Domingo à tarde é uma rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da Liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, histórias de vida e futebol.
 

«Vi-o ao sprint contra o Kone e o Papy Djilobodji, jogadores jovens, mas o Ibrahimovic foi mais rápido e mais forte do que eles», José Mourinho a 26 de dezembro de 2016.

Em Manchester brilha o «jovem» Ibrahimovic, em Pinhal Novo destaca-se o «jovem» Janício. Recorda-se do cabo-verdiano que ao serviço do Vitória de Setúbal venceu a Taça da Liga?

Aos 37 anos representa o Pinhalnovense, faz parte do «onze» do conjunto do Campeonato de Portugal e em conversa com o Maisfutebol garante: «Não há ninguém que corra mais que eu».

A história do futebolista começou nas areias de Cabo Verde, a sua terra-natal, terreno que lhe deu a resistência hoje tem.

«Joguei muito tempo em areia, foi lá que comecei a treinar e deu-me muita resistência. Na minha carreira nunca tive uma rotura, uma lesão grave. Treinei sempre e senti-me sempre bem. Acho que a areia ajudou nisso», explicou: «Ou foi disso ou da cachupa!»

A propósito dessa longevidade vem a frase de José Mourinho, treinador que foi citado por Janício:

«O Mourinho uma vez disse e bem que há jogadores velhos que são mais jovens que os jovens. Eu sinto-me um jovem, corro mais do que qualquer um ainda», destacou.

Está na segunda época no Pinhalnovense, clube que representou o seu regresso a divisões inferiores: «Já não jogava há muito tempo, há 12 ou 13 anos. Encontrei um bom futebol, com jogadores de qualidade, mas não é o alto nível.»

Ambição não falta a Janício e pensar em pendurar as botas não está nos seus planos ainda: « Não penso em parar, vejo ano a ano porque o futuro só a Deus pertence. Não sei o que me pode acontecer, quero continuar a jogar para já.»

«Ainda hoje tinha lugar no Vitória de Setúbal»

Janício chegou a Portugal no início do século, vindo do Barcelona do Tarrafal para o Estrela da Amadora, em 2002, mas apenas esteve meia época na Reboleira.

Saiu para o Torreense, onde esteve três temporadas a jogar na II Divisão B. Foi no clube de Torres Vedras que deu nas vistas e saltou diretamente para o Vitória de Setúbal, em 2005.

Quatro temporadas no Sado, mas há uma que não esquece, a da conquista da Taça da Liga.

«A Taça da Liga foi um feito inédito. Fizemos um bom percurso, eliminámos o Benfica que era o favorito e depois na final ganhámos ao Sporting. Podem ganhar quantas taças quiserem, mas ninguém apaga que fomos nós os primeiros. Foi um momento muito feliz.»

Os festejos da Taça da Liga

Carlos Carvalhal era o treinador e nomes como Edinho, Bruno Gama, o campeão europeu Eduardo, Matheus ou Claudio Pitbull componham o elenco sadino.

«Era fácil jogar», diz o lateral. «Aquela equipa jogava muito bem, estava muito bem entrosada. O mister Carvalhal era um bom treinador. As coisas aconteceram naturalmente», reiterou.

Fez 150 jogos pelo V. Setúbal nas quatro épocas (40, 31, 41, 38) e saiu após um... «mal-entendido».

«Estava a acabar o contrato e começamos a falar. Eu queria uma casa e eles falaram que pagar o empréstimo de uma casa não era o mesmo que pagar um carro, mas eu garanti-lhes que pagava num ano e meio, mas ninguém quis. Nenhum presidente que passou por lá quis. Em 2009 estava a acabar contrato e pensei em mim. Fui de férias com a minha mulher para a Holanda, a terra dela, e o Anorthosis foi para lá estagiar e surgiu a proposta. Liguei para o V. Setúbal e tomei a minha decisão.»

Rumou ao Chipre porque ninguém lhe deu ouvidos e foi à procura de melhores condições.

«Ganhei dinheiro lá, estou bem, mas foi tudo do meu suor e trabalho, nunca tive pais no futebol. Desde 2013/14, em que estive quatro meses no Covilhã e depois um ano e meio sem jogar, que pago para jogar futebol.»

O que o motiva é a paixão, a qualidade que ainda tem e a vontade de regressar à I Liga. Janício nem se quer tem dúvidas:

«Ainda hoje tinha lugar no Vitória de Setúbal, não fosse um mal entendido e nunca tinha saído de lá. Até hoje ainda não vi ninguém melhor.»

Foi em Setúbal que viveu a grande conquista da Taça da Liga, está em Setúbal a desilusão pela forma como as coisas terminaram e foi quando vestia a camisola sadina que apareceu uma proposta de um «grande».

«Recusei o FC Porto quando estava lá», disse.

Mas porquê?

«Por valores», atirou de imediato e completou: «Mas não me arrependo de nenhuma decisão que tomei na carreira, escolhi sempre pelo meu bem.»

Janício não se alongou, diz que as coisas acabaram por não chegar a bom porto e critica muitos agentes desportivos, sobretudo os presidentes: «Tenho mais do que capacidade para estar na I Liga, as pessoas olham muito para a idade, têm uma mentalidade muito má aqui em Portugal.»

Mas Janício não quer falar muito disso, quer falar de futebol e nesse tema não se cansa de repetir:

«Não há ninguém que tenha mais determinação, vontade, empenho que eu. Passo isso aos mais novos, porque sou dos mais experientes, para que tenham sempre ambição.»

Os episódios de racismo que nunca o fizeram perder o foco

Chegou a Portugal em 2002 e teve apenas um interregno de três anos, no qual representou o Anorthosis (2009 a 2012).

Sobre a adaptação ao futebol português explica que não foi muito difícil porque a sua mentalidade ajudou, mas falou em episódios de racismo que podiam ter dificultado.

«Quando cheguei vivi momentos difíceis porque ouvi muitas coisas. Chamavam-me «macaco», «preto», é difícil ouvir isso, mas infelizmente no futebol há sempre disto. Não fui abaixo porque tinha muito focado o meu objetivo de chegar ao topo.»

E será que em 2017 as coisas melhoraram?

«Creio que está tudo igual. Ainda há umas semanas um colega meu viveu esse tipo de comentários e lidou mal com isso. Tive que lhe dizer para esquecer e pensar naquilo que quer para a carreira.»

Um elogio que faz, e que diz ter sido uma sorte, é aos balneários por onde passou. «Sempre tive grandes grupos, de trabalho, com muitos momentos para recordar.»

Janício com Liedson

Janício conseguiu chegar ao topo do futebol português e foi internacional por Cabo Verde por 16 vezes, tendo apontado dois golos.

Nunca jogou o Campeonato das Nações Africanas (CAN), competição em que os cabo-verdianos só participaram por duas vezes, em 2013 e 2015.

«Não tenho essa tristeza, tive o meu tempo na seleção. Agora há bons valores a aparecer e a seleção vai continuar a crescer.»

O internacional pelos Tubarões Azuis continua a trabalhar como nunca e a alimentar o sonho que sempre o moveu.

«Joguei com muita gente, jogadores que depois foram para grandes em Portugal, para Inglaterra. Também tive as minhas oportunidades e ainda vou voltar. Não me importo com os nomes, não me arrependo de nada. Estou feliz aqui, mas quero subir.»

São 37 anos, muitos jogos, muitos minutos, poucos golos, mas sempre muita vontade. Vontade essa que nunca acaba.

Será que ainda vamos ver o «jovem» Janício de regresso aos palcos principais? Ele avisou que vai voltar!

 

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