam com as suas «maldades» tinham imenso respeito pelo «Pantera Negra». O guarda-redes do La Chaux-de-Fonds quis cumprimentá-lo depois de um golo, e no caso de Alex Stepney foi o próprio Eusébio a procurar um aperto de mão. Eusébio foi amigo de Yashin, mas foi com o eterno rival Damas que manteve uma amizade ainda mais próxima. Uma relação imune a golos como este, de 1972/73.

Especialista em bolas paradas

Eusébio era um avançado completo, forte em quase todos os aspetos, e as bolas paradas eram uma das especialistas. Ora por baixo da barreira, ora por cima, ou até mesmo através dela, que os adversários tremiam com a potência do seu remate. Eusébio rematava em força, mas também com colocação, como se pode ver por este golo ao Sp. Braga, em 1967/68, numa goleada por 4-0 só com golos do «King».

Sacrífício físico

A carreira de Eusébio foi também feita de dor. Basta recordar os problemas nos joelhos, nomeadamente o esquerdo, muitas vezes sacrificado quando isso era tudo menos recomendável. Foi um preço a pagar pelo talento. Aos defesas restava a falta para travar o «Pantera Negra», que procurava sempre prosseguir com a jogada, como naquele lance frente à Coreia do Norte, no Mundial66, que acabou em penálti. Aqui apresentamos um lance em que Eusébio consegue marcar ao FC Porto de ângulo difícil, conseguindo antecipar uma carga dura, ainda que sem evitá-la.