No meio de homenagens sem fim no dia que viu partir Alfredo Di Stéfano, uma memória com 52 anos, que diz tanto. Amesterdão, 2 de maio de 1962, final do Benfica-Real Madrid. Eusébio acabava de se tornar campeão europeu, mas não era nisso que pensava. Só uma ideia o movia: conseguir a camisola dele. Don Alfredo, a lenda.

«A taça não me dizia nada, o que eu queria era a camisola do Di Stefano. Era mais importante para mim, ele estava noutro patamar. Havia muitos outros grandes jogadores, mas ele era o maior», contou Eusébio em várias ocasiões, nesta ao Maisfutebol: «Pedi ao Coluna, que já o conhecia, para lhe pedir a camisola. No final tirei a minha e corri para ele. Os outros corriam para a taça, eu corria para a camisola.»

Depois daquela final, uma espécie de passagem de testemunho para a lenda, a admiração tornou-se recíproca. Evoluiu para uma amizade, feita de respeito. Eusébio definia Di Stéfano como o jogador mais completo que já viu.

Não era apenas Eusébio quem o via assim. É desse modo que o definem muitos dos que o viram jogar. Também José Augusto, que fazia parte daquela equipa do Benfica. Mais velho e mais experiente, recorda ao Maisfutebol como partilhava com o então jovem Eusébio a admiração pelo gigante do Real Madrid.

«O Eusébio, que não o tinha visto jogar tantas vezes como eu, ficava extasiado com o que lhe contava», recorda José Augusto, sem dúvidas: «O Di Stéfano foi o jogador mais completo que vi.»

«Tinha tudo. Condição morfológica, visão de jogo, capacidade técnica, jogava extremamente bem de cabeça. Era sem dúvida um jogador cerebral. Resolvia, defendia, marcava e organizava», embala: «Era um avançado que jogava com o número 9, mas que percorria todas as zonas do terreno. Iniciava ataques e contribuía para a finalização do Puskas. Hoje não há um jogador como foi Di Stéfano. Don Alfredo, como eu lhe chamava.» 

Uma amostra:

Alfredo Di Stefano é memória coletiva. É da Argentina, da Colômbia e de Espanha, do River Plate e do Boca Juniors, do Millonarios e do Real Madrid. Um bocadinho de Portugal também, ele que chegou a estar em Lisboa no verão de 1974 para treinar o Sporting. Já lá vamos a essa história.

Di Stéfano é do mundo e está acima dele, como só os grandes. A notícia da morte de Don Alfredo, 88 anos acabados de fazer, chegou a meio da tarde desta segunda-feira. No sábado sentiu-se mal e foi internado, a seguir a um almoço para comemorar o seu aniversário, perto do Santiago Bernabéu, o estádio do clube de que foi a grande referência histórica, o Real Madrid.

As reações chegaram de todo o mundo. Diego Simeone, o treinador do At. Madrid, despediu-se assim dele, poesia como só os argentinos sabem dizer:

Que nunca falte a Don Alfredo uma bola, a sua amiga de sempre. Foi a ela, a bola, que Di Stéfano dedicou a sua biografia. O título era «Gracias, vieja», o nome carinhoso que chamava àquela a quem dizia dever tudo.

E tudo foi tanto, na carreira incrível daquele a quem chamaram a «Saeta Rubia», «Flecha Loira». Di Stéfano nasceu na Argentina a 4 de julho de 1926, cresceu para o futebol no River Plate, tornou-se grande no Millonarios da Colômbia e depois mudou-se para Espanha. Esteve para ser do Barcelona, foi do Real Madrid. Chegou a Espanha em 1953.

Foi com ele e com a grande equipa que formou naqueles anos que o Real Madrid atingiu a dimensão global que tem hoje. Foi cinco vezes campeão europeu com a camisola branca, tornou-se símbolo do clube. Presidente honorário, para sempre.

Vestiu as camisolas das seleções dos três países, nunca chegou a jogar um Campeonato do Mundo. É talvez o maior jogador de sempre que nunca passou por um Mundial.

Acabou a carreira de jogador no Espanhol, em 1966, aos 40 anos. Tornou-se treinador. Começou pelo Elche, depois voltou à Argentina, para treinar o Boca Juniors. Seria campeão com os xeneizes, também viria a sê-lo com o River Plate. A sua experiência mais marcante como treinador aconteceu no Valência, por duas vezes. Foi campeão de Espanha em 1971 e ganhou a Taça das Taças em 1980.

Treinou duas vezes o seu Real Madrid, foi lá que se despediu de vez do futebol ativo, em 1990/91, quando substituiu John Toshack e orientou a equipa ao lado de Jose Antonio Camacho.

De Benidorm para o Sporting, sem chegar a assinar

Pelo meio, o seu caminho cruzou-se com o Sporting. Foi no verão de 1974. Di Stéfano tinha deixado o Valência e João Rocha, então presidente dos «leões», chegou a acordo com ele. Saiu depois do primeiro jogo oficial da época, sem ter chegado a assinar contrato.

Augusto Inácio, então com 19 anos, dava os primeiros passos nessa equipa. «Tenho a ideia de que a contratação do treinador naquela ano foi um bocado conturbada», conta o agora diretor dos leões ao Maisfutebol: «Falou-se que o João Rocha tinha ido a Benidorm para contratar o Di Stéfano.»

Di Stéfano chegou mesmo e fez a reta final da pré-temporada com a equipa. Fernando Tomé, jogador do Sporting nessa altura, partilhou nesta segunda-feira uma recordação dessa digressão.

Ao Maisfutebol, Tomé deixa a sua impressão sobre aquelas semanas. «Os treinos eram bons, eram ótimos. Ele foi construindo uma ideia sobre o que era a equipa. E queria reforçá-la. Penso que foi aí que começaram os problemas. Queria um «portero», como ele dizia, mas nós tínhamos o Damas e o Botelho. Também queria um lateral-esquerdo, mas estavam lá o Carlos Pereira, o Baltazar e o Inácio, que tinha sido promovido à primeira equipa. E queria um avançado, quando tínhamos o Yazalde, o Dé, o Dinis. Houve alguma confusão e algum desentendimento entre ele o presidente.»

No campo as coisas também não correram bem. Logo no Brasil. «Fomos a um torneio internacional em Belo Horizonte, tivemos dois jogos. Um com o At. Mineiro, que empatámos 2-2, depois perdemos 6-0 com o Cruzeiro. Quando chegámos ao hotel houve uma divergência entre Di Stéfano e João Rocha», recorda Tomé.

Não ficou por aí. «Depois fomos ao Torneio Internacional de Sevilha, que não correu favoravelmente, perdemos com o Bétis e o Sevilha. Ainda fizemos um torneio em Faro, acabámos por perder com o Farense nos penáltis.»

Chegou o início do campeonto. Di Stéfano não foi para o banco na primeira jornada frente ao Olhanense, explica Tomé, «porque não tinha contrato assinado e não estava legalizado para se apresentar como treinador». Foi Osvaldo Silva quem se sentou no banco, num jogo que os leões perderam, a primeira derrota de sempre frente ao Olhanense. Fernando Tomé acredita que foi essa a gota de água para a ruptura entre João Rocha e Di Stéfano.

Inácio, por seu lado, diz que nunca percebeu bem o que se passou. «Não sei se partiu do Sporting, se partiu dele. Havia quem dissesse que o Sporting não gostou da forma dele trabalhar, outros que foi ele que não gostou da forma como se trabalhava com o Sporting.»

Foi pouco tempo, Inácio não tem recordações marcantes dessa passagem de Di Stéfano por Alvalade: «Daquele mês e qualquer coisa não deu para perceber que tipo de treinador era.»

Quanto a Tomé, recorda o entusiasmo de ser treinado por um dos seus ídolos de menino: «A minha infância foi passada a vê-lo e àqueles grandes jogadores. Só o facto de ele estar na minha frente para mim era algo extraordinário. É um dos mitos do futebol.»

Di Stéfano é um dos poucos que chegou a esse patamar, o dos mitos imortais. «Como o nosso Eusébio. Como Pelé, ou como Cruijff, por quem tenho uma grande admiração», diz Tomé. Inácio completa: «Há jogadores que marcam uma época e ficam para a eternidade. Di Stéfano foi um deles, tornou-se um mito.»

As reações à morte de Di Stéfano dizem tudo. Clubes, jogadores, treinadores, anónimos, o mundo a lembrar a lenda. Hashtags como #DEPDonAlfredo, #HastaSiempreDonAlfredo foram tendência no Twitter ao longo do dia. Chegaram de todo o lado.

Ídolos de hoje, como Messi ou Cristiano Ronaldo, que foi apadrinhado por Don Alfredo, ao lado de Eusébio, no dia em que chegou ao Real Madrid. E ídolos de sempre.

Pelé

Maradona

Cruijff

Lembraram a lenda e também o homem. «Um homem maravilhoso», chamou-lhe José Mourinho. Até ao fim com «curiosidade de menino», como dizia ao Maisfutebol há dois anos, numa entrevista a propósito do Euro 2012. Espirituoso, muitas das suas ideias e tiradas fazem parte do imaginário do futebol. Como esta: «Marcar golos é como fazer amor. Todo o mundo sabe como se faz, mas ninguém o faz como eu.» Ou esta: «Nenhum jogador é tão bom como todos juntos.»

«Era um homem extraordinário, de uma gentileza extraordinária», completa José Augusto, aproveitando para contar uma provocação de Di Stéfano do tempo da revolução em Portugal: «Em maio de 1974 a FIFA tinha-me convidado para ir a Paris ver um jogo entre o Milan e o Real Madrid. Eu já só jogava no torneio do CIF, mas no fim de semana anterior parti o nariz. Fui ao médico mas disse que não queria ser operado, porque tinha que ir para Paris. Puseram-me um penso e fui. O Don Alfredo, quando me viu, atirou-me: «Foram os comunistas que te fizeram isso?»

José Augusto, que este ano já viu partir Eusébio e Mário Coluna, dois antigos companheiros que estão lá, entre os grandes,  agarra-se às memórias. «Que Don Alfredo esteja em paz. Para nós fica o imaginário e as recordações. Essas ninguém as tira.» 

Para nós, todos os outros, ficam as lendas. Agora também a de Di Stéfano. Gracias, Viejo.