Diego Lopes

Basta ter em conta que Diego Lopes já foi mais vezes titular esta época (jogou de início em nove dos dez jogos disputados) do que em toda a época passada (oito vezes titular em vinte e um jogos). E esta é, na realidade, a primeira temporada como sénior, já que o primeiro ano de Rio Ave foi ainda com idade de júnior.

Diego Lopes sempre andou mais rápido que o tempo. Chegou a Lisboa em dezembro de 2008, para reforçar a equipa de iniciados do Benfica, então treinada por Bruno Lage. «Nem sequer veio à experiência, como é habitual. Já estava contratado. Quem falou comigo foi o Rui Costa. Disse-me que me estava a colocar um diamante nas mãos», conta o técnico, atualmente no Al Ahli do Dubai, ao «MF Total» .

Lage recorda um «menino envergonhado», mas também «muito humilde» e com «vontade de trabalhar». «Lembro-me que dizia que se não desse para jogar ao meio jogava na esquerda ou na direita», acrescenta.

Afirmação rápida no Seixal

O impacto foi imediato. Diego Lopes fez um treino e foi logo convocado para o Torneio Cidade dos Campeões, em Vila Real de Santo António. Foi o melhor marcador da prova. Conquistou a titularidade na equipa de iniciados e deu importante contributo para a conquista do título nacional, quebrando um «jejum» de vinte anos.

Na época seguinte, a primeira de juvenil, Diego já era chamado aos juniores. «Sempre fui apologista disso. Só faz é bem. Se o rendimento se mantém, não vejo mal nenhum. Pelo contrário», defende Bruno Lage.

A rápida evolução de Diego Lopes despertou mesmo o interesse de grandes clubes europeus, mas também criou dúvidas no Brasil, quando esteve alguns meses a treinar no Palmeiras. Ademir Prevelato, antigo diretor da formação do «Verdão», entretanto falecido, contou ao «Folha de S. Paulo» que Diego só não tinha sido inscrito por não ter apresentado alguns documentos, o que levantou dúvidas em relação à idade.

No centro de estágio do Seixal este depoimento gerou brincadeiras no balneário. «Chamávamos-lhe velho falsificado ou velho mentiroso», recorda Daniel Martins, colega no Benfica e atualmente ao serviço do Beira Mar.

A questão da idade terá sido confirmada pelo Benfica através de exames médicos. «Essas brincadeiras acontecem com todos os jogadores. Se formos ver na formação de Benfica, Porto ou Sporting, nomeadamente nos iniciados, há sempre um jogador de enorme maturidade», explica Bruno Lage.

Diego manteve-se indiferente às suspeitas oriundas do Brasil, e mostrou sempre poder de encaixe para as brincadeiras dos colegas. «Para além da qualidade técnica era alguém que eu admirava fora do campo, por ser sempre muito brincalhão», recorda Daniel Martins ao «MF Total».

Mas não era pela personalidade que o médio encantava o Seixal. «Tinha uns pezinhos de mestre», afirma o antigo colega. «Já era craque, uma das grandes promessas do clube. Está a jogar na Liga e eu sinto orgulho nele», acrescenta.

Portas da Liga fechadas na Luz mas abertas nos Arcos

O brasileiro acabou por não chegar à equipa principal do Benfica. Ao contrário de Bernardo Silva, por exemplo, a nova «coqueluche» da formação encarnada, que andou muito tempo na «sombra» do brasileiro. «O Bernardo também mostrava muita qualidade, e nunca baixou os braços», lembra Daniel Martins.

O jogador do Beira Mar recorda que «existia muita concorrência» no Benfica, mas que Diego «conseguiu chegar à Liga por outros caminhos», e acredita que «é uma questão de tempo» até alcançar a afirmação. «Sabemos como é difícil o ano de transição para os seniores», lembra.

E Diego Lopes só agora tem idade de sénior, lembra Bruno Lage, embora já esteja a cumprir a segunda temporada no principal escalão do futebol português. «Fico feliz que esteja a conseguir coisas boas. É tudo uma questão de oportunidade. O mesmo se passou com outros jogadores que estiveram tapados pelo Diego. Ele tinha jogadores de enorme potencial na equipa principal, como o Aimar e outros. Mas tem qualidade e potencial, e felizmente surgiu outro clube», afirma.

O técnico, atualmente no Dubai, fala de um jovem com «enorme sentido coletivo». «Tem muita qualidade individual, pode resolver jogos sozinho, mas também tabela, também constrói jogo», sustenta.

Já apelidado como «o novo Kaká», até pela admiração que tem pelo compatriota do Milan, Diego Lopes está, aos 19 anos, muito a tempo de confirmar aquilo que se espera(va) dele. «Tudo depende da evolução e das oportunidades. Aquilo que está a conseguir já é muito bom. Pode ter um futuro risonho, se continuar a trabalhar com humildade», diz Bruno Lage.