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Tuck liderou o «sonho» do Sacavenense, esta temporada, de subir à II Liga, mas a duas jornadas do final da fase de subida uma derrota em Fátima terminou com as aspirações e o treinador não conteve as lágrimas após o apito final.

O histórico do Belenenses e Gil Vicente é treinador principal há quatro temporadas, depois de ter estado na formação do Belenenses, e foi nesta época que teve mais sucesso.

 

A equipa de Sacavém venceu a Série G, do Campeonato de Portugal, foi a melhor defesa da fase regular e é também na fase de subida -Zona Sul, mas não confirmou os pergaminhos. Tuck explica que subir nunca foi objetivo, era «um sonho».

«Era um sonho apenas, não era a nossa obrigação subir, éramos obrigados a lutar pelos três pontos em cada jogo, foi isso que fizemos até agora e é isso que vamos continuar a fazer até ao fim», começou por dizer o treinador.

Foi com esta mentalidade que o Sacavenense conseguiu garantir a vaga para disputar a ascensão, mas não confirmou o trajeto. Apesar disso, Tuck só tem elogios a fazer:

«Tenho que dar os parabéns a toda a estrutura. À direção pelas condições que nos deu em função das limitações orçamentais, à minha equipa técnica e aos jogadores que foram os grandes obreiros desta época enorme. Trabalharam dia a dia para estar sempre bem e fizeram uma época que foi extraordinária e que só não foi brilhante porque não conseguimos o tal sonho. Parabéns a eles.»

Tuck iniciou a carreira de treinador principal em 2013/14 no Sintrense, muito por culpa de Rui Gregório, antigo companheiro quer no campo quer no banco, a quem agradece o «empurrão» e o conhecimento que lhe transmitiu.

«Só sou treinador por causa do Rui Gregório porque foi ele que deixou o meu nome no Sintrense para que desse continuidade ao trabalho dele. Em termos táticos e em termos de influência foi o Rui Gregório o principal responsável, pela qualidade de organização e qualidade tática. Foi a pessoa que me levou para o campo, nunca me vou esquecer dele. Infelizmente teve que sair do Sintrense e deixou lá o nosso nome para iniciar a carreira.»

Foi assim que tudo começou e nessa temporada Tuck manteve a equipa do Sintrense no Campeonato de Portugal, ficando no quinto lugar, e no ano seguinte assinou pelo Loures, já no decorrer da época. Conseguiu também a manutenção no quinto lugar.

2015/16 foi mais irregular, dividido entre Casa Pia, Sertanense e o Sacavenense, clube no qual terminou a época e deu continuidade esta temporada.

Se no ano passado conseguiu a manutenção, vencendo no play-off de descida as Águias do Moradal, este ano lutou para a subida e Tuck acredita que ter transitado de época foi um ponto a seu favor: «Acredito que podemos concretizar a preparação total de uma época. Claro que houve essa continuidade e preparação atempada. Foi meio sonho entrar na fase de subida e mesmo fazendo uma segunda fase boa não conseguimos materializar em mais pontos e isso tirou-nos a hipótese de poder discutir a subida.»

A base deste sucesso foi a organização defensiva, já o tinha dito o guarda-redes Hugo há uns meses, algo que Tuck procura trabalhar de forma exímia. Sofreram seis golos em 18 jogos da fase regular, mais nove em 12 jogos (até ao momento), sendo a melhor defesa em ambas as fases.

«O pormenor da organização defensiva reconheço que será onde o treinador poderá ter mais influência, porque ofensivamente depende da inspiração e qualidade individual dos seus jogadores. Agora, a preparação é desde os avançados, os primeros a defender, até ao posicionamento dos guarda-redes. Os jogadores foram inexcedíveis ao acreditarem neles e em nós, e aqui é que está o segredo. O homem se estiver predisposto a evoluir, o jogador mais facilmente potenciará as suas capacidades.»

E voltou a elogiar os jogadores: «Se eles não acreditarem, não há plano que resista.»

Apesar dos números o Sacavenense não vai subir, mas Tuck diz que há dois ou três jogadores que podem dar o salto.

«Tenho respeito por todos e estou agradecido a todos, mas não vou realçar nenhum. Todos têm muito valor e há dois ou três que poderão subir de escalão.»

E será que o próprio Tuck vai subir de patamar?

«Acredito sempre que posso ir para um patamar superior porque, eu e a minha equipa técnica, achamos que temos capacidade e competência para estar mais acima. Temos que ver a nossa realidade em função dos dirigentes acreditarem no nosso trabalho. A única coisa que posso dizer é que as pessoas do Sacavenense continuam a acreditar no nosso trabalho e nos próximos tempos o futuro ficará definido.»

Jorge Jesus, Carvalhal e Rui Jorge: as influências para além de Gregório

Em 17 anos como profissional de futebol, Tuck só representou três equipas. O Prado, nos escalões inferiores logo no início da carreira, e depois foram nove épocas de Gil Vicente e sete anos de Belenenses.

Conheceu muitos e diferentes treinadores ao longo dos anos e desde cedo sentiu que iria enveredar por uma carreira de técnico.

«Acreditava que podia ter alguma influência em termos tático-organizativos, mesmo como jogador tentava analisar o adversário e observar o meu desempenho em campo. A partir daí, fui trabalhando com os cursos de I e II nível para me preparar e depois é acreditar naquilo que fazes e naquilo que és.»

Ficou por muitos conhecido em Belém como «Eterno Capitão», mas apenas foi o principal capitão no último ano de carreira (Filgueira ou Wilson eram os líderes). Perguntámos a Tuck se este reconhecimento surgiu devido à sua personalidade em campo e o antigo médio respondeu assim.

«Espero que tenha sido, eu pautava-me como jogador, e como treinador também, pelo respeito pelo trabalho, pela paixão pelo jogo. Gostava de me ligar às pessoas, aos funcionários, dirigentes e colegas. Baseio-me muito no respeito e na partilha.»

Seria por isso uma extensão do treinador em campo?

«Não sei, eu gostava de perceber o que os treinadores me pediam individual e coletivamente e tentava interpretar isso em função das minhas limitações técnicas, físicas e táticas e potenciar-me. Se eu era a extensão ou não... os treinadores é que têm que responder.»

Tuck trabalhou com vários treinadores e, como é normal, diz que foi «influenciado» por todos. Mas há quatro que merecem destaque, para além do já mencionado Rui Gregório.

«Além da competência técnica e tática do Vítor Oliveira, destaco a sua maneira forte de liderança, que me deixou no Gil Vicente e depois no Belenenses», e depois mencionou os três que lhe ficaram marcados pelo treino e pela «parte estrutural»:

«Juntando essa influência do Vítor Oliveira e do Rui Gregório, àquilo que eu acredito em termos táticos, o 4-4-2 ou 4-1-3-2, houve mais três treinadores que me influenciaram pela forma de trabalhar e identificação em termos táticos: Jorge Jesus, Rui Jorge e Carlos Carvalhal.»

E o motivo para o destaque destes três é o seguinte: «Todos eles privilegiam a organização pelo físico. Se a equipa não estiver organizada ofensivamente e defensivamente, se taticamente não estiver organizada, não adianta estar bem fisicamente. Correndo mal parece que a equipa está desorganizada.»

Tuck está em início de carreira de treinador e esta temporada fica inevitavelmente marcada pelas chicotadas psicológicas, quer na primeira quer na segunda liga. A pergunta que se impunha era se alguém a começar o percurso fica assustado por tanto despedimento.

«Vejo treinadores com alguns anos a sair também. Os resultados balizam muita coisa, mas não explicam tanta chicotada. É falta de coerência, de acreditar em quem vão buscar. No futebol não há paciência, há critério e classe. Ou as pessoas acreditam em quem lidera ou então deixam de acreditar e trocam de treinador.»

Mas isso são outras contas e para já Tuck quer continuar a evoluir para chegar a esses palcos.

Naturalmente há dois clubes que gostava de treinar.

«Naturalmente gostava de treinar o Gil Vicente e o Belenenses, não escondo que são duas equipas que marcaram de forma muito forte a minha carreira. O futuro a Deus pertence, as equipas estão bem entregues, que é o mais importante. Se um dia surgir, será juntar o útil ao agradável.»

 

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